Alagoas encerra ciclo político dos Collor e terá eleição estadual sem herdeiro da família

Primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura disputou praticamente todas as eleições desde 2002, acumulou vitórias e derrotas e hoje vive afastado da política em Maceió

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Fernando Collor de Mello atravessou mais de quatro décadas da política brasileira entre ascensão meteórica, impeachment, tentativas de reconstrução eleitoral, retorno ao Senado e, por fim, condenação criminal e prisão domiciliar. Aos 77 anos, o ex-presidente vive hoje afastado da vida pública em sua cobertura no bairro de Jatiúca, à beira-mar de Maceió, enquanto acompanha o esvaziamento de uma influência política que já foi dominante em Alagoas.

Depois de cumprir o período de inelegibilidade imposto após o impeachment de 1992, Collor voltou oficialmente às urnas em 2002. A partir daquele momento, esteve envolvido direta ou indiretamente em praticamente todas as eleições estaduais e federais, numa sequência marcada por candidaturas lançadas de última hora, desistências, vitórias expressivas e derrotas que gradualmente reduziram seu peso político.

Em 2006, por exemplo, registrou sua candidatura ao Senado apenas 28 dias antes da eleição e venceu. Em 2018, fez o movimento oposto: abandonou a corrida pelo Governo de Alagoas a menos de 20 dias da votação.

Duas décadas depois de seu retorno eleitoral, a situação é radicalmente diferente, segundo reportagem de Carlos Madeiro, do portal UOL. Collor cumpre pena em prisão domiciliar e não tem mandato, enquanto sua família também deixou de ocupar cargos eletivos. O grupo empresarial ligado ao ex-presidente enfrenta dificuldades financeiras e judiciais.

Do “caçador de marajás” ao Palácio do Planalto

Antes de chegar à Presidência da República, Collor ocupou diferentes cargos públicos. Foi prefeito de Maceió entre 1979 e 1982 e, anos depois, elegeu-se deputado federal pelo PDS. Em 1986, venceu a disputa pelo Governo de Alagoas, então pelo PMDB, e administrou o estado entre 1987 e 1989.

Foi nesse período que construiu a imagem que impulsionaria sua candidatura presidencial. Collor passou a se apresentar como “o caçador de marajás”, em referência ao discurso contra servidores públicos com altos salários.

Com forte exposição nacional e uma campanha centrada na renovação política, derrotou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Tornou-se, assim, o primeiro presidente escolhido diretamente pelos brasileiros após o fim da ditadura militar, que vigorou de 1964 a 1985.

A trajetória no Planalto, entretanto, seria curta. Em 1992, depois de denúncias de corrupção feitas inclusive pelo próprio irmão, Pedro Collor, tornou-se o primeiro presidente brasileiro a sofrer impeachment.

O Senado também aprovou sua inelegibilidade, impedindo-o de disputar eleições durante os anos seguintes.

Collor ainda tentou concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2000, mas o Tribunal Superior Eleitoral entendeu que o período de inelegibilidade ainda não havia terminado e cassou seu registro.

Retorno às urnas começou pelo Governo de Alagoas

A volta oficial ocorreu em 2002. Collor decidiu concorrer novamente ao Governo de Alagoas, transformando a eleição estadual em um acontecimento de repercussão nacional.

A campanha buscou reconstruir sua imagem com o argumento de que teria sido vítima de uma “injustiça” no processo que encerrou seu mandato presidencial. Também resgatou os “bons serviços prestados” durante sua passagem pelo governo estadual.

Collor enfrentou Ronaldo Lessa, então governador e candidato à reeleição. Dono do maior sistema de comunicação de Alagoas naquele momento, utilizou seus veículos na cobertura da disputa.

A tensão chegou a um ponto em que a TV Globo determinou uma intervenção na TV Gazeta após Lessa procurar a direção da emissora nacional com um levantamento de matérias que considerava negativas à sua candidatura.

Nas urnas, entretanto, Collor não conseguiu completar o retorno. Lessa venceu ainda no primeiro turno, com 52,9% dos votos válidos, contra 40,2%.

Para muitos adversários, aquela derrota representaria o encerramento definitivo da trajetória eleitoral do ex-presidente. Quatro anos depois, Collor mostraria que ainda conservava força política.

