Otan abre reunião de cúpula sob pressão da guerra na Ucrânia e divergências entre aliados

Encontro em Ancara reúne líderes da aliança militar em meio a cobranças de Kiev por mais armamentos, promessas de investimentos bilionários e novas tensões envolvendo Donald Trump

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) inicia nesta terça-feira (7) sua reunião de cúpula em Ancara, na Turquia, em um cenário marcado pelo agravamento da guerra na Ucrânia e por divergências entre os próprios integrantes da aliança militar, informa o portal g1. O conflito iniciado com a invasão russa continua dominando a pauta do encontro, ao mesmo tempo em que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intensifica os apelos por apoio militar diante da escalada dos ataques promovidos por Moscou.

A Otan reúne países da América do Norte e da Europa em um pacto de defesa coletiva, cujo principal objetivo é garantir a segurança de seus membros diante de ameaças externas. Neste ano, porém, além do desafio imposto pela guerra, a organização também enfrenta debates internos sobre financiamento, divisão de responsabilidades e o papel dos Estados Unidos na aliança.

Um dos momentos mais aguardados da cúpula será o encontro bilateral entre Zelensky e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo um alto funcionário do governo dos EUA, que falou sob condição de anonimato, “O presidente se reunirá com ele para falar sobre como podemos pôr fim à guerra. Essa é uma prioridade há muito tempo”.

Ainda de acordo com a mesma fonte, Trump “abordará posteriormente” o tema com o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Ucrânia cobra reforço na defesa aérea

A reunião acontece poucos dias depois de um dos ataques russos mais devastadores contra Kiev neste ano.

Na segunda-feira (6), Volodymyr Zelensky voltou a cobrar dos aliados ocidentais o envio de sistemas de defesa Patriot prometidos anteriormente.

Segundo autoridades ucranianas, bombardeios com mísseis balísticos e drones deixaram 22 mortos na capital. Dados divulgados pela Força Aérea da Ucrânia indicam que nenhuma das 23 armas balísticas lançadas pela Rússia foi interceptada.

Durante pronunciamento em vídeo, Zelensky criticou a lentidão na ampliação da capacidade de produção de sistemas antimísseis.

“É simplesmente absurdo que, no mundo moderno, a produção ainda não tenha sido ampliada para o nível realmente necessário para proteger as pessoas do terror balístico”, disse.

A Ucrânia enfrenta atualmente escassez de interceptadores utilizados pelos sistemas Patriot, considerados um dos equipamentos de defesa aérea mais sofisticados desenvolvidos pelos Estados Unidos.

O equipamento, fabricado pela empresa estadunidense Raytheon Technologies, entrou em operação ainda na década de 1980 e passou por sucessivas atualizações tecnológicas. Desde que foi enviado para a Ucrânia, em 2025, tornou-se uma das principais ferramentas de proteção contra ataques com mísseis russos.

Moscou, por sua vez, classificou o envio do sistema como uma provocação por parte do Ocidente.

Investimentos bilionários na defesa

Além do conflito na Ucrânia, a cúpula também será marcada pelas discussões sobre o fortalecimento da capacidade militar da Otan.

Na véspera da abertura do encontro, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, anunciou que novos contratos deverão movimentar “dezenas de bilhões de dólares” destinados ao reforço da estrutura de defesa dos países integrantes.

A iniciativa busca ampliar investimentos em armamentos, equipamentos e infraestrutura militar diante do atual cenário geopolítico.

Trump amplia pressão sobre aliados

Apesar do anúncio de novos investimentos, o encontro ocorre em meio ao desconforto provocado pelas recentes declarações de Donald Trump sobre a própria Otan.

Na última sexta-feira (3), o presidente dos EUA voltou a criticar o modelo de financiamento da organização, afirmando que os Estados Unidos assumem um peso desproporcional na manutenção da aliança.

“É ridículo os EUA continuarem nesse caminho unilateral quando a relação não é recíproca. Eles não estiveram lá por nós!!!”, escreveu Trump na rede Truth Social.

O presidente estadunidense também continua pressionando os países aliados a ampliarem seus gastos militares e mantém a posição favorável à anexação da Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca, que integra a Otan.

A proposta já provocou reações negativas entre diversos governos europeus.

Atritos com Giorgia Meloni

As tensões diplomáticas também atingiram a relação entre Donald Trump e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.

Nos últimos dias, o presidente dos EUA voltou a fazer críticas à líder italiana após afirmar que ela teria “implorado” para tirar uma fotografia ao lado dele durante a reunião do G7 realizada na França, em junho.

Meloni rebateu a declaração e afirmou que as alegações eram “completamente inventadas”.

Na segunda-feira, Trump voltou a provocar a premiê ao publicar em sua rede social uma imagem manipulada digitalmente na qual Giorgia Meloni aparece olhando para ele de forma admirada. A postagem foi acompanhada da legenda: “Ordem de restrição necessária”.

Até o momento, a primeira-ministra italiana não comentou a nova publicação.

Agenda inclui reunião com líder sírio

Além dos encontros relacionados à guerra na Ucrânia e às discussões internas da Otan, Donald Trump também deverá se reunir durante a cúpula com o presidente interino da Síria, Ahmed al Sharaa.

O encontro integra a agenda paralela da reunião em Ancara e ocorre em um momento de reorganização política no Oriente Médio e de intensificação das articulações diplomáticas envolvendo diferentes atores da região.

Com a guerra na Ucrânia longe de uma solução, pressões por maior investimento militar e divergências entre importantes integrantes da aliança, a reunião da Otan deverá servir como um importante teste para a capacidade de coordenação política e estratégica do bloco diante dos desafios atuais.

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