Opinião

Entre a memória e o desgaste: a sociologia de uma disputa e o retrato do Brasil na pesquisa Genial/Quaest de junho de 2026

Pesquisa Genial/Quaest revela um país ainda polarizado, mas em transformação, com Lula mantendo liderança eleitoral e Flávio Bolsonaro enfrentando desafios para ampliar sua base de apoio

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Há pesquisas que se limitam a medir números. Há outras que permitem ouvir, por trás das estatísticas, o rumor das ruas, os sentimentos difusos, as esperanças silenciosas e as inquietações que habitam a alma coletiva de um país.

A vigésima sexta rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada em junho de 2026, pertence a essa segunda categoria. Mais do que uma sucessão de percentuais, ela oferece um mapa das emoções políticas dos brasileiros, uma cartografia das fidelidades, das rejeições e das expectativas que moldam o cenário presidencial.

Como todo retrato sociológico sério, esta fotografia não anuncia o amanhã. A sociologia não trabalha com profecias. Trabalha com tendências, permanências e mudanças. Seu território é a observação rigorosa dos movimentos humanos, das correntes subterrâneas que muitas vezes escapam às paixões instantâneas das redes sociais e aos entusiasmos passageiros da conjuntura.

A pesquisa foi realizada entre os dias 5 e 8 de junho de 2026. Foram ouvidos 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais, distribuídos em 120 municípios do país. O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07661/2026, possui margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Trata-se de um desenho metodológico sofisticado, baseado em amostragem probabilística em três estágios, seleção de municípios, setores censitários e cotas por sexo, idade, renda e escolaridade. A pós-estratificação foi realizada por meio do algoritmo de calibração conhecido como rake, complementado pelo modelo estatístico MRP, um dos mais modernos instrumentos utilizados internacionalmente para estimativas de subgrupos populacionais.

Existe uma beleza silenciosa na estatística quando ela é bem construída. Os números deixam de ser abstrações e passam a funcionar como uma espécie de sismógrafo da vida coletiva, captando os pequenos tremores, as oscilações quase imperceptíveis e os deslocamentos mais amplos da sociedade.

O retrato produzido pela Genial/Quaest mostra um Brasil que continua dividido, mas não imóvel. A polarização permanece como a grande moldura da disputa presidencial, embora os contornos da paisagem revelem tonalidades mais complexas do que aquelas observadas nos anos mais incendiários da vida política nacional.

No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 39% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro registra 29%. Renan Santos e Ronaldo Caiado surgem com 3%. Romeu Zema e Aécio Neves alcançam 2%. Os demais nomes aparecem com percentuais residuais.

Sob a ótica estatística, a vantagem de dez pontos de Lula está acima da margem de erro. Sob a ótica sociológica, ela expressa algo mais importante do que uma simples dianteira numérica. Revela a persistência de uma base social consolidada, formada ao longo de décadas, construída na memória afetiva dos setores populares e alimentada por uma identificação que transcende os ciclos eleitorais.

Existe uma espécie de raiz antiga na relação entre Lula e parcelas significativas da população brasileira. Não se trata apenas de preferência eleitoral. Trata-se de pertencimento simbólico. Como os grandes rios que seguem seu curso apesar das tempestades, determinadas lealdades políticas são alimentadas por lembranças, experiências e sentimentos sedimentados pelo tempo.

Essa força aparece nitidamente no Nordeste, onde Lula alcança 54% das intenções de voto, contra 25% de Flávio Bolsonaro. Surge também entre os beneficiários do Bolsa Família, entre os segmentos de renda mais baixa, entre os católicos e entre os brasileiros mais idosos.

Entre os que recebem até dois salários mínimos, Lula chega a 50%, enquanto Flávio Bolsonaro fica com 23%. Entre os beneficiários do Bolsa Família, a aprovação do governo alcança 60%.

Mas nenhuma liderança política caminha sobre um campo sem pedras.