Vitória ao Senado marca renascimento político

Em 2006, Collor entrou na disputa pelo Senado praticamente na reta final. Registrou sua candidatura apenas 28 dias antes da eleição e voltou a enfrentar Ronaldo Lessa, que havia deixado o Governo de Alagoas meses antes.

Desta vez, venceu.

A eleição devolveu Collor a Brasília e representou seu maior triunfo político desde a Presidência. Seu retorno ao Congresso também produziu uma cena simbólica.

No primeiro discurso no Senado, Collor chorou na tribuna diante de parlamentares que haviam participado do processo de impeachment. Alguns senadores chegaram a explicar seus posicionamentos de 1992 durante apartes.

O ex-presidente passou, então, a reconstruir uma carreira parlamentar que se estenderia por 16 anos.

Em 2010, porém, voltou a demonstrar que não havia abandonado o projeto de retornar ao Governo de Alagoas.

Novas tentativas de voltar ao governo

Na eleição estadual de 2010, Collor entrou mais uma vez na disputa pelo Palácio República dos Palmares. Teve novamente Ronaldo Lessa como adversário, além do então governador Teotonio Vilela Filho, do PSDB.

Collor terminou o primeiro turno com 28,8% dos votos válidos e ficou fora da rodada final. No segundo turno, apoiou Lessa, que também acabou derrotado por Vilela.

Dois anos depois, não concorreu diretamente, mas participou de uma disputa política envolvendo a própria família.

Collor fez campanha na eleição municipal de Atalaia contra uma chapa que tinha Fernando Lyra, seu sobrinho e filho de Pedro Collor, como candidato a vice-prefeito. O episódio demonstrou como antigas divergências familiares continuavam misturadas à política alagoana.

Em 2014, Collor voltou às urnas para tentar permanecer no Senado. Venceu a disputa com 55,59% dos votos válidos e garantiu mais oito anos de mandato.

Naquele mesmo ano, conseguiu outra vitória relevante: foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, por falta de provas, em um julgamento relacionado a acusações da época de sua passagem pela Presidência.

O alívio judicial, porém, duraria pouco.

Lava Jato muda novamente trajetória do ex-presidente

Com o avanço da Operação Lava Jato, Collor passou a ser alvo de novas investigações por corrupção.

As acusações envolveram pagamentos relacionados a contratos da UTC Engenharia com a BR Distribuidora. Segundo a condenação, o ex-presidente recebeu e ocultou cerca de R$ 20 milhões em propina.

Uma parcela dos valores teria sido direcionada diretamente a Collor, enquanto outra parte teria sido repassada à TV Gazeta, emissora controlada pelo grupo de comunicação da família.

O processo terminaria anos depois com a condenação do ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal a oito anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Mesmo sob investigação, Collor continuou tentando permanecer eleitoralmente relevante.

Em 2018, registrou novamente candidatura ao Governo de Alagoas. A tentativa, entretanto, durou pouco. No dia 18 de setembro, a menos de três semanas da eleição, anunciou a desistência alegando que não havia recebido os apoios políticos esperados.

A disputa foi vencida por Renan Filho, do MDB, filho de Renan Calheiros.

Última candidatura termina com pior desempenho

A última eleição disputada diretamente por Collor ocorreu em 2022.

Depois de dois mandatos consecutivos como senador, decidiu não buscar a reeleição e tentou mais uma vez voltar ao Governo de Alagoas, desta vez pelo PTB.

Politicamente, Collor já havia se aproximado do bolsonarismo e buscava associar sua candidatura ao então presidente Jair Bolsonaro. O apoio formal de Bolsonaro, contudo, não veio.

Nas urnas, o resultado foi o pior de sua trajetória eleitoral no estado. Collor recebeu 14,71% dos votos válidos e terminou eliminado no primeiro turno.

A derrota encerrou 16 anos consecutivos de mandato parlamentar e deixou o ex-presidente sem cargo público.

Dois anos depois, ele apareceria novamente em uma campanha, mas como apoiador.

