A produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ganhou novos capítulos de tensão após informações da Agência Nacional do Cinema (Ancine) revelarem que a produtora responsável pela obra nunca lançou nenhum filme no Brasil ou no exterior.
Segundo a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a empresa Go Up Entertainment, comandada pela jornalista Karina Ferreira da Gama, aparece no centro das discussões sobre o financiamento milionário da produção, que já se transformou em alvo de ações judiciais, pedidos de investigação e disputas políticas em Brasília.
Levantamento realizado pela Ancine aponta que, além da Go Up, as outras duas empresas registradas em nome de Karina — a Go7 Assessoria e o Instituto Conhecer Brasil — também nunca tiveram obras audiovisuais lançadas em cinemas, televisão aberta ou canais fechados no país.
As informações surgem em meio à crise provocada pela divulgação de reportagens do Intercept Brasil envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como articulador da captação de recursos para o longa-metragem.
Filme milionário e empresas sem produções
Segundo dados obtidos pelo Globo junto à Ancine, a Go Up Entertainment teve registro confirmado apenas em julho de 2025 e permanece em situação regular. Apesar disso, a empresa nunca lançou qualquer produção audiovisual.
A suspeita levantada nos bastidores do setor é de que a companhia tenha sido criada especificamente para viabilizar “Dark Horse”.
Documentos registrados na Junta Comercial de São Paulo mostram alterações no objeto social da empresa em junho de 2025, pouco antes do avanço da produção do filme.
Karina Ferreira da Gama reconheceu que os recursos para a produção começaram a chegar em março de 2025, enviados por um fundo administrado no Texas pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Somente depois disso, segundo os registros, a Go Up conseguiu regularizar seus cadastros junto à Ancine e à Receita Federal.
A produtora afirma que a obra já consumiu cerca de US$ 13 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 65,7 milhões na cotação atual.
O orçamento chamou atenção no mercado audiovisual por superar produções brasileiras recentes de grande repercussão internacional, como “O agente secreto”, estimado em R$ 28 milhões, e “Ainda estou aqui”, que teria custado cerca de R$ 45 milhões.
“É um filme caro para burro. E o Jim Caviezel é um ator decadente, nível C”, afirmou reservadamente ao blog um profissional do setor audiovisual ouvido pela reportagem.
Karina defendeu os custos da produção e atribuiu o alto valor principalmente ao elenco internacional e ao tempo de filmagem.
“Quase cinquenta por cento desse orçamento é elenco. Eu tinha 11 atores americanos e 36 semanas de filmagem”, disse ela.
“O projeto tinha um orçamento ainda maior. A gente cortou muitas cenas, teve que economizar e o Cyrus [o norte-americano Cyrus Nowrasteh, diretor do filme] reajustou as cenas pra gente conseguir.”
O longa é estrelado pelo ator norte-americano Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”. Apoiador do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, Caviezel interpreta Jair Bolsonaro na produção.
O elenco também conta com o ator Esai Morales, conhecido pela franquia “Missão: Impossível”.
Captação de recursos amplia crise política
O filme passou a ocupar o centro de uma crise política após as revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Depois das reportagens do Intercept Brasil, o senador reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro para o projeto, por meio de uma estrutura financeira ligada a um fundo administrado por aliados da família Bolsonaro nos Estados Unidos.
Segundo as reportagens, parte das suspeitas gira em torno da necessidade da intermediação do fundo, o que levantou questionamentos sobre o destino real dos recursos e eventual utilização para financiar o período de permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Karina afirmou não ter participado da captação e disse desconhecer detalhes sobre os investidores envolvidos.
Segundo ela, só tomou conhecimento da participação de Daniel Vorcaro após a repercussão das reportagens.
Projetos antigos nunca saíram do papel
Karina também afirmou que “Dark Horse” não foi sua primeira tentativa de atuar no cinema.
Ela citou dois projetos anteriores cadastrados pela empresa Go7 Assessoria na Ancine: uma produção infantil e o documentário “Atletas de Cristo”.
Nenhum deles, no entanto, avançou.
“Ela [a Go7] tem registro na Ancine bem mais antigo e tem projetos na Ancine”, afirmou.
A Ancine confirmou que a Go7 possui cadastro desde 2005, mas informou que nenhuma obra audiovisual foi concluída ou lançada pela empresa.
A agência também confirmou que Karina chegou a registrar projetos e participar de editais públicos, embora nenhuma iniciativa tenha sido efetivamente executada.
“Me qualifiquei nas regras da Ancine, me qualifiquei tudo certinho, como todo produtor tem que fazer. Mas eu sou uma produtora muito pequena. As grandes empresas, elas não, não olham pros pequenos, elas querem trabalhar com as produtoras grandes.”
Segundo a Ancine, tanto a Go7 quanto o Instituto Conhecer Brasil estão com registros suspensos desde janeiro de 2026 por falta de renovação documental.
Na prática, isso impede as duas entidades de registrar novas obras, apresentar projetos ou solicitar financiamentos públicos no setor audiovisual.
Já a Go Up, responsável por “Dark Horse”, permanece regularizada, embora o filme ainda não tenha sido oficialmente registrado perante a agência reguladora.
Fontes ligadas ao mercado audiovisual afirmam que a suspensão dos registros demonstra ausência de atividade efetiva das empresas no setor cinematográfico brasileiro.
Ações no TSE e investigação no STF
As controvérsias envolvendo o filme já chegaram aos tribunais superiores.
Nesta terça-feira (19), aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar impedir a estreia de “Dark Horse” antes das eleições de 2026.
O argumento apresentado é que o longa poderia funcionar como “peça de comunicação política de enorme impacto” e configurar propaganda eleitoral “dissimulada”, financiada com recursos de “origem suspeita”.
Paralelamente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou abertura de uma apuração preliminar sobre supostas irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas a Karina Ferreira da Gama, incluindo a Go Up e o Instituto Conhecer Brasil.
A investigação foi solicitada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que pediu ao Supremo apuração sobre possível direcionamento de recursos públicos para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Enquanto a produção segue cercada de questionamentos políticos, jurídicos e financeiros, “Dark Horse” ainda não chegou aos cinemas, mas já se transformou em um dos projetos audiovisuais mais controversos do cenário político brasileiro recente.
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