Rubio responde carta de Flávio Bolsonaro e mantém apoio ao tarifaço contra o Brasil

Secretário de Estado dos EUA agradece proposta de cooperação feita pelo pré-candidato da extrema direita, elogia apoio à classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, mas reafirma posição de Washington sobre disputa comercial com o Brasil

A tentativa do pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) de convencer o governo dos Estados Unidos a desistir da imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros não surtiu o efeito esperado. Em carta enviada na última terça-feira (23), o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reafirmou o posicionamento da administração do presidente Donald Trump em favor da adoção de medidas comerciais contra o Brasil, apesar do apelo feito pelo senador no início deste mês.

O documento, obtido com exclusividade pela colunista do Globo Malu Gaspar, é uma resposta à correspondência enviada por Flávio Bolsonaro ao governo dos EUA, no qual o parlamentar argumentava que um novo tarifaço provocaria “sérios danos” à população brasileira. Na mensagem, o pré-candidato também afirmava acreditar em sua vitória nas eleições presidenciais de outubro e sugeria que uma eventual mudança de governo poderia redefinir a relação entre Brasília e Washington.

A divulgação da carta ocorre em meio à crescente tensão comercial entre os dois países e poucos dias depois de o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluir uma investigação sobre supostas práticas comerciais brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses estadunidenses.

Apoio político, mas sem mudança na política comercial

Embora tenha adotado um tom cordial em diversos trechos da resposta, Marco Rubio não deu qualquer sinal de recuo em relação às tarifas defendidas pelo governo Trump.

O secretário agradeceu o apoio manifestado por Flávio Bolsonaro à decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Também elogiou como “generosa” a proposta apresentada pelo senador de criar uma equipe de transição entre os dois governos caso ele seja eleito presidente.

Apesar dos gestos diplomáticos, Rubio evitou responder diretamente às preocupações levantadas pelo brasileiro sobre os impactos econômicos das sanções e manteve inalterada a posição da Casa Branca.

Rubio aponta divergências comerciais

Na carta, o secretário explicou que a investigação comercial não está sob responsabilidade do Departamento de Estado, mas sim do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), comandado por Jamieson Greer.

Mesmo assim, fez questão de reafirmar os argumentos utilizados pela administração estadunidense para justificar a abertura do processo.

“O Embaixador Greer deixou claro que nós permanecemos com diferenças substanciais em relação à solução das irregularidades apontadas nesta investigação. São questões relacionadas ao comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais injustas, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e o desmatamento ilegal”, escreveu o secretário de Estado.

Entre os temas citados pelos EUA está o Pix, além de outros aspectos ligados ao comércio digital, propriedade intelectual e acesso ao mercado brasileiro.

Convite indireto para participar do processo

Embora não tenha convidado formalmente Flávio Bolsonaro para novas conversas, Rubio lembrou que o processo conduzido pelo USTR prevê mecanismos públicos de participação.

Na carta, destacou que cidadãos, empresas e instituições brasileiras podem apresentar manifestações durante a consulta pública aberta pelo órgão estadunidense.

“Qualquer parte interessada no Brasil pode participar do período de consulta pública e da audiência aberta que o Escritório do Representante de Comércio dos EUA organizará em 6 de julho. A consulta ficará aberta até 1º de julho. Solicitações para participar da reunião deverão ser feitas até 22 de junho”, afirmou Rubio.

Na última terça-feira, Flávio Bolsonaro informou que se inscreveu para participar da audiência pública organizada pelo USTR e que viajará aos Estados Unidos para defender pessoalmente a revisão das medidas propostas.

Nas redes sociais, o senador apresentou a iniciativa como uma tentativa de sensibilizar a administração Trump e evitar novas sanções econômicas contra o Brasil, apostando ainda na possibilidade de mudança de governo após as eleições presidenciais.

Eleições entram no radar, mas EUA mantêm cautela

Ao responder ao parlamentar brasileiro, Rubio reconheceu o “otimismo” de Flávio Bolsonaro em relação ao cenário eleitoral brasileiro e agradeceu a proposta de construção de uma ponte institucional entre Brasília e Washington durante uma eventual transição de governo.

Mesmo assim, o secretário procurou demonstrar cautela ao afirmar que os Estados Unidos pretendem manter diálogo com qualquer governo legitimamente escolhido pelos brasileiros.

Segundo Rubio, Washington está disposto a “trabalhar cooperativamente com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro” para buscar soluções para as divergências comerciais existentes entre os dois países.

A manifestação indica que, apesar da afinidade política entre integrantes do governo Trump e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, a administração estadunidense admite a necessidade de manter relações diplomáticas com o futuro presidente eleito no Brasil, independentemente do resultado das urnas.

Encontro em Washington antecedeu investigação

Marco Rubio e Flávio Bolsonaro estiveram reunidos durante a visita do senador brasileiro a Washington, no fim de maio.

Após o encontro, Flávio publicou uma fotografia ao lado do secretário de Estado e destacou a aproximação entre os dois governos.

“Seguimos fortalecendo relações internacionais, defendendo a liberdade, a democracia e os valores que unem milhões de brasileiros e americanos”, escreveu Flávio Bolsonaro.

Dias depois, contudo, o governo Trump concluiu as investigações comerciais que ampliaram a tensão diplomática entre os dois países.

A divulgação coincidiu com uma publicação do presidente Donald Trump nas redes sociais ao lado de Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca. A imagem passou a ser utilizada por adversários políticos como argumento de que haveria interferência dos EUA no processo eleitoral brasileiro, especialmente porque foi divulgada simultaneamente ao anúncio das novas propostas de tarifas.

A campanha do senador buscou reduzir os efeitos políticos da medida ao divulgar a carta enviada anteriormente ao governo dos EUA, na qual Flávio alertava para os impactos negativos que um tarifaço poderia provocar na economia brasileira.

Investigações propõem novas tarifas

As tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos foram ampliadas após a conclusão de duas investigações conduzidas pelo USTR.

A primeira, aberta em julho de 2025 e mencionada diretamente por Marco Rubio em sua carta, trata de supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses dos EUA, incluindo questões relacionadas ao Pix, ao combate à corrupção, à pirataria e à proteção da propriedade intelectual. Ao final do processo, foi proposta uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

Na ocasião, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a medida como “injustificáveis” e acusou integrantes da família Bolsonaro de promoverem uma “sabotagem” aos interesses nacionais.

Em seguida, uma segunda investigação sugeriu a aplicação de tarifas adicionais de 12,5% sobre produtos brasileiros e também de outros países. Segundo os Estados Unidos, Brasil, União Europeia e Hong Kong não teriam adotado medidas suficientes para impedir a exportação de produtos associados ao trabalho forçado.

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