A pesquisa mostra que a estabilidade eleitoral do presidente convive com uma avaliação mais áspera sobre seu governo. Quarenta e sete por cento aprovam a administração federal. Quarenta e oito por cento desaprovam. Na avaliação qualitativa, 38% classificam o governo como negativo, enquanto 34% o consideram positivo.

É como se o eleitor brasileiro construísse duas narrativas paralelas. Em uma delas, permanece viva a confiança em Lula como liderança política. Na outra, manifestam-se as insatisfações cotidianas produzidas pelas dificuldades econômicas.

E é justamente na economia que se encontra uma das principais vulnerabilidades do presidente.

Quarenta e quatro por cento afirmam que a economia piorou nos últimos doze meses. Sessenta e nove por cento dizem que os alimentos ficaram mais caros. Sessenta e sete por cento acreditam que seu poder de compra é menor do que há um ano. Cinquenta e três por cento consideram que conseguir emprego se tornou mais difícil.

Os supermercados, as feiras livres e as contas domésticas possuem uma linguagem própria. Neles, a inflação não é uma abstração acadêmica. Ela se materializa na carne mais cara, no carrinho de compras mais vazio, no orçamento familiar submetido a escolhas dolorosas. E a política, por mais sofisticada que seja, sempre acaba encontrando a realidade concreta das mesas das famílias brasileiras.

Do outro lado da arena está Flávio Bolsonaro.

Sua maior força reside na intensidade de sua identidade política. O bolsonarismo continua sendo um dos mais poderosos fenômenos sociológicos do Brasil contemporâneo. Entre os eleitores que se definem como bolsonaristas, Flávio alcança impressionantes 94%.

Entre os evangélicos, registra 41%, enquanto Lula obtém 26%. Entre os brasileiros de renda mais elevada, Flávio chega a 37%, contra 28% do presidente.

Além disso, setenta por cento de seus eleitores afirmam que o voto é definitivo. O mesmo ocorre com 71% dos eleitores de Lula. Ambos possuem bases consolidadas, revelando que a disputa presidencial continua organizada por identidades fortemente cristalizadas.

Contudo, há uma diferença importante entre os dois.

Se Lula aparece como um político que conserva sua musculatura eleitoral, Flávio Bolsonaro apresenta uma curva menos favorável em relação às rodadas anteriores.

Nos cenários de segundo turno, o presidente derrota todos os adversários testados.

Contra Flávio Bolsonaro, Lula vence por 44% a 38%.

Contra Romeu Zema, a vantagem é de 45% a 35%.

Contra Ronaldo Caiado, o placar também é de 45% a 35%.

Contra Renan Santos, Lula aparece com 45%, enquanto o adversário registra 31%.

O dado mais significativo encontra-se justamente no confronto com Flávio Bolsonaro.

Nas pesquisas anteriores, o senador vinha reduzindo a distância e chegou a produzir cenários de empate numérico. Agora, porém, a trajetória se altera. A curva sofre uma inflexão desfavorável. O movimento não representa um colapso. Seria exagerado afirmar isso. Mas revela perda de impulso e dificuldades para ampliar sua influência além das fronteiras do eleitorado bolsonarista tradicional.

Existe algo de semelhante aos ventos marítimos nesse processo. Às vezes, uma embarcação continua navegando, mas perde a força das correntes que impulsionavam sua velocidade. Não afunda. Não desaparece. Apenas deixa de avançar com a mesma intensidade.

Outro problema para Flávio Bolsonaro é a rejeição.

Cinquenta e seis por cento dos entrevistados afirmam conhecê-lo e não votariam nele. No caso de Lula, esse índice é de 53%.

Ambos carregam rejeições elevadas, o que revela a permanência das divisões políticas que marcam o país. Mas o senador encontra mais dificuldades para conquistar independentes e setores da direita não bolsonarista.

