O mundo terá de promover cortes rápidos e profundos nas emissões de gases de efeito estufa e, posteriormente, retirar grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera para tentar devolver a temperatura global a níveis considerados mais seguros. Ainda assim, parte dos danos provocados pelo período em que o planeta permanecer acima de 1,5°C será irreversível.
O alerta está em relatório divulgado nesta quarta-feira (2) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e divulgado pela Folha de S. Paulo. A publicação analisa as consequências de uma ultrapassagem temporária do limite estabelecido no Acordo de Paris, fenômeno conhecido cientificamente como “overshoot”, e aponta os caminhos disponíveis para tentar reduzir novamente a temperatura.
“Precisamos nos empenhar para manter o pico do aquecimento o mais baixo possível e esse próprio pico o mais curto possível para derrubar as temperaturas”, afirma Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
Limite de 1,5°C deve ser ultrapassado
Firmado em 2015, o Acordo de Paris estabeleceu o compromisso de manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C em comparação aos níveis pré-industriais, com esforços para limitar o aquecimento a 1,5°C.
O cenário atual, no entanto, aponta em outra direção. Mantido o nível de emissões provocado principalmente pela utilização de petróleo, carvão e gás natural, o limite de 1,5°C deverá ser superado antes do fim desta década. Para o final do século, a projeção é de um aquecimento de 2,8°C.
Diante desse quadro, o Pnuma defende uma “trajetória de pico e declínio do ‘overshoot’”. A estratégia exige reduções aceleradas das emissões de CO₂, metano e outros gases até alcançar o chamado nível líquido zero. Depois, o mundo teria de chegar às emissões líquidas negativas, retirando da atmosfera mais carbono do que lança.
Essa remoção envolveria soluções naturais, como o reflorestamento, e tecnologias que ainda estão em desenvolvimento.
“Como complemento da redução das emissões, não como seu substituto”, alerta a diretora.
A dimensão do desafio é significativa. Segundo cálculos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), para cada 0,1°C de aquecimento seria necessária a remoção de 220 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, volume equivalente a aproximadamente quatro vezes as emissões anuais atuais.
Relatório aponta três frentes de ação
O Pnuma divide a resposta ao “overshoot” em três grandes etapas. A primeira envolve ações imediatas para reduzir as emissões de carbono e de gases de vida mais curta, como o metano, além da adoção urgente de medidas de adaptação destinadas a proteger populações e ecossistemas.
A segunda prevê uma descarbonização profunda da economia até alcançar emissões líquidas zero, acompanhada da ampliação das políticas de adaptação diante de uma variedade maior de riscos climáticos.
Na terceira fase, mesmo depois de atingir o nível líquido zero, as emissões precisariam se tornar negativas para retirar CO₂ acumulado da atmosfera e contribuir para a redução da temperatura.
“Para ter sucesso, portanto, precisamos de uma vontade política mais firme e de multilateralismo, além de uma governança mais ágil e inclusiva”, diz Andersen, lembrando que preceitos como igualdade e Justiça precisam balizar as ações. “Países com maior responsabilidade histórica pela mudança climática têm que fazer a maior parte do trabalho”.
Danos não desaparecerão com queda da temperatura
O relatório ressalta que fazer a temperatura global recuar no futuro não significará desfazer os prejuízos acumulados enquanto o planeta permanecer acima de 1,5°C. Ecossistemas vulneráveis, entre eles corais, zonas úmidas costeiras, florestas tropicais e regiões polares e montanhosas, correm o risco de ultrapassar limites críticos.
“Já estamos vendo esses riscos crescendo em frequência, intensidade e duração, com implicações para os sistemas naturais que nos sustentam”, diz Debra Roberts, uma das autoras do relatório, ao mencionar fenômenos como ondas de calor, secas, enchentes e elevação do nível do mar.
O estudo reconhece que muitas perdas ocorridas durante o “overshoot” não poderão ser revertidas mesmo que a temperatura posteriormente diminua.
“É o caso dos ecossistemas em risco: corais, zonas úmidas costeiras, florestas tropicais, montanhas polares e outros sistemas naturais vulneráveis que vão ultrapassar limites críticos durante essa trajetória. Todos seremos impactados.”
Para Andersen, continuar perseguindo a meta de 1,5°C significa reconhecer a gravidade do cenário atual sem abandonar o parâmetro estabelecido internacionalmente.
“Mas é também afirmar que 1,5°C é o que aceitamos globalmente nos âmbitos científico e político, que é nesse limite que precisamos estar”, afirma a diretora do Pnuma.
“Qualquer coisa acima disso, no longo prazo, projeta um futuro insustentável para muitos, muitos mesmo, especialmente os mais pobres e vulneráveis”, conclui.
Relatório recebe críticas sobre combustíveis fósseis
A publicação também provocou críticas da Climate Analytics. O diretor da organização e ex-integrante do IPCC, Bill Hare, considera que o documento não dá atenção suficiente às medidas necessárias para abandonar os combustíveis fósseis.
“Embora o Pnuma tenha feito um bom trabalho ao descrever o buraco em que nos colocamos, ele falha em nos mostrar que há uma saída”, critica Hare. E continua:
“A omissão de algumas análises de mitigação de importância fundamental pode transformá-lo em um apelo à apatia, em vez de um chamado à ação.”
Segundo a organização, o relatório dedica pouco espaço à eliminação de petróleo, carvão e gás natural e não menciona o movimento iniciado por mais de 50 países durante a COP30, realizada em Belém, para estabelecer uma transição energética programada.
A Climate Analytics argumenta ainda que diversos setores da economia já dispõem de alternativas para atingir emissões líquidas zero até 2050. Na avaliação da entidade, políticas governamentais mais ambiciosas ainda poderiam fazer o aquecimento global recuar para menos de 1,5°C até o fim deste século.







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