ONG ligada a filme sobre Bolsonaro apresentou R$ 16,5 milhões em notas irregulares à Prefeitura de São Paulo

Instituto Conhecer Brasil, investigado pelo MP e pela Polícia Civil, usou notas canceladas, faturas sem valor fiscal e documentos apontados como indevidos em contrato milionário de wi-fi na gestão do bolsonarista Ricardo Nunes

Investigada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, a ONG Instituto Conhecer Brasil, responsável por um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi gratuito em regiões periféricas da capital, apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em documentos fiscais considerados irregulares para justificar despesas do projeto, informa o portal g1.

O Instituto é comandado pela jornalista e empresária Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que já se tornou alvo de questionamentos políticos e investigações judiciais.

Levantamento feito pelo g1 nas prestações de contas entregues pela entidade à administração municipal aponta o uso de notas fiscais canceladas, recibos sem validade tributária e até notas emitidas pela própria ONG para ela mesma.

Os documentos analisados abrangem o período entre junho de 2024 e dezembro de 2025 e envolvem despesas milionárias relacionadas ao programa de internet gratuita.

Ao portal g1, Karina afirmou desconhecer o cancelamento de parte das notas fiscais apresentadas.

Faturas sem valor fiscal levantam suspeitas

Um dos principais pontos questionados envolve a contratação da empresa Make One Tecnologia Digital Ltda., responsável pela locação de equipamentos eletrônicos usados no projeto de wi-fi.

Segundo a reportagem, em vez de apresentar notas fiscais válidas, a ONG utilizou quatro faturas para justificar despesas que somam R$ 8,5 milhões.

As faturas, porém, não possuem validade fiscal, já que não foram registradas no sistema eletrônico da Prefeitura de São Paulo para recolhimento de tributos municipais.

Outro detalhe que chamou atenção foi o fato de os documentos apresentarem numeração sequencial e, em alguns casos, terem sido emitidos no mesmo dia, com a mesma data de vencimento, mas valores diferentes.

Karina Ferreira da Gama argumentou que a legislação permite a apresentação de recibos para esse tipo de serviço. Entretanto, o g1 identificou no sistema municipal notas fiscais emitidas pela própria Make One para contratos semelhantes junto à Prodam, empresa de tecnologia da prefeitura.

Nesses casos, os documentos continham número de nota fiscal, código de verificação e informações completas sobre recolhimento de impostos.

Notas fiscais canceladas foram usadas na prestação de contas

Outro foco da investigação envolve a empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., ligada ao empresário André Feldman.

Em novembro de 2025, a companhia emitiu uma nota fiscal de R$ 2 milhões por supostos serviços de verificação e reparo técnico de equipamentos. No entanto, segundo registros oficiais da Prefeitura de São Paulo, a nota foi cancelada no mesmo dia da emissão.

Apesar disso, o documento foi incluído pelo Instituto Conhecer Brasil na prestação de contas apresentada à gestão municipal em fevereiro deste ano.

André Feldman aparece em fotografias nas redes sociais ao lado de Karina Ferreira da Gama e também é apontado como prestador de serviços do gabinete do deputado federal Mario Frias (PL-SP).

Frias atua como produtor-executivo do filme “Dark Horse”.

Além da Complexsys, outras notas fiscais canceladas também foram identificadas envolvendo a empresa JR Feijão Ltda., contratada para aluguel de equipamentos.

Segundo a reportagem, três notas fiscais canceladas somam mais de R$ 406 mil. A maior delas, no valor de R$ 199,4 mil, foi emitida em abril de 2025 e cancelada poucos dias depois. Ainda assim, acabou sendo utilizada para justificar despesas do contrato.

Representantes da JR Feijão não foram localizados.

Empresa diz colaborar com investigações

Em nota enviada ao g1, a Complexsys Soluções Integradas afirmou acompanhar “com serenidade a investigação atualmente conduzida pelas autoridades competentes” e ressaltou que atua apenas como prestadora de serviços da ONG.

“Importa registrar que inexistem, até o presente momento, conclusões definitivas aptas a justificar qualquer juízo de responsabilidade em desfavor da empresa a que prestamos serviços técnicos, razão pela qual se impõe a observância dos postulados constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência. A empresa permanece à disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários.”

ONG emitiu notas para ela própria

A análise das prestações de contas também identificou notas fiscais emitidas pelo próprio Instituto Conhecer Brasil direcionadas à própria entidade, como se tivesse prestado serviços para si mesma.

Segundo o levantamento, ao menos três documentos nessa situação somam mais de R$ 1,4 milhão.

Um parecer técnico da Secretaria Municipal de Tecnologia, datado de fevereiro de 2026 e assinado pelos diretores Marcia Soares de Sousa e João Paulo Santana de Jesus, apontou que a prática era irregular.

