Opinião

A força da polarização e a centralidade de Lula e Flávio Bolsonaro

Levantamento da Nexus indica que a disputa presidencial de 2026 segue concentrada em torno de Lula e Flávio Bolsonaro, que mantêm bases eleitorais consolidadas e polarizam as identidades políticas no país.

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*  Paulo Baía

Antes da campanha ganhar as ruas, as pesquisas eleitorais oferecem mais do que uma estimativa de votos. Elas registram estados da sociedade, identificam identidades políticas e revelam a forma como os brasileiros organizam suas expectativas sobre o futuro. Cada percentual é um indicador da dinâmica social e das forças que disputam a direção do país.

A pesquisa Nexus, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08521/2026, revela que a polarização permanece como a principal característica da política brasileira. No voto espontâneo, Lula aparece com 38%, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 27%. No primeiro turno estimulado, Lula registra 42% e Flávio Bolsonaro oscila entre 34% e 35%. No segundo turno, Lula vence por 47% a 44%.

Os números mostram que, até o momento, nenhum outro nome consegue romper a centralidade dessa disputa. Ronaldo Caiado aparece com até 5%, Renan Santos chega a 4% e Romeu Zema registra cerca de 3%. Todos permanecem distantes da capacidade eleitoral demonstrada por Lula e Flávio Bolsonaro. A sucessão presidencial continua organizada em torno dessas duas lideranças, que concentram a maior parte das preferências do eleitorado e estruturam o debate político nacional.

Do ponto de vista sociológico, Lula mantém uma coalizão social construída ao longo de décadas. Seu desempenho é mais forte entre mulheres, idosos, beneficiários do Bolsa Família, eleitores de menor renda e moradores do Nordeste. Flávio Bolsonaro, por sua vez, confirma a permanência do bolsonarismo como um fenômeno político consolidado, com maior presença entre homens, evangélicos, eleitores do Sul e do Centro Oeste e segmentos de renda média.

Outro aspecto relevante é a consistência desses eleitorados. Entre os que declaram voto em Lula, 83% afirmam que sua decisão está tomada. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, esse índice alcança 76%. O voto deixa de representar apenas uma escolha eleitoral e passa a expressar uma identidade política relativamente estável.

A pesquisa também identifica cerca de 20% de brasileiros que não se alinham integralmente a nenhum dos dois polos. Esse grupo representa a principal área de disputa da campanha e poderá influenciar o resultado final, embora ainda não tenha produzido uma alternativa capaz de competir com as duas principais candidaturas.

A vantagem de Lula é real, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Entretanto, ela não configura uma situação confortável. A diferença de três pontos na simulação final demonstra uma liderança consistente, mas também evidencia que a eleição permanece competitiva.

A principal conclusão é clara. Até este momento, nenhum nome supera Lula e Flávio Bolsonaro na capacidade de mobilizar votos, organizar identidades políticas e representar projetos nacionais. A eleição de 2026 continua sendo, acima de tudo, uma disputa entre duas lideranças que simbolizam diferentes interpretações da sociedade brasileira e diferentes caminhos para o futuro do país.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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