Sociólogo especialista em violência diz que operação no Rio faz parte de projeto totalitário da extrema direita

Sociólogo Gabriel Feltran afirma que chacina de 28 de outubro marca um novo estágio da extrema direita no país e alerta para o risco de consolidação de práticas totalitárias de governo

A operação policial realizada no Rio de Janeiro em 28 de outubro, que terminou com o maior número de mortos já registrado em uma ação do tipo, representa, segundo o sociólogo Gabriel Feltran, um ponto de inflexão na história da violência estatal no Brasil. Para ele, o que diferencia o episódio não é apenas a dimensão da letalidade, mas o fato de ter sido politicamente planejado.

Feltran, 49 anos, é pesquisador brasileiro radicado na França, diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) e professor do SciencesPo, uma das mais respeitadas instituições de ciências sociais da Europa. Com mais de duas décadas de estudos sobre a relação entre Estado e crime organizado, ele afirma que a operação simboliza um novo estágio do projeto político de extrema direita que, em sua visão, vem se consolidando no país.

“O episódio pode parecer repetitivo, porque são repetitivos os massacres nas favelas, mas essa repetição esconde o que há nele de inédito e mais relevante”, diz o sociólogo. “Em primeiro lugar, é inédita a escala dessa chacina policial, a maior da história do Brasil, superando até mesmo o Carandiru. Mas sobretudo é inédito o planejamento político.”

A construção de um projeto totalitário

Feltran argumenta que a operação, celebrada por governadores e setores da imprensa, foi acompanhada de uma narrativa que legitima o extermínio sob o pretexto de combate ao narcoterrorismo. “Essa retaguarda política, jurídica e institucional, essa cumplicidade dos órgãos de controle como o Ministério Público, que deveriam ser os primeiros a flagrar as ilegalidades, é inédita em escala nacional”, afirma.

Ele considera que o país atravessa uma transição perigosa, em que o movimento de extrema direita, antes ideológico, se converte em prática concreta de governo. “Saímos do segundo para o terceiro tomo das ‘Origens do Totalitarismo’, de Hannah Arendt”, compara. “A extrema direita já governa os principais estados do país, controla o Congresso e é hegemônica na área da segurança e da justiça. Falta apenas controlar o STF — e não parece que vai demorar para que isso se realize.”

Para Feltran, a lógica que sustenta essas ações se alimenta de um ciclo de violência mutuamente lucrativo entre o Estado e o crime. “Esse ciclo é extremamente produtivo para alimentar a militarização dos dois lados da guerra. Ele amplia os ‘mercados de proteção’, cujo lucro converge, vejamos bem, para os mesmos dirigentes policiais corrompidos que dizem combater o crime organizado.”

Violência como instrumento político e econômico

Na avaliação do pesquisador, as chacinas funcionam como demonstrações de força que reorganizam os fluxos de poder e dinheiro entre polícias, facções e políticos. “Esses massacres são eventos críticos, pensados para reordenar a rotina dos acordos financeiros rotineiros entre polícia e crime nas favelas. Depois dessa demonstração de força e legitimidade, pode-se cobrar mais para vender proteção, ilegal ou legal.”

Ele aponta que há hoje investigações que revelam esquemas de lavagem de dinheiro operados por policiais corrompidos, com o mesmo nível de sofisticação das facções criminosas. “Essa guerra é, em última instância, por essas riquezas. Esse dinheiro pode se converter não apenas em lucro privado, mas em projeto de poder coletivo.”

O pesquisador identifica nesse fenômeno o núcleo do projeto político da extrema direita brasileira. “Controlar as armas é fundamental para uma transição de regime político, não para produzir um golpe, mas para produzir uma rotina de dominação total”, afirma.

Da propaganda à institucionalização da exceção

Feltran vê na chamada “narrativa da faxina” — amplificada por políticos, youtubers e ex-policiais transformados em comentaristas — uma propaganda totalitária. “Há também acadêmicos que defendem tacitamente a ‘flexibilização’ do regime democrático para combater o crime. Trata-se de um regime discursivo que tem no centro marqueteiros e intelectuais orgânicos desse movimento totalitário.”

Segundo ele, o cálculo político vai além das redes sociais. “Engana-se quem se limita a ver cálculo eleitoral na tragédia. Isso existe, mas compõe um projeto de poder que há duas décadas vem se institucionalizando em igrejas, partidos, redes e órgãos estatais. O objetivo é romper com o Estado democrático e normalizar a exceção, agora protegida não apenas por indivíduos, mas pelas próprias instituições.”

O papel do Rio e a dimensão nacional do fenômeno

Para o sociólogo, o Rio de Janeiro é o epicentro de um fenômeno político de alcance nacional. “É evidentemente um projeto político nacional, que encontra no Rio sua quintessência. A segurança pública tornou-se a arena central de poder no Brasil contemporâneo”, observa.

Ele cita a ascensão de figuras oriundas das forças de segurança — de Jair Bolsonaro a secretários estaduais como Guilherme Derrite — como exemplo de uma “mudança política muito relevante”, na qual grupos armados e ideologizados ganham autonomia e poder. “Os setores que chamo de jagunços, antes operadores da violência bruta para as elites, se autonomizam e impõem sua forma de governar pelo terror”, diz.

Quatro eixos para uma nova política de segurança

Feltran propõe uma reestruturação profunda do modelo de segurança pública, baseada em quatro eixos principais:

  1. Esclarecimento de homicídios – Recuperar a autoridade do Estado para investigar e responsabilizar, restabelecendo a soberania da lei.
  2. Redução do poder armado ilegal – Reafirmar a centralidade da lei, desarticulando tanto grupos criminosos quanto milícias e corporações policiais autônomas.
  3. Regulação de mercados ilegais – Controlar as economias de drogas e armas, que sustentam facções, milícias e redes de corrupção.
  4. Controle social das polícias – Garantir transparência, responsabilização e alinhamento com os princípios democráticos.

Para o sociólogo, a atual política de segurança “não resolve nada para a defesa do Estado de Direito”, apenas reforça a barbárie e a militarização. “Igualar-se aos torturadores do Comando Vermelho, com espadas e decapitações, não parece ser uma boa saída para a construção de um Estado civilizado.”

Ameaças e o risco à pesquisa científica

Feltran também denuncia o ambiente hostil enfrentado por pesquisadores da segurança pública no Brasil. “No Brasil, fazer pesquisa na segurança é se expor à violência política. Mas não vinda do crime. São os policiais ideologizados os que nos coagem”, relata.

Segundo ele, a segurança é tratada como guerra moral, sem espaço para debate técnico. “Eles se sentem salvando a sociedade dos maus, e só aceitam dois lados: o bajulador que os louva ou o inimigo que devem abater”, afirma.

Quem é Gabriel Feltran

Pesquisador brasileiro vinculado ao Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), na França, Gabriel Feltran é sociólogo especializado em crime organizado e professor do SciencesPo, uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior em ciências humanas e sociais da Europa. É autor de “Irmãos: Uma História do PCC” (Companhia das Letras, 2018), obra em que analisa a formação e a expansão da principal facção criminosa do país.

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