O documentarista João Moreira Salles, fundador da Revista Piauí, fez duras críticas a empresários, banqueiros e executivos brasileiros que vêm se aproximando da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Em artigo publicado no dia 2 de outubro, o escritor questiona a disposição de integrantes da elite econômica de estabelecer relações políticas com o senador, apesar do que considera sinais de risco à democracia associados à trajetória da família Bolsonaro.
O texto, intitulado “O que esses brasileiros sabem”, apresenta uma reflexão sobre a responsabilidade de pessoas influentes na legitimação de projetos políticos. Moreira Salles sustenta que parte do empresariado conhece o histórico de declarações e posicionamentos da família Bolsonaro, mas prefere relativizar essas questões diante de interesses econômicos e expectativas de mudanças na política fiscal.
Ao longo do artigo, o documentarista menciona nominalmente representantes de grandes empresas e instituições financeiras que participaram de encontros ou jantares com Flávio Bolsonaro. A presença nesses eventos, ressalva o próprio autor, não significa necessariamente que todos sejam eleitores ou apoiadores do candidato.
Elogio a torturador é citado como exemplo
Um dos principais argumentos apresentados por Moreira Salles envolve a homenagem feita por Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Ustra comandou o DOI-Codi de São Paulo durante a ditadura militar e foi reconhecido judicialmente como responsável por episódios de tortura. O documentarista recorda que Flávio Bolsonaro não condenou a homenagem feita pelo pai e, na ocasião, defendeu o direito do então deputado de manifestar aquela opinião.
Para o escritor, esse episódio deveria representar um limite moral para lideranças empresariais que defendem valores democráticos.
O artigo também recupera declarações de Flávio sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023 e sua defesa do legado político do pai. Na avaliação do documentarista, esses posicionamentos deveriam provocar maior preocupação entre empresários que consideram apoiar sua candidatura.
Interesses econômicos e responsabilidade política
Moreira Salles reconhece que há preocupações legítimas entre investidores e empresários com o crescimento da dívida pública, os gastos governamentais e a estabilidade econômica.
Entretanto, argumenta que esses problemas não justificariam ignorar eventuais ameaças às instituições democráticas. O autor sustenta que crises econômicas podem ser revertidas, enquanto rupturas institucionais tendem a produzir consequências mais duradouras.
O documentarista também diferencia a atividade jornalística dos encontros empresariais. Segundo sua análise, entrevistar um candidato não equivale a oferecer respaldo político, enquanto recepções organizadas por figuras influentes do mercado podem contribuir para sua legitimação pública.
Ao abordar o banqueiro Marcelo Kayath, que apoiou Lula em 2022 e posteriormente estabeleceu interlocução com Flávio Bolsonaro, Moreira Salles questiona até que ponto preocupações fiscais justificam a aproximação com um projeto político que considera arriscado.
Empresários são citados nominalmente
O artigo também faz referências a investigações e controvérsias envolvendo antigos aliados de Flávio Bolsonaro, entre eles Fabrício Queiroz, Cláudio Castro e personagens ligados a denúncias sobre milícias no Rio de Janeiro.
Moreira Salles utiliza esses episódios para sustentar seu argumento de que empresários deveriam avaliar não apenas as propostas econômicas de um candidato, mas também sua trajetória e suas alianças políticas.
A crítica se estende à possibilidade de uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro sofrer influência direta do pai. Para o escritor, a defesa pública do legado de Jair Bolsonaro torna essa hipótese particularmente relevante.
Ao concluir, Moreira Salles afirma que o empresariado precisa considerar as consequências políticas de suas escolhas. Sua principal preocupação é que a busca por estabilidade econômica e influência sobre o futuro governo contribua para normalizar comportamentos que, em sua avaliação, ameaçam a democracia.
Veja os nomes citados por João Moreira Salles
Na versão atualizada do artigo, o documentarista relaciona 26 empresários, executivos e representantes do mercado financeiro que participaram de encontros ou jantares com Flávio Bolsonaro, alguns como anfitriões:
- Flávio Rocha
- Marcelo Kayath
- André Esteves
- Eduardo Bartolomeo
- Eduardo Fischer
- Roberto Campos Neto
- Fernando Marques
- Emmanuel Hermann
- Paulo Skaf
- Luiz Carlos Trabuco
- Fábio Barbosa
- Alexandre Ostrowiecki
- Mario Araripe
- Milton Maluhy Filho
- Helio Seibel
- Christian Egan
- Roberto Dagnoni
- Pedro Parente
- Daniel Goldberg
- Fábio Ermírio de Moraes
- Fabio Carvalho
- Richard Gerdau
- Gilson Finkelsztain
- José Galló
- Fernando Simões
- João Camargo
A revista Piauí registra que David Feffer, da Suzano, e Rubens Ometto, da Cosan, foram retirados da lista original após negarem participação em encontros ou jantares com o candidato.
O próprio Moreira Salles ressalta que não presume que todos os participantes votem em Flávio Bolsonaro e reconhece que alguns executivos têm obrigações profissionais que podem justificar reuniões com candidatos à Presidência.







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