Três décadas após o massacre do Carandiru, que deixou 111 presos mortos em São Paulo e se tornou símbolo da violência policial no país, o Brasil volta a registrar uma tragédia sem precedentes. A megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, superou o episódio de 1992 em número de vítimas e já é considerada a ação mais violenta da história nacional.
Os dois casos ocorreram em contextos distintos — um dentro do sistema prisional, o outro em plena área urbana, em confronto direto com o tráfico de drogas —, mas ambos revelam um padrão comum: a letalidade extrema das forças de segurança e a ausência de controle efetivo sobre o uso da força.
Operação deixa mais de 100 mortos no Rio
De acordo com dados oficiais, 64 pessoas morreram na operação — 60 suspeitos e quatro policiais. No entanto, o número real pode ser maior. Durante a madrugada desta quarta-feira (29), moradores da Penha levaram ao menos 72 corpos para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, o que elevaria o total de mortos a cerca de 119.
A Polícia Militar informou que esses corpos não estavam incluídos no balanço inicial divulgado na véspera. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) já anunciou a realização de uma perícia independente para identificar as vítimas e apurar as circunstâncias das mortes.
A operação, planejada por dois meses, envolveu 2,5 mil agentes e tinha como objetivo conter a expansão do Comando Vermelho (CV), a maior facção criminosa do estado. Até o momento, foram registradas 81 prisões e a apreensão de 42 fuzis, radiotransmissores e cerca de 200 quilos de drogas.
De Carandiru à Penha: a violência que se repete
O massacre do Carandiru, ocorrido em 2 de outubro de 1992, marcou o auge da repressão policial no Brasil. Naquele dia, 341 policiais da Tropa de Choque invadiram o Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo para conter uma rebelião. Em apenas 20 minutos, 3,5 mil disparos foram feitos, resultando em 111 presos mortos — muitos executados à queima-roupa, segundo laudos periciais posteriores.
O episódio virou livro, filme e referência internacional da violência institucional do Estado brasileiro. Agora, mais de 30 anos depois, a tragédia parece se repetir sob outra forma: nas ruas e vielas do Rio de Janeiro, em uma operação que transformou comunidades inteiras em zonas de guerra.
Moradores da Penha e do Alemão relataram corpos espalhados por áreas de mata, denúncias de execuções sumárias e desaparecimentos. Entidades de direitos humanos afirmam que o governo estadual substituiu o discurso da segurança pelo da eliminação.
“Operação contra narcoterroristas” e críticas de abusos
O governador Cláudio Castro (PL) classificou a ação como uma “operação contra narcoterroristas”, expressão usada para justificar o alto número de mortos. O discurso, porém, foi alvo de críticas de organizações civis, que veem na retórica uma tentativa de legitimar o uso indiscriminado da força.
Segundo analistas, o episódio consolida um novo padrão de enfrentamento no Rio, em que o aparato policial é empregado de forma militarizada, sem mecanismos de controle e sem coordenação com o governo federal.
Confronto em nível de guerra
A operação também revelou um salto na capacidade bélica das facções criminosas. Em uma ação inédita, traficantes utilizaram drones equipados com granadas para atacar equipes do Bope e da Core. O dispositivo, acionado por gatilho mecânico ou elétrico, permitia o lançamento da carga sem exposição dos operadores.
A estratégia, inédita em operações urbanas no país, foi descrita por autoridades como um “cenário de guerra”. O confronto intenso, com helicópteros sobrevoando a região e veículos blindados em solo, paralisou bairros inteiros e deixou escolas e hospitais sem funcionar.
Novas ofensivas e caça ao líder do Comando Vermelho
Mesmo sem concluir a contagem total de mortos e feridos, o governo de Cláudio Castro já articula novas ações contra o Comando Vermelho. A meta é ampliar o cerco a outras áreas controladas pela facção e enfraquecer sua estrutura financeira.
O principal alvo da megaoperação era Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como chefe da facção nos complexos da Penha e do Alemão. Ele não foi localizado. Dois de seus principais aliados, Thiago do Nascimento Mendes, conhecido como Belão do Quitungo, e Nikolas Fernandes Soares, operador financeiro do grupo, foram presos.
Carandiru, 1992: a tragédia que não se apaga
O massacre do Carandiru permanece como uma das maiores manchas na história do país. O comandante da operação, coronel Ubiratan Guimarães, chegou a ser condenado a 632 anos de prisão em 2001, mas foi absolvido em 2006. Nenhum policial cumpriu pena.
O episódio se tornou símbolo da impunidade e da falência das políticas de segurança pública no Brasil. Três décadas depois, a tragédia do Rio de Janeiro reacende o mesmo debate: até que ponto o Estado pode usar a força em nome da ordem sem violar o direito à vida?
A resposta, para muitos especialistas, está nas ruas da Penha, onde corpos voltaram a ser alinhados sob lençóis brancos — como no Carandiru de 1992.






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