“Notas fiscais consideradas indevidas; pois a instituição não pode emitir nota para si própria”, afirma o documento.

O parecer também identificou cerca de R$ 925 mil em pagamentos duplicados declarados pela entidade.

“Verifica-se que a Organização da Sociedade Civil não promoveu a restituição integral dos valores glosados dentro do exercício analisado, tampouco sanou todas as inconformidades apontadas pela área técnica SMIT/CID/DFD, em descumprimento às disposições da Lei nº 13.019/2014 e do Decreto Municipal nº 57.575/2016. A permanência de valores expressivos pendentes de devolução caracteriza irregularidade grave na execução financeira da parceria, comprometendo a regularidade da prestação de contas”, diz o parecer.

Mesmo diante das irregularidades apontadas, a Secretaria Municipal de Tecnologia decidiu aprovar as contas com ressalvas, condicionando a continuidade do contrato à devolução de R$ 930.256,87.

Segundo a Prefeitura de São Paulo, os valores foram devolvidos integralmente pelo instituto, o que permitiu a renovação do contrato para instalação dos 1.800 pontos de wi-fi restantes.

Até agora, cerca de 3.200 pontos foram instalados.

Contrato com empresa ligada a empresário preso

A reportagem também identificou inconsistências em um contrato de R$ 12 milhões firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda.

O proprietário da companhia, Alex Leandro Bispo dos Santos, está preso desde fevereiro sob acusação de feminicídio da companheira.

No primeiro contrato apresentado pela ONG, o empresário aparece identificado apenas como “Alex”, sem sobrenome, CPF ou documento de identidade.

Segundo as prestações de contas, a empresa foi responsável pela instalação de mais de 900 pontos de internet em comunidades paulistanas e recebeu mais de R$ 2 milhões.

Após denúncias publicadas anteriormente pelos portais Intercept Brasil e Metrópoles, a composição societária da empresa foi alterada em janeiro deste ano.

A nova proprietária passou a ser Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que, segundo registros oficiais, reside no mesmo endereço de Alex Leandro Bispo.

O g1 informou não ter localizado a defesa do empresário.

Karina Ferreira da Gama afirmou à reportagem que não reconhece o contrato assinado com um “Alex” sem identificação completa e levantou a hipótese de fraude documental.

No entanto, o próprio documento foi localizado no Google Drive usado pela própria empresária para envio das prestações de contas à prefeitura.

Karina nega irregularidades

Em entrevista ao portal g1, Karina afirmou desconhecer o cancelamento das notas fiscais apontadas na investigação.

“Mas não tem controle se um fornecedor contratado anula uma nota. As notas fiscais do próprio instituto glosadas, fui eu mesma que apontei para a prefeitura os problemas, e eles estão sendo resolvidos na prestação de contas que estou preparando para entregar do bimestre”, declarou.

Ela também afirmou que o Instituto Conhecer Brasil e as demais empresas ligadas ao seu nome funcionam no mesmo endereço para que possa “manter o controle sobre as empresas”.

Sobre a Favela Conectada, disse que um contrato aditivo foi firmado após a saída de Alex Bispo da sociedade da empresa.

Prefeitura defende contrato e rebate críticas

Em nota, a gestão Ricardo Nunes afirmou que desconhece “a metodologia e os resultados que levaram aos valores mencionados pela reportagem” e rejeitou qualquer acusação de irregularidade estrutural no contrato.

Segundo a prefeitura, “a execução do contrato para o programa é monitorada rigorosamente e não há nenhuma decisão definitiva ou processo administrativo que aponte a existência de irregularidades estruturais, desvios ou ilegalidades”.

A administração municipal confirmou que inconsistências foram encontradas na prestação de contas de 2024, mas ressaltou que os cerca de R$ 930 mil apontados foram devolvidos integralmente ao município.

A gestão também afirmou que o valor pago ao instituto inclui toda a infraestrutura necessária para implantação dos pontos de internet, como hardware, obras civis, projetos executivos e manutenção.

Em outro trecho, a prefeitura negou qualquer relação entre o contrato da ONG e a produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

“A produção do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro não recebeu recursos municipais e qualquer relação entre a contratação do Instituto Conhecer Brasil e a produção cinematográfica é descabida”, afirmou.

Segundo a administração municipal, o contrato do Instituto Conhecer Brasil foi firmado em junho de 2024, enquanto a SPCine só foi procurada para autorização das filmagens em outubro de 2025.

“A administração municipal repudia qualquer tentativa da imprensa de descredibilizar um serviço de extrema importância para a população por meio de relações que não existem nem nunca existiram. O Programa Wifi Livre está em pleno funcionamento com 3.200 pontos instalados, que registram cerca de 760 milhões de acessos”, declarou a prefeitura.

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