Pressão da Anfavea leva ao fim da isenção para veículos chineses montados no Brasil

Benefício criado a pedido da BYD expirou sem prorrogação e tarifas voltaram a incidir sobre veículos elétricos e híbridos montados com peças importadas

Terminou em 31 de janeiro o regime especial que concedia isenção de Imposto de Importação para a entrada no Brasil de kits desmontados de veículos elétricos e híbridos, informa a colunista Paula Gama, do portal UOL. O mecanismo havia sido criado pelo governo federal em agosto de 2025, após um pedido da montadora chinesa BYD, e vigorou por seis meses. A regra previa alíquota zero dentro de um limite global de US$ 463 milhões em produtos importados.

Com o encerramento do prazo, as tarifas voltaram a ser cobradas a partir de 1º de fevereiro. De acordo com a tabela vigente da Câmara de Comércio Exterior, a alíquota passou a ser de 16% para kits CKD, quando o veículo chega completamente desmontado, e de 18% para kits SKD, no caso de modelos semidesmontados. A previsão oficial é de que esse imposto suba gradualmente até alcançar 35% em janeiro de 2027 para os veículos desmontados.

Objetivo do incentivo e reação do mercado

O benefício temporário foi concebido como um estímulo à entrada de novas montadoras no país, em especial grupos chineses como BYD e GWM, durante a fase inicial de implantação de fábricas no Brasil. Na prática, a medida reduziu de forma significativa o custo de modelos montados localmente a partir de peças importadas da China, o que gerou forte reação de empresas já instaladas no país e de entidades representativas do setor.

A possibilidade de utilizar kits desmontados com isenção levou montadoras chinesas a reforçarem seus estoques no segundo semestre de 2025. Dados da associação que representa os fabricantes de automóveis de passageiros da China, a China Passenger Car Association, indicam que o Brasil importou 322,1 mil veículos do país asiático no ano passado. Desse total, apenas 187 mil foram efetivamente emplacados, segundo números da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Expectativa frustrada de prorrogação

Apesar da expectativa no mercado de que o regime pudesse ser prorrogado, nenhum pedido formal foi apresentado à Camex, responsável pela definição da política tarifária. Em 28 de janeiro, o tema sequer entrou na pauta da reunião do colegiado. Uma nova reunião está marcada para 12 de fevereiro, mas, até o momento, a pauta oficial não foi divulgada.

Nos bastidores, interlocutores do governo reconhecem que houve pressões políticas favoráveis à BYD, sobretudo por parte de representantes ligados à futura fábrica da empresa em Camaçari, na Bahia. Ainda assim, o prazo expirou sem renovação do benefício e sem a formalização de qualquer pleito junto às autoridades.

Pressão da Anfavea e temor por empregos

A discussão ganhou novo fôlego após a divulgação, pela Anfavea, de um estudo que projeta impactos negativos caso o incentivo ao uso de kits desmontados fosse mantido. Segundo a entidade, a substituição da produção plena pela montagem em grande escala de CKD e SKD poderia eliminar até 69 mil empregos diretos e gerar perdas de até R$ 103 bilhões em toda a cadeia automotiva.

“O problema é manter incentivos para a simples montagem em alto volume, sem exigência de aporte de valor nacional”, afirmou o presidente da Anfavea, Igor Calvet, em comunicado.

A associação sustenta que a continuidade desse modelo tende a desestimular investimentos em processos produtivos mais complexos, pesquisa e desenvolvimento, além de afetar a engenharia local, a rede de fornecedores e a arrecadação tributária. Por essa razão, vinha pressionando o governo federal a não prorrogar o benefício fiscal aplicado aos veículos montados nas modalidades CKD e SKD.

Posicionamento das montadoras chinesas

Procurada, a BYD não respondeu ao pedido de entrevista. Em manifestações anteriores, porém, a empresa afirmou que seu plano industrial prevê “avançar direto para a produção completa” a partir de 2026, acompanhando o progresso das obras da unidade de Camaçari. A montadora iniciou suas operações no Brasil justamente com a montagem de veículos a partir de kits CKD.

A GWM, por sua vez, declarou que sua operação no país já se encontra em estágio mais avançado, com montagem “peça por peça”, pintura local e participação de fornecedores brasileiros desde o início. A empresa também integra o programa federal Mover, que oferece incentivos a companhias que realizam produção nacional e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

Até o momento, nenhuma das duas montadoras apresentou pedido formal de prorrogação do regime de isenção encerrado no fim de janeiro.

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