Bispos divulgam carta em defesa da soberania, criticam ‘conservadorismo autoritário’ e pedem voto consciente

Grupo de religiosos condena manipulação política da fé, discursos de ódio e posturas fascistas e defendem voto comprometido com democracia, soberania e causas populares

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Um grupo de bispos católicos brasileiros divulgou nesta sexta-feira (21) uma carta com críticas ao avanço do que classifica como “conservadorismo autoritário” dentro de setores da própria Igreja e um chamado aos fiéis para uma “escolha consciente e lúcida” nas eleições de 2026. A informação foi publicada na Carta Capital.

Intitulado “Não deixemos cair a profecia”, o documento é assinado pelos Bispos do Diálogo pelo Reino, grupo formado por religiosos de diferentes regiões brasileiras e que também se manifestou durante a disputa eleitoral de 2022.

Embora ressaltem que não possuem vinculação partidária, os bispos afirmam que a Igreja não deve se omitir diante das questões políticas e sociais do país. Entre as bandeiras mencionadas estão a defesa da democracia, da soberania nacional, dos pobres, dos grupos vulneráveis e do meio ambiente.

O texto surge em meio ao início da campanha eleitoral e à intensificação da disputa política pela Presidência da República, governos estaduais e cadeiras no Congresso e nas assembleias legislativas.

Os religiosos avaliam que o período eleitoral tende a aumentar as divergências também no ambiente religioso e, diante desse cenário, reafirmam o compromisso com “a vida, a democracia, a soberania e a defesa da casa comum”.

“Não temos partido, mas estamos do lado dos pobres, de quem os respeita e defende; de quem defende a democracia e a soberania do País.”

Bispos condenam uso político da religião

Um dos pontos centrais da manifestação é a relação entre religião e política. Os signatários se posicionam contra “qualquer postura fascista” e condenam a “manipulação política da religião”.

O grupo também critica a disseminação de informações falsas e manifestações de ódio pelas redes sociais, especialmente quando esses conteúdos são associados à fé ou utilizados para influenciar o posicionamento político dos fiéis.

Sem indicar candidatos ou partidos, os bispos pedem que os eleitores considerem, na hora do voto, o compromisso dos concorrentes com “as causas populares, com o bem comum e com a proteção de nossa Casa Comum”.

O posicionamento procura estabelecer uma diferença entre a vinculação da Igreja a uma legenda — rejeitada pelos signatários — e a participação dos católicos nos debates políticos e sociais.

Na avaliação apresentada no documento, a ausência de preferência partidária não significa neutralidade diante de questões consideradas fundamentais pelos religiosos.

Carta aponta conservadorismo autoritário dentro da Igreja

As críticas não ficam restritas ao ambiente eleitoral. Uma parte significativa da carta é dedicada ao próprio catolicismo brasileiro.

Os bispos afirmam que integrantes do clero, religiosos e leigos utilizam redes sociais e meios de comunicação de inspiração católica para atacar pessoas ligadas à defesa dos pobres, da democracia e do meio ambiente.

Segundo o documento, esses setores promovem “devocionismos, discursos superficiais e violentos” e demonstram resistência às orientações do magistério da Igreja.

Os religiosos classificam esse movimento como uma manifestação de “conservadorismo autoritário” e afirmam que a dinâmica das redes sociais tem contribuído para aprofundar a divisão no ambiente católico.

Na avaliação do grupo, são formadas “bolhas alienadas e alienantes” que alimentam hostilidade contra setores envolvidos com a atuação social da Igreja.

O documento menciona ataques direcionados a bispos, padres, diáconos, religiosos e leigos. Segundo os signatários, essas ações procuram “desqualificar, silenciar, intimidar e mesmo calar a voz profética da Igreja”.

A preocupação expressa na carta ganha uma dimensão adicional durante o período eleitoral, quando religião e política passam a ocupar conjuntamente parte significativa do debate público.

Redes sociais e inteligência artificial entram no alerta

A manifestação também aborda os impactos das transformações tecnológicas sobre as relações humanas e o debate público.

Os bispos mencionam a encíclica “Magnifica Humanitas”, do Papa Leão XIV, que trata dos riscos relacionados à expansão acelerada da digitalização, da inteligência artificial e da robótica.

O documento pontifício citado pelos religiosos alerta para processos de desumanização e convoca os católicos a rejeitarem a “síndrome de Babel”, relacionada no texto à “idolatria do lucro” e à “uniformidade que anula as diferenças”.

Ao incorporar o tema à manifestação brasileira, os bispos relacionam as mudanças tecnológicas à formação de ambientes digitais fechados, à propagação de discursos violentos e à deterioração do diálogo.

A crítica às redes sociais aparece, dessa forma, associada tanto ao comportamento de grupos religiosos quanto à disputa eleitoral.

Atuação social é apresentada como parte da evangelização

A carta também defende que a presença da Igreja na sociedade não deve ficar limitada às atividades realizadas dentro dos templos.

Os signatários recorrem às novas “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil” para o período de 2026 a 2032 para sustentar a relação entre evangelização e transformação social.

Segundo o documento, essas diretrizes estabelecem que a ação evangelizadora deve produzir consequências concretas na sociedade.

A partir dessa perspectiva, os bispos defendem a atuação dos católicos na proteção dos pobres e de grupos considerados vulneráveis, além do cuidado com o meio ambiente.

Entre os assuntos citados estão mineração predatória, agronegócio “sem critério”, condições de trabalho e diferentes formas de violência e discriminação.

A carta menciona especificamente mulheres, povos originários, afrodescendentes e pessoas LGBTQIAPN+ entre os grupos cuja proteção deve fazer parte da atuação social da Igreja.

