Voepass: Cenipa diz que avião não poderia ter decolado antes da tragédia

Investigação do Cenipa conclui que a aeronave operou em condições incompatíveis com as normas e identifica 19 fatores que contribuíram para o acidente.

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em agosto de 2024, concluiu que a aeronave não poderia ter decolado nas condições em que operou. O documento, divulgado nesta quinta-feira (23), identifica uma série de falhas técnicas, operacionais e organizacionais que contribuíram para o acidente ocorrido em Vinhedo (SP).

Segundo a investigação, o ATR 72-500 decolou de Cascavel (PR) com restrições operacionais que, diante da previsão meteorológica, impediam legalmente a realização do voo. Os investigadores apontaram que um dos itens inoperantes era o limpador de para-brisas, equipamento que exigia condições específicas de tempo para permitir a decolagem. Como havia previsão de chuva, a aeronave não deveria ter sido despachada.

Relatório aponta 19 fatores

O Cenipa mapeou 19 fatores contribuintes para a tragédia. Entre eles estão falhas de manutenção, erros da tripulação, problemas no planejamento do voo, deficiência na supervisão gerencial e uma cultura organizacional que priorizava a continuidade das operações em detrimento da segurança.

A investigação também concluiu que o avião enfrentou condições severas de formação de gelo, para as quais não era certificado. Além disso, uma falha no sistema de climatização limitou a altitude de operação justamente na faixa onde havia maior risco de acúmulo de gelo.

Falhas se repetiam na operação

Outro ponto destacado pelo relatório foi a existência de práticas consideradas inadequadas dentro da empresa. A análise de mais de 1.200 voos mostrou que panes deixavam de ser registradas formalmente no diário de bordo e eram comunicadas apenas verbalmente entre pilotos e mecânicos, dificultando a adoção de medidas corretivas.

Durante o voo que caiu em Vinhedo, o copiloto chegou a comentar que uma falha no sistema de degelo não havia sido registrada oficialmente, evidenciando que a tripulação tinha conhecimento das limitações técnicas da aeronave. O documento também aponta que, em diferentes momentos, o sistema de degelo permaneceu desligado enquanto os pilotos conversavam sobre assuntos alheios à operação, reduzindo a atenção aos alertas emitidos pela aeronave.

Anac também é citada

O Cenipa também incluiu a atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) entre os fatores contribuintes para o acidente. Embora reconheça que a agência realizou fiscalizações e aplicou sanções, a investigação concluiu que essas medidas não foram suficientes para impedir que a empresa continuasse operando em condições degradadas. Como recomendação, o órgão sugeriu mudanças nos processos de fiscalização e nos procedimentos adotados pelas companhias aéreas em situações de formação de gelo.

Em nota, a Voepass afirmou que a tripulação era experiente, treinada e devidamente certificada, além de sustentar que, ao longo de mais de 30 anos de operação, sempre adotou procedimentos sérios de segurança. A Anac informou que analisará as recomendações do Cenipa e apresentará, em até 120 dias, uma avaliação técnica sobre as medidas que lhe cabem.

O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024, quando o voo 2283 seguia de Cascavel para Guarulhos transportando 58 passageiros e quatro tripulantes. A queda matou todas as 62 pessoas a bordo e tornou-se o acidente aéreo mais letal do Brasil desde 2007.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo