A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado será oficialmente instalada nesta terça-feira (4) no Senado Federal, num ambiente político marcado pela forte repercussão da megaoperação do governo do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho (CV) nos Complexos da Penha e do Alemão. A ação, que terminou com 121 mortos, ampliou o debate sobre segurança pública e colocou o tema no centro da disputa entre governo e oposição.
O colegiado havia sido criado em junho, mas só agora iniciará os trabalhos. Com a pressão da opinião pública e o aumento da visibilidade das facções criminosas, governo e oposição escalaram nomes de peso para o grupo, que pretende investigar o “modus operandi” de organizações como o PCC e o CV, além da atuação de milícias em diferentes regiões do país.
Disputa por comando e alerta no governo
Ainda não há consenso sobre quem presidirá a CPI — definição que deve ocorrer durante a sessão de instalação. O relator será o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), autor do requerimento que criou o colegiado.
Nos bastidores, há intensa articulação política. O governo tenta influenciar o resultado e evitar que o comando fique nas mãos da oposição, após ter sido surpreendido recentemente com a perda de controle da CPMI do INSS, que acabou presidida por um senador independente.
O Palácio do Planalto gostaria que a presidência ficasse com Fabiano Contarato (PT-ES) ou Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. Ambos são vistos como nomes capazes de garantir um tom técnico à comissão e evitar que ela se transforme em palanque político.
O peso do tema na pauta nacional
A operação no Rio, somada às discussões sobre o uso da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e à crescente retórica da oposição em defesa da “lei e ordem”, fortaleceu o tema da segurança pública como uma das principais bandeiras políticas de 2025.
A oposição enxerga na CPI uma oportunidade para se aproximar de eleitores de centro e fortalecer o discurso de enfrentamento ao crime. Já o governo tenta evitar que a pauta seja capturada politicamente e busca dar respostas institucionais, como o envio do projeto de lei antifacção e a articulação direta com governadores para a construção de políticas coordenadas.
Composição equilibrada e nomes de destaque
A CPI terá 11 membros titulares e 11 suplentes, reunindo figuras de destaque na disputa entre governo e oposição.
Entre os oposicionistas estão Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Sergio Moro (União-PR), Marcos do Val (Podemos-ES) e Magno Malta (PL-ES).
Do lado do governo e aliados, participam Jaques Wagner (PT-BA), Otto Alencar (PSD-BA) e Rogério Carvalho (PT-SE). Como suplentes, estão Fabiano Contarato (PT-ES) e Randolfe Rodrigues (AP), líder do governo no Congresso Nacional.
Essa composição indica um embate direto entre alas políticas, com nomes experientes e de forte projeção pública nos dois lados.
Foco e escopo da investigação
A CPI funcionará por 120 dias, com possibilidade de prorrogação, e deverá investigar a estrutura, expansão e financiamento de facções criminosas e milícias. O colegiado também pretende apurar o domínio territorial e prisional desses grupos, suas conexões regionais e internacionais, possíveis infiltrações no poder público e propor mudanças legislativas para o enfrentamento ao crime organizado.
O relator Alessandro Vieira afirmou que, caso seja confirmado no cargo, pretende conduzir os trabalhos com foco técnico, evitando o uso político da comissão. “O foco será técnico. Vamos ouvir especialistas, secretários de segurança, governadores e comunidades atingidas para produzir soluções”, declarou o senador.
Já o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, alertou para o uso eleitoral da CPI pela oposição. “A oposição quer um palanque seja onde for”, afirmou, reforçando que o Planalto acompanhará de perto o andamento das investigações.






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