Em 2024, Collor participou da candidatura do sobrinho Fernando a vereador de Maceió, ao lado de Thereza Collor, mãe do candidato. A aproximação foi apresentada como um gesto de reconciliação familiar depois de décadas de divergências.

Fernando recebeu 569 votos e não foi eleito.

Com isso, pela primeira vez em décadas, nenhum integrante da família Collor passou a ocupar mandato eletivo.

Prisão e cumprimento da pena em casa

Depois de sucessivos recursos contra a condenação no Supremo, Collor teve a prisão determinada em abril de 2025.

O ex-presidente chegou a ser levado para o presídio Baldomero Cavalcante, em Maceió, mas permaneceu apenas cinco dias no sistema penitenciário.

A Justiça autorizou que ele passasse a cumprir a pena em prisão domiciliar em razão de seu quadro de saúde, que inclui transtorno bipolar, Parkinson e apneia do sono.

Desde então, Collor permanece em sua cobertura no bairro de Jatiúca.

A condenação decorre do entendimento de que o ex-presidente recebeu vantagens indevidas relacionadas a contratos da BR Distribuidora e posteriormente ocultou a origem dos recursos.

O caso também atingiu diretamente o grupo de comunicação controlado pela família.

TV Gazeta perde força e grupo enfrenta dívidas

Por décadas, o sistema de comunicação ligado aos Collor representou uma das principais bases do poder político e econômico da família em Alagoas.

Esse império também perdeu espaço.

A TV Gazeta deixou de ser afiliada da Globo depois de uma longa disputa judicial. O rompimento ocorreu em meio à crise financeira do grupo e às revelações sobre a utilização da empresa no esquema que levou à condenação do ex-presidente.

Como se diz em Alagoas, “além da queda [ficar sem mandato], o coice [perder a Globo]”.

O grupo empresarial continua operando, mas está em recuperação judicial e já passou para a fase de pagamento dos credores.

Collor também enfrenta bloqueios patrimoniais relacionados a dívidas, especialmente trabalhistas. Decisões judiciais já alcançaram contas, empresas e imóveis ligados ao ex-presidente.

As medidas atingiram ainda patrimônio da esposa e das filhas gêmeas, em processos que buscam recursos para pagamento de obrigações pendentes.

A situação contrasta com o período em que a combinação entre poder político e domínio da comunicação fazia dos Collor uma das famílias mais influentes de Alagoas.

Dinastia política chega ao fim sem sucessor

A tendência é que Collor progrida para o regime semiaberto ainda neste ano, mudança que, na prática, deve produzir pouco impacto sobre sua atual rotina domiciliar.

O ex-presidente também voltou a ficar inelegível em consequência da condenação. Pelas regras atuais, poderia eventualmente recuperar a possibilidade de disputar uma eleição apenas em 2032.

Um retorno às urnas, entretanto, é considerado improvável diante da idade, das condições de saúde e do longo afastamento da vida política.

O cenário é muito diferente daquele observado em 2002, quando seu retorno às urnas, uma década depois do impeachment, atraiu atenção nacional e demonstrou que Collor ainda era capaz de mobilizar parte relevante do eleitorado alagoano.

Entre 2002 e 2022, o ex-presidente participou diretamente de quase todas as grandes disputas eleitorais do estado. Perdeu eleições para o governo, venceu duas vezes para o Senado, desistiu de uma candidatura e tentou, sem sucesso, reconstruir diferentes versões de sua própria trajetória política.

Hoje, além de estar sem mandato e cumprir pena, Collor vê desaparecer a continuidade eleitoral de sua família.

Na área empresarial, o comando cotidiano dos negócios passou para o filho Fernando James, responsável por administrar empresas pressionadas por dívidas e processos judiciais.

A família que durante décadas combinou influência política, patrimônio empresarial e controle de meios de comunicação chega, assim, a um momento de profundo esvaziamento.

Mais de 30 anos depois do impeachment que parecia encerrar sua carreira, Fernando Collor conseguiu retornar ao centro da política e permanecer no Senado por 16 anos. O segundo declínio, porém, parece mais profundo: sem mandato, condenado, novamente inelegível e sem um herdeiro político consolidado, o ex-presidente vive o período de maior afastamento do poder desde que entrou na vida pública.

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