Antes da queda, piloto da Voepass comparou avião a ‘Fusquinha’ e admitiu falha

Laudo da PF aponta problemas recorrentes no sistema de degelo e descreve sequência de alertas antes do acidente que matou 62 pessoas

O comandante do avião da Voepass que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024, comparou a aeronave a um “Fusquinha” durante o voo e reconheceu falhas no sistema de degelo pouco antes da tragédia. As conversas foram registradas pela caixa-preta e integram o laudo da Polícia Federal (PF) sobre o acidente.

Segundo o documento, obtido com exclusividade pelo Fantástico, a aeronave já apresentava falhas intermitentes no sistema pneumático de degelo em voos anteriores. O problema era conhecido pelas tripulações, mas não teria sido formalmente registrado, o que contribuiu para que o avião continuasse em operação.

No trecho imediatamente anterior ao voo que terminou em acidente, o comandante comentou o acúmulo de gelo na aeronave. “O lá o gelo… o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou”, afirmou.

Após o pouso, o piloto demonstrou alívio ao conversar com o copiloto. “Chegamos vivos”, disse, de acordo com o áudio registrado pelo gravador de voz da cabine.

Alertas de falha surgiram ainda durante a subida

Já no voo 2283, que partiu de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, um alerta crítico relacionado ao sistema de degelo apareceu ainda durante a subida. “É o ‘Airframe’ que deu ‘fault’… pode tirar, pode tirar… pelo menos a gente já sabe que tá…”, afirmou o comandante.

O copiloto também demonstrou preocupação com a possibilidade de a aeronave entrar em uma região com formação de gelo. “Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”, declarou.

Em meio aos alertas, o comandante fez uma comparação irônica com um carro antigo. “Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo”, afirmou.

Quase uma hora depois, durante a aproximação de São Paulo, o copiloto voltou a relatar o acúmulo de gelo e tentou acionar o sistema. Ao perceber a nova tentativa, o comandante respondeu: “Essa bosta não tá funcionando, né?”

PF aponta falhas repetidas e procedimentos inadequados

O laudo identificou a mensagem “AIRFRAME FAULT” no voo do acidente e em outros três voos anteriores. No trecho imediatamente anterior à queda, o alerta teria aparecido oito vezes, com pelo menos cinco tentativas de desligar e religar o sistema para restabelecer seu funcionamento.

A PF afirma que os pilotos não executaram, no momento adequado, procedimentos previstos pelo fabricante para falhas no sistema de degelo. O relatório também aponta que houve cerca de 20 segundos entre o alerta “Increase Speed” e o início do parafuso, período em que ainda poderia haver possibilidade de intervenção.

A conclusão é que o acidente foi provocado por uma combinação de fatores, incluindo falhas recorrentes no sistema de degelo, entrada em uma área de gelo severo, execução inadequada de procedimentos e o não funcionamento de sucessivas barreiras de segurança.

O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, caiu em 9 de agosto de 2024 e atingiu o quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo. As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram. Nenhum morador da casa foi ferido.

O inquérito da Polícia Federal deve ser apresentado em coletiva de imprensa. Enquanto a investigação criminal busca apurar possíveis responsabilidades penais, familiares das vítimas estudam uma ação coletiva por danos morais, sem substituir os processos individuais já em andamento.

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