Caso Dark Horse: em meio a investigações da PF, filme sobre Bolsonaro tem estreia adiada para 2027

Produção que retrata a trajetória romantizada do ex-presidente entrou na mira do STF após revelação de áudios de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro; longa também enfrenta pendências na Ancine

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O filme “Dark Horse”, que romantiza a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), só deverá chegar aos cinemas brasileiros em 2027, informa Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo. Inicialmente previsto para estrear antes das eleições presidenciais deste ano, o longa-metragem teve o lançamento adiado em meio a investigações sobre seu financiamento, entraves regulatórios e preocupações com possíveis questionamentos da Justiça Eleitoral.

A produção se tornou um dos assuntos controversos da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), após a divulgação de áudios nos quais o senador solicita recursos ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o projeto cinematográfico.

O caso motivou a abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), que investiga possíveis crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Flávio e seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), estão entre os investigados.

Uma das hipóteses examinadas pela Polícia Federal é a de que recursos transferidos por Vorcaro, por meio do fundo Havengate, administrado por um advogado próximo de Eduardo, possam ter sido desviados para custear a permanência do ex-parlamentar nos Estados Unidos.

Estreia foi adiada após preocupações eleitorais

A previsão inicial era lançar “Dark Horse” em setembro, antes do primeiro turno das eleições. Entretanto, pessoas que acompanham o projeto apontam que o risco de uma intervenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as investigações relacionadas ao Banco Master e a tramitação de documentos na Agência Nacional do Cinema (Ancine) contribuíram para o adiamento.

O filme, com aproximadamente 1 hora e 40 minutos de duração, já teve seu registro aceito pela Ancine, mas ainda depende de autorização para exploração comercial e da classificação indicativa do Ministério da Justiça.

Outro fator é a necessidade de dublagem. A distribuidora Europa Filmes ainda deverá adaptar os diálogos, originalmente em inglês, para o português, já que a produção conta com um elenco predominantemente estrangeiro.

Um trailer destinado ao público brasileiro já foi editado e dublado, mas sua divulgação deverá ocorrer somente depois do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro. A estratégia busca evitar novos questionamentos eleitorais durante a reta final da campanha.

Polícia Federal questiona projeções milionárias de bilheteria

Além das suspeitas sobre a origem e a destinação dos recursos, a Polícia Federal identificou inconsistências nas estimativas financeiras apresentadas para justificar o investimento no longa-metragem.

Um relatório divulgado por determinação do ministro André Mendonça, do STF, revelou que o plano de negócios de “Dark Horse” previa resultados de bilheteria superiores aos maiores sucessos do cinema brasileiro.

O documento apresentado pelo publicitário Thiago Miranda, que participou das articulações para financiar a produção, trabalhava com três cenários de arrecadação: US$ 45 milhões na projeção pessimista, US$ 70 milhões na conservadora e US$ 100 milhões na otimista.

“Para situar a dimensão dessas projeções, o maior resultado de bilheteria da história do cinema nacional foi obtido por ‘Minha Mãe é uma Peça 3’ (2019), com aproximadamente R$ 120 milhões — equivalente, à época, a cerca de US$ 30 milhões. O cenário otimista projetado para ‘Dark Horse’ superaria esse recorde histórico nacional em mais de três vezes, situando-se na faixa de desempenho de grandes produções hollywoodianas de bilheteria global”, aponta a PF.

Os investigadores consideram que as estimativas destoam significativamente do desempenho habitual das produções nacionais, o que exige uma análise mais aprofundada da operação financeira.

Na avaliação da Polícia Federal, a discrepância “entre as projeções do plano de negócios e qualquer parâmetro realista do mercado cinematográfico nacional constitui elemento que reforça a necessidade de apuração quanto à viabilidade econômica e à verdadeira finalidade da operação”.

Produção gastou 72% do orçamento nos Estados Unidos

Os custos de “Dark Horse” também despertaram a atenção dos investigadores. Uma perícia privada contratada pela produtora Go Up Entertainment apontou que o filme teria consumido US$ 13,39 milhões, aproximadamente R$ 75,1 milhões pela cotação utilizada no levantamento.

Segundo o documento, 72% das despesas ocorreram nos Estados Unidos, embora as filmagens tenham sido realizadas em território brasileiro.

Outro ponto questionado envolve os valores destinados às etapas iniciais do projeto. Somente a chamada “soft produção”, fase dedicada à concepção e ao desenvolvimento preliminar da obra, teria custado US$ 2,68 milhões, o equivalente a 20% do orçamento total.

No mercado audiovisual, essa etapa costuma representar entre 3% e 5% dos gastos de uma produção cinematográfica.

Cinco profissionais do setor consultados pela reportagem original demonstraram surpresa com os valores apresentados, considerados elevados para um projeto desse porte.

A perícia também identificou que os custos das filmagens realizadas no Brasil foram inferiores à soma das despesas com desenvolvimento inicial e pré-produção.

Flávio Bolsonaro chegou a prometer a apresentação das contas do longa após a divulgação dos áudios envolvendo Vorcaro. Posteriormente, passou a sustentar que uma auditoria privada teria esclarecido os gastos, embora o levantamento não encerre os questionamentos investigados pelas autoridades.

Ancine autuou produtora por irregularidades nas filmagens

Os problemas envolvendo “Dark Horse” não se limitam ao financiamento. Em 28 de julho, a Ancine instaurou um processo administrativo e autuou a Go Up Entertainment por irregularidades relacionadas à realização das filmagens no Brasil.

O auto de infração, elaborado pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, apontou a seguinte conduta: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.”

Pelas normas da agência, produções estrangeiras filmadas no país precisam ser acompanhadas por uma empresa registrada no órgão regulador, responsável por apresentar documentos como contratos, planos de filmagem e informações sobre profissionais estrangeiros contratados.

Segundo a autuação, essas exigências não foram cumpridas pela produtora.

O procedimento administrativo poderá resultar em multa de R$ 2 mil a R$ 100 mil, dependendo da conclusão do processo.

Filme recria atentado contra Bolsonaro e campanha de 2018

Apesar da repercussão política envolvendo Flávio Bolsonaro, o senador ocupa um papel secundário na narrativa de “Dark Horse”, com poucas falas ao longo da produção.

A história concentra sua atenção na romantização da trajetória de Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018, incluindo o atentado a faca sofrido em Juiz de Fora, Minas Gerais, e a vitória nas urnas daquele ano.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro aparece com maior destaque, especialmente em cenas que abordam sua relação com o marido e os momentos de tensão vividos pela família durante a disputa eleitoral.

Um dos trechos do roteiro reproduz uma conversa em que a personagem de Michelle demonstra preocupação com a segurança do então candidato.

“As coisas que dizem sobre você… Isso me assusta. Estão tentando provocar alguém para te machucar”, afirma a personagem da ex-primeira-dama, em tom premonitório. “Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.”

A produção também recria um debate presidencial, mas evita utilizar os nomes reais dos adversários de Bolsonaro na eleição de 2018.

O responsável pelo atentado é apresentado de modo ficcional como um militante de esquerda, embora o personagem não receba o nome de Adélio Bispo, autor do ataque ocorrido durante a campanha.

Com o lançamento transferido para 2027, o filme deverá chegar ao público brasileiro somente depois da conclusão da disputa presidencial deste ano. Enquanto isso, as investigações sobre o financiamento e a regularidade da produção continuam em andamento, sem uma conclusão definitiva sobre as suspeitas levantadas.

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