No último ano de Lula 3, Brasil pode superar os EUA e se tornar a maior potência agrícola do mundo

Projeção internacional aponta avanço histórico do agronegócio brasileiro, impulsionado pela China, por investimentos em tecnologia e pela guerra comercial de Donald Trump

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O Brasil caminha para encerrar 2026 em uma posição histórica no comércio internacional: a de maior potência agrícola do planeta, superando os Estados Unidos, que ocupam a liderança há mais de um século. A projeção, que foi apresentada pelo jornal britânico Financial Times e publicada em reportagem do UOL, coloca o país diante de uma possível mudança na hierarquia mundial da produção e exportação de alimentos.

O avanço ocorre no último ano do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acumula 12 anos à frente do governo federal. Segundo especialistas, o Brasil já disputa diretamente com os EUA o protagonismo agrícola global e lidera o comércio de importantes produtos, como soja, café, algodão, suco de laranja e carnes.

Ao portal UOL, Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura e consultora especializada nas relações comerciais com a China, diz que os dois países chegaram praticamente empatados ao último trimestre de 2026. A ascensão brasileira resulta de décadas de investimentos em pesquisa, expansão da produtividade e mudanças no cenário geopolítico.

China e Trump impulsionaram a virada brasileira

Um dos principais fatores para o crescimento do agronegócio nacional foi a aproximação comercial com a China, que se consolidou como maior parceiro comercial do Brasil durante o segundo mandato de Lula.

Entretanto, a aceleração desse processo ganhou força com as medidas protecionistas adotadas pelo presidente estadunidense Donald Trump, especialmente a partir de sua primeira guerra comercial com Pequim.

“A China foi fundamental para que o Brasil assumisse a posição de grande exportador global de commodities agrícolas”, diz Wachholz.

“E isso se intensificou nos últimos anos. Os EUA ocupavam a posição de principal exportador agrícola para a China até 2017, quando foi lançada a primeira guerra comercial de Trump.”

O conflito comercial abalou a confiança entre chineses e estadunidenses, abrindo espaço para que o Brasil ampliasse suas exportações. Pequim passou a buscar fornecedores alternativos, especialmente para produtos estratégicos destinados à alimentação humana e animal.

Apesar da oportunidade criada pela disputa internacional, a capacidade brasileira de responder rapidamente ao aumento das encomendas também foi determinante.

“É fato também que a gente conseguiu atender a essa demanda, o que não era algo óbvio”, lembra Wachholz, que trabalhou como assessora da então ministra da Agricultura Tereza Cristina.

Embrapa foi decisiva para transformar o país

A transformação do Brasil em uma potência agrícola também está diretamente relacionada ao trabalho desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Criada em 1973, a instituição contribuiu para adaptar culturas agrícolas às condições brasileiras, especialmente no Cerrado, onde a produção de soja ganhou escala e passou a representar uma das principais forças econômicas do país.

Durante uma visita a Pequim, a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, destacou o papel da pesquisa científica nessa mudança.

“Em 53 anos, nós passamos de importador para o grande produtor e exportador de alimentos graças à ciência e tecnologia”, diz ela. “O segredo da Embrapa é que ela gera tecnologia, que é um dos três pilares, junto com capacitação e políticas públicas associadas. Esse tripé fez chegar onde a gente chegou.”

Segundo Massruhá, o objetivo inicial do desenvolvimento agrícola brasileiro não era conquistar mercados internacionais, mas garantir o abastecimento interno e a segurança alimentar da população.

“Só que, com a diversidade de solo e clima que a gente tem e a adaptação que a gente fez, o país começou a exportar”, diz Massruhá.

Foi nesse contexto que a China surgiu como “a grande demandante”, ampliando as possibilidades comerciais para os produtores brasileiros.

China busca reduzir dependência da soja brasileira

Apesar da importância do mercado chinês para o agronegócio nacional, Pequim trabalha para diminuir sua dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente do Brasil.

Uma das estratégias envolve aumentar a produtividade das lavouras chinesas de soja por meio de sementes geneticamente modificadas. O país enfrenta limitações relacionadas à disponibilidade de terras agricultáveis e recursos hídricos, o que dificulta a expansão da produção.

“Faz sentido, EUA e Brasil têm produtividade bastante acima da chinesa justamente por fazerem uso dessas sementes”, diz a especialista.

Outra iniciativa chinesa é reduzir a participação da soja na composição da ração utilizada pela indústria de proteína animal.

“A proteína animal que é consumida dentro da China precisa dessa soja, que é o que o Brasil exporta: soja como ração”, explica. “Na medida em que consigam reduzir esse percentual, podem depender um pouco menos da soja.”

Mesmo com essas mudanças, Wachholz avalia que os efeitos sobre as exportações brasileiras deverão ser limitados. A projeção apresentada pela consultora indica uma redução anual de 2,4% na demanda de soja até 2035.

“A gente viu acontecer antes. Deu certo em várias cadeias, como carros elétricos. Mas o impacto para o Brasil não será dramático.”

Para a especialista, a diversificação comercial interessa aos dois países e pode contribuir para relações econômicas mais equilibradas.

“Ninguém quer depender de um só fornecedor, nem depender de um só comprador.”

Brasil aposta em novos mercados para ampliar exportações

Diante das transformações do comércio internacional, o governo Lula passou a priorizar a ampliação de acordos comerciais por meio do Mercosul, incluindo negociações com a União Europeia e outros parceiros.

A estratégia busca reduzir a concentração das exportações brasileiras em determinados mercados e criar novas oportunidades para os produtores nacionais.

Na avaliação da presidente da Embrapa, porém, a diversificação não deve significar afastamento da China. Pelo contrário, Massruhá defende o fortalecimento de parcerias tecnológicas capazes de abrir mercados em outras regiões, especialmente na África.

“Não adianta ignorar a China”, diz. “Ela está entrando na África, aliás, já está lá há bastante tempo. E a África demanda muito do Brasil. Não vejo a China como concorrente. Essas trocas são ganha-ganha. Quando você leva a tecnologia brasileira para a África, está validando nossas tecnologias.”

A cooperação internacional também pode ampliar a presença de tecnologias agrícolas desenvolvidas no Brasil, fortalecendo a influência do país para além das exportações de commodities.

Planejamento será desafio para os próximos 50 anos

Embora o Brasil esteja próximo de alcançar uma posição inédita no cenário agrícola mundial, especialistas alertam que manter essa liderança exigirá investimentos contínuos em inovação, infraestrutura, produtividade e diversificação comercial.

A própria experiência brasileira demonstra que o desenvolvimento do setor não ocorreu de maneira imediata, mas foi resultado de décadas de pesquisas e políticas públicas.

Para Silvia Massruhá, o momento exige uma discussão sobre os rumos do agronegócio e sobre a capacidade do país de preservar sua competitividade diante das mudanças econômicas, tecnológicas e ambientais.

A presidente da Embrapa defende que o Brasil e o setor agropecuário “têm que discutir muito mais o planejamento estratégico”, considerando os desafios dos próximos 50 anos.

A eventual ultrapassagem dos Estados Unidos representaria mais do que uma conquista comercial. Seria a consolidação de uma transformação iniciada quando o Brasil ainda buscava garantir sua própria segurança alimentar e que, décadas depois, colocou o país entre os principais responsáveis pelo abastecimento mundial.

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