O meio ambiente também ocupa espaço central no documento. Os bispos utilizam a expressão “Casa Comum”, recorrente no vocabulário católico contemporâneo para tratar da preservação ambiental e da responsabilidade humana sobre o planeta.

Leia, abaixo, a carta na íntegra:

Não deixemos cair a profecia

“Enviou-nos para evangelizar os pobres” (Lc 4,18)

Nós bispos, do diálogo pelo reino, iluminados pela palavra de Deus, atentos aos desafios da realidade atual e em comunhão com as recentes orientações do magistério da Igreja, vimos a público manifestar o que segue:

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para o sexênio de 2026 a 2032, aprovadas pelos bispos, na 62ª Assembleia Geral da CNBB, reafirmaram categoricamente que a missão da Igreja é evangelizar —ela existe para isso!– sabendo que evangelizar é tornar o reino de Deus presente no mundo. Nada se deve antepor a essa missão (n. 62). A evangelização parte do encontro pessoal com Cristo, passa pela vida de comunidade e amplia, necessariamente, o seu horizonte para a ação sociotransformadora da sociedade e da casa comum (n. 65).

O magistério recente, do papa Francisco e do papa Leão 14, nos convida a ser uma Igreja sinodal, a caminhar juntos no caminho do Reino, inaugurado por aquele que seguimos, Jesus Cristo. O seu reino é de justiça e paz, de fraternidade e inclusão, de perdão e vida nova, de misericórdia e salvação. Por isso, ser cristão é assumir as opções evangélicas em cada época de nossa história. Na presente época, defender os mais pobres e sofredores e cuidar da criação é missão central da espiritualidade para aqueles que vivem em Cristo, especialmente para nós, bispos.

Considerando o contexto da grave crise social e ecológica, iluminados pela palavra de Deus e pela Doutrina Social da Igreja, somos convocados a refletir, a agir e educar a sociedade para a defesa de uma civilização do bem viver. Alegramo-nos por tantas lideranças e Comunidades Eclesiais que anunciam o Evangelho da vida e denunciam estruturas opressoras, causadoras de feridas na terra e no coração da humanidade. Alegramo-nos também pelas inúmeras pastorais sociais, juntamente com vários movimentos populares pelo exemplo dado no enfrentamento da mineração predatória, do agronegócio sem critério, de situações diversas no mundo do trabalho, das violências contra: as mulheres, os povos originários, os afrodescendentes, a população LGBTQIAPN+, entre outros.

O Papa Leão 14, na carta encíclica Magnifica Humanitas, diz que em “cada época paira o risco de se construir um mundo desumano e mais injusto” (n.1). Segundo ele, “nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão transformando o nosso mundo” (n.4). Ele pede que “evitemos a ‘síndrome de Babel’: a idolatria do lucro, que sacrifica os fracos; a uniformidade que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única —mesmo digital— dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa” (n.10).

Essa realidade, descrita pelo papa, encontra eco no coração de pessoas com mentalidades fechadas num conservadorismo autoritário que, lamentavelmente, através das redes e alguns dos meios de comunicação de inspiração católica, incluindo alguns membros dos ministérios ordenados, religiosos e leigos, promovem devocionismos, discursos superficiais e violentos contra pessoas que testemunham a fé no meio dos pobres, na defesa da democracia e das pautas ambientais. Elas são indiferentes e rejeitam as orientações do magistério da Igreja, alimentando bolhas alienadas e alienantes no ambiente socio-eclesial, se alimentam do ódio e alimentam o ódio contra aqueles e aquelas que têm uma vivência de Igreja comprometida com a transformação social e com o cuidado da criação, elas revelam uma agressividade que fere as pessoas, rompe a comunhão e enfraquece o profetismo eclesial.
Por isso, não são raros os ataques dirigidos a irmãos do episcopado, mas também a presbíteros, a diáconos, religiosas e religiosos, consagrados e a tantos outros cristãos leigos e leigas. Tentam desqualificar, silenciar, intimidar e mesmo calar a voz profética da Igreja.

Na mesma encíclica, o papa Leão 14 nos orienta acerca dos princípios da Doutrina Social da Igreja: o bem-comum, a destinação universal dos bens, s Subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social (nº 65-81). A Doutrina Social da Igreja tem seu fundamento na dignidade da pessoa humana, entendida como reflexo de cada ser criado à imagem e semelhança de Deus. Ela é ancorada na revelação divina (Sagradas Escrituras) e na grande tradição da Igreja orientando o agir cristão diante dos problemas da sociedade.

Em sintonia com a Mensagem ao Povo Brasileiro, aprovada e publicada durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB, em 24 de abril de 2026, afirmamos:

Em tempo de eleições, tais situações tendem a aumentar. Sendo assim, renovamos nosso pacto pela vida, pela democracia, pela soberania e pela defesa da casa comum. O tempo atual exige de todos nós cristãos e da sociedade brasileira, muita coragem para gestar um projeto de país que não pactue com a grave injustiça social que sempre nos acompanhou.

Em tempo de eleições, reafirmamos que não temos partido, mas que estamos do lado dos pobres, de quem os respeita e defende; de quem defende a democracia e a soberania do país; de quem é contra qualquer postura fascista; de quem é contra a manipulação política da religião; de quem é contra a avalanche de mentiras e disseminação do ódio pelas avenidas digitais, Por isso incentivamos cada cidadão a fazer uma escolha consciente e lúcida de candidatas e candidatos comprometidos com as causas populares, com o bem comum e com a proteção de nossa casa comum. O Evangelho de Jesus Cristo não nos permite ter outra posição.

Que Maria, profetiza da libertação, continue entoando o seu Magnificat e nos ensine também a cantá-lo, não apenas com os lábios, mas com escolhas, atitudes e compromissos que façam florescer a justiça, a fraternidade e a esperança.

Bispos do Diálogo pelo Reino

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