As notícias envolvendo o caso Vorcaro também produzem efeitos relevantes. Sessenta e cinco por cento dos entrevistados consideram que Flávio errou ao solicitar financiamento. Sessenta por cento afirmam que as conversas levantaram suspeitas. Cinquenta e oito por cento acreditam que ele pode estar escondendo algum envolvimento ilegal. Sessenta e dois por cento dizem que ele sabia do envolvimento de Vorcaro em casos de corrupção.

Doze por cento afirmam que essas informações diminuem sua disposição de votar no senador. Apenas seis por cento declaram que elas aumentam.

Em política, a reputação é um patrimônio invisível. E patrimônios invisíveis podem sofrer erosões lentas, quase imperceptíveis, mas cumulativas.

Enquanto isso, alguns personagens secundários da disputa começam a emitir sinais interessantes.

Ronaldo Caiado registra apenas 3% no primeiro turno. Mas alcança 35% em um eventual segundo turno contra Lula. Há algo de curioso nesse desempenho. Ele sugere a existência de um eleitorado conservador disposto a procurar alternativas além do bolsonarismo tradicional.

Romeu Zema apresenta fenômeno semelhante. Também alcança 35% no segundo turno. Seu maior problema continua sendo o desconhecimento. Cinquenta e um por cento dos brasileiros ainda não sabem quem ele é.

Renan Santos talvez represente a maior novidade da série histórica. Com apenas 3% no primeiro turno, alcança 31% num eventual segundo turno contra Lula. Setenta por cento da população ainda não o conhecem. Isso significa que seu futuro político permanece envolto em incertezas, mas também revela uma reserva potencial de crescimento.

Aécio Neves continua carregando um peso difícil de remover. Sua rejeição chega a 54%, uma das mais elevadas do levantamento.

Há ainda um dado revelador sobre o estado de espírito do eleitor brasileiro.

Sessenta e três por cento afirmam que sua escolha é definitiva. Apenas 36% admitem a possibilidade de mudar de voto.

Talvez essa seja uma das características mais marcantes do Brasil de 2026.

O país das paixões instantâneas e das reviravoltas permanentes parece ter cedido espaço a uma sociedade mais cautelosa, mais desconfiada e menos inclinada às mudanças abruptas. Os brasileiros parecem carregar suas escolhas políticas como quem carrega antigas fotografias de família. Podem sentir decepções, podem experimentar dúvidas, mas não abandonam facilmente aquilo que faz parte de sua história.

Do ponto de vista estratégico, Lula é quem se posiciona melhor nesta rodada da Genial/Quaest.

Lidera no primeiro turno. Vence em todos os cenários de segundo turno. Possui uma base social robusta e uma memória política sedimentada em amplos segmentos da sociedade.

Mas a vantagem não é sinônimo de tranquilidade.

As dificuldades econômicas continuam sendo o principal obstáculo de sua trajetória.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, permanece como o principal adversário. Conserva uma base leal, forte presença entre evangélicos e setores de renda mais elevada. Contudo, enfrenta limites para ampliar sua coalizão eleitoral e apresenta sinais de desgaste em sua trajetória recente.

Caiado e Zema revelam pequenos movimentos positivos. Renan Santos emerge como uma novidade estatística relevante. Mas, neste momento, nenhum deles ameaça efetivamente a centralidade da polarização entre Lula e o bolsonarismo.

No fundo, a pesquisa Genial/Quaest não fala apenas de candidatos.

Ela conta a história de um país que continua dividido por memórias, identidades, experiências econômicas e visões distintas sobre o futuro. Conta a história de um Brasil em que a política ainda é capaz de despertar paixões, produzir fidelidades e alimentar esperanças.

E talvez seja essa a grande lição revelada pelos números.

As eleições de 2026 ainda estão longe de serem decididas. Mas uma coisa já se pode afirmar com segurança: a disputa presidencial continuará sendo travada não apenas nas urnas, mas também nos territórios invisíveis da memória, dos afetos e das expectativas que moldam a vida coletiva dos brasileiros.

Porque, em última instância, os números contam pessoas. E toda sociedade, quando observada com atenção, transforma estatísticas em narrativas e percentuais em histórias humanas.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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