Delegação de Direitos Humanos da OEA chega ao Brasil para investigar megaoperação no Rio

Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) envia missão ao país após denúncias de abusos, enquanto PMs do Batalhão de Choque são denunciados por crimes na ação mais letal do país — que deixou 122 mortos

Uma comitiva da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) desembarca no Brasil nesta terça-feira (02) para investigar possíveis violações cometidas durante a megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. A ação, que deixou 122 mortos — 117 suspeitos e cinco policiais — é considerada a mais letal já registrada no país.

A visita ocorre em meio a crescente pressão de entidades de direitos humanos, denúncias de irregularidades e novos desdobramentos do caso. Nesta segunda-feira, o Ministério Público do Rio denunciou seis policiais militares do Batalhão de Choque por crimes praticados durante a operação, incluindo furto de armamentos, peças de veículos e tentativa de obstrução das câmeras corporais usadas no patrulhamento.

Missão irá ao Rio após agenda em Brasília

Integrantes da CIDH chegam primeiro a Brasília, de onde seguirão para o Rio de Janeiro, onde permanecerão até 6 de dezembro. O objetivo da missão é, segundo comunicado oficial, “observar in loco a situação de segurança cidadã no contexto da intervenção policial denominada Operação Contenção”.

A delegação será liderada pelo presidente da CIDH, José Luis Caballero, acompanhado da secretária-executiva Tania Reneaum Panszi, da secretária-executiva adjunta Maria Claudia Pulido e de uma equipe técnica especializada.

Durante a estadia, os representantes da CIDH terão reuniões com autoridades federais, estaduais e municipais, além de encontros com vítimas, familiares, organizações da sociedade civil, pesquisadores e outros atores envolvidos no caso. A intenção é recolher relatos diretos sobre a operação e avaliar o cumprimento das obrigações internacionais do Brasil em direitos humanos.

O governo brasileiro autorizou formalmente a missão, que será recebida por integrantes dos ministérios da Justiça, dos Direitos Humanos e da Casa Civil.

PMs do Batalhão de Choque são denunciados

A chegada da comitiva acontece dias depois de a Corregedoria da Polícia Militar prender cinco agentes do Batalhão de Choque suspeitos de cometer crimes durante a operação. Imagens das câmeras corporais revelaram indícios de que um fuzil fora furtado por policiais, supostamente com o objetivo de ser revendido a criminosos.

A suspeita do furto do armamento se soma a outras irregularidades apontadas pela Corregedoria, que incluem a manipulação de câmeras, subtração de peças de veículos e tentativas de obstruir investigações internas. Cinco policiais foram presos.

CIDH já havia criticado operação e cobrado investigação independente

Três dias após o confronto, a CIDH já havia se manifestado publicamente contra a megaoperação policial, classificando como “extremamente alto” o número de mortos. A comissão afirmou que “condena veementemente” o resultado da ação e exigiu do Estado brasileiro uma investigação “imediata, diligente e independente”, com análise integral da cadeia de comando e responsabilização dos envolvidos.

A entidade também defendeu reparação às vítimas e seus familiares. No Brasil, a OAB-RJ anunciou a criação de um observatório específico para acompanhar os desdobramentos da Operação Contenção e monitorar possíveis violações.

Operação reacende debate sobre segurança pública no Rio

A megaoperação, realizada em meio a disputas territoriais entre facções, reacendeu discussões sobre o modelo de segurança pública adotado no Rio de Janeiro, marcado por ações de grande letalidade e frequentes denúncias de violações de direitos humanos.

A expectativa é que a visita da CIDH aumente a pressão por respostas institucionais e acelere as investigações sobre abusos cometidos durante a intervenção. A missão também deve produzir recomendações formais ao Estado brasileiro nas próximas semanas.

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