Morreu neste sábado (22), aos 88 anos, o ex-ministro do Trabalho Manoel Dias, um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e uma das principais referências históricas do trabalhismo em Santa Catarina. Conhecido entre companheiros de partido como “Maneca”, ele estava internado em Florianópolis para tratar complicações decorrentes de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido no ano passado.
A trajetória de Manoel Dias atravessou diferentes momentos da política brasileira. Líder estudantil no início da carreira, foi vereador, deputado estadual, perseguido e preso durante a ditadura militar, teve os direitos políticos suspensos e participou, posteriormente, da reorganização do trabalhismo ao lado de Leonel Brizola.
Décadas mais tarde, chegou ao primeiro escalão do governo federal ao assumir o Ministério do Trabalho e Emprego durante a gestão da presidente Dilma Rousseff.
Manoel Dias deixa a esposa, dois filhos, noras e netos. O velório e as cerimônias de despedida foram organizados na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), em Florianópolis, com a presença de familiares, autoridades e militantes trabalhistas.
Lupi lembra trajetória ao lado de Brizola
Presidente nacional do PDT, Carlos Lupi lamentou a morte de Manoel Dias e destacou a relação pessoal e política construída com o dirigente.
Ao prestar homenagem nas redes sociais, Lupi referiu-se ao “dirigente, fundador do PDT e quem tive a alegria de chamar de amigo Manoel Dias”.
“Sua luta pelo trabalhismo e seu legado na construção dos núcleos de base vão seguir norteando os passos do nosso partido e inspirando as novas gerações. Ao lado de Brizola, Darcy, Jango e Getúlio, nosso eterno Maneca se junta para olhar e zelar pelo nosso partido de onde estiver”, escreveu Lupi.
Manoel Dias ocupou funções estratégicas na estrutura partidária durante décadas. Foi secretário-geral nacional do PDT e presidiu a Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, instituição ligada à formação política e à preservação da memória do trabalhismo.
Mesmo nos períodos em que não exerceu mandato eletivo, permaneceu como uma das principais referências do PDT catarinense e atuou como conselheiro da direção nacional.
Mandato cassado e prisão após o golpe de 1964
Nascido em Criciúma e criado no Sul de Santa Catarina, Manoel Dias iniciou a atuação política ainda jovem, durante o período de intensa mobilização estudantil e partidária que antecedeu o golpe militar.
Em 1962, foi eleito vereador de Içara pelo antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), legenda historicamente ligada ao movimento trabalhista e à trajetória de Getúlio Vargas e João Goulart.
O golpe militar de 1964 interrompeu sua primeira experiência parlamentar. Manoel Dias teve o mandato cassado e passou 11 meses preso como perseguido político do regime.
Depois de deixar a prisão, participou da organização do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Santa Catarina. O partido havia sido criado no contexto do sistema bipartidário estabelecido pela ditadura e concentrava grande parte das forças de oposição ao regime.
Em 1966, Manoel Dias conseguiu retornar às urnas e foi eleito deputado estadual para a Assembleia Legislativa catarinense.
A permanência no mandato, porém, seria novamente interrompida.
Em 1969, no período de endurecimento do regime após a edição do Ato Institucional nº 5, o AI-5, Manoel Dias sofreu uma segunda cassação. Além da perda do mandato, teve os direitos políticos suspensos por dez anos.
Durante o período em que ficou impedido de participar formalmente da política eleitoral, graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Fundação do PDT marcou retorno à política
Com a Anistia e o início da reorganização partidária no final dos anos 1970 e começo da década de 1980, Manoel Dias voltou à atividade política e participou de um dos principais movimentos de sua trajetória.
Ao lado de Leonel Brizola e de outras lideranças trabalhistas, participou diretamente da articulação que resultou na criação do PDT.
A nova legenda buscava recuperar a tradição política do antigo trabalhismo brasileiro após anos de repressão durante a ditadura. Manoel Dias tornou-se uma das figuras responsáveis pela organização partidária, especialmente em Santa Catarina.
A relação com Brizola marcaria as décadas seguintes de sua carreira. Além da atuação política, Manoel Dias participou da construção das estruturas internas da legenda e dos chamados núcleos de base.
Essa atuação foi destacada por Carlos Lupi ao lembrar o legado deixado pelo dirigente para as novas gerações do partido.
Maneca manteve-se ligado ao PDT durante toda a sua trajetória e passou a representar uma ponte entre a geração que participou da reorganização do trabalhismo no período da redemocratização e os dirigentes que assumiram posteriormente o comando da legenda.
De perseguido político a ministro do Trabalho
O ponto mais alto de Manoel Dias no Executivo federal ocorreu mais de quatro décadas depois de sua segunda cassação política.
Em 2013, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, assumiu o Ministério do Trabalho e Emprego. Permaneceu no comando da pasta até 2015.
A chegada ao ministério tinha significado particular diante de sua própria história. O político que havia perdido dois mandatos, passado quase um ano preso e ficado uma década sem direitos políticos durante a ditadura chegava ao comando de uma das pastas historicamente mais associadas à tradição trabalhista brasileira.
Após deixar o governo federal, continuou participando da vida interna do PDT e preservou influência especialmente entre os militantes catarinenses.
Mesmo em fases sem mandato eletivo, permaneceu como a maior referência do trabalhismo em Santa Catarina e conselheiro da direção nacional da sigla.
Sua atuação passou a estar cada vez mais ligada também à memória histórica do partido, à formação de militantes e à preservação do legado político de Leonel Brizola e de outras lideranças trabalhistas.
Com sua morte, o PDT perde um dos integrantes da geração que participou diretamente de sua fundação e que atravessou tanto o período de repressão da ditadura militar quanto a reconstrução partidária ocorrida durante a redemocratização.
A despedida na Assembleia Legislativa de Santa Catarina também carrega um simbolismo relacionado à trajetória de Manoel Dias. Foi justamente no Parlamento catarinense que ele exerceu o mandato conquistado em 1966 e interrompido três anos depois por uma nova cassação política.
Mais de cinco décadas depois, o local foi escolhido para receber familiares, companheiros de partido, autoridades e militantes na despedida de uma das figuras históricas do trabalhismo catarinense.







Deixe um comentário