PF revela elo entre contrato milionário de wi-fi em SP e suspeita de lavagem de dinheiro em ‘Dark Horse’

Relatório aponta movimentação de R$ 6,1 milhões entre entidade contratada pela Prefeitura, empresas terceirizadas e organização ligada a Karina da Gama; envolvidos negam uso de recursos municipais na produção

Adicione o Agenda do Poder como fonte preferencial no Google

Um contrato de R$ 157 milhões para o programa de wi-fi da Prefeitura de São Paulo entrou no centro da investigação da Polícia Federal que alcançou, nesta quinta-feira (10), envolvidos na produção de Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do portal g1, a PF rastreou pelo menos R$ 6,1 milhões que teriam circulado entre a entidade responsável pelo contrato municipal, empresas terceirizadas e outra organização ligada à empresária Karina da Gama.

A investigação não afirma, nos elementos apresentados, que os R$ 6,1 milhões foram diretamente destinados ao filme. O que a PF apura é o caminho percorrido pelo dinheiro e uma eventual relação entre os recursos, as entidades de Karina e a produção cinematográfica. A Prefeitura de São Paulo e uma das empresas investigadas negam que dinheiro do contrato de wi-fi tenha financiado Dark Horse.

O relatório da PF embasou a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação.

Contrato de R$ 157 milhões está na origem do fluxo investigado

O Instituto Conhecer Brasil (ICB), ligado a Karina da Gama, mantém com a Prefeitura de São Paulo um contrato de R$ 157 milhões relacionado ao serviço de wi-fi da cidade.

Segundo a investigação, parte dos recursos recebidos pelo instituto foi repassada a empresas terceirizadas que atuaram nesse contrato. A PF identificou posteriormente transferências dessas companhias para a Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade vinculada a Karina.

ICB e ANC, segundo a investigação, funcionam no mesmo endereço no bairro dos Jardins, em São Paulo.

É justamente esse percurso que despertou a suspeita dos investigadores: dinheiro recebido pelo ICB teria chegado às empresas contratadas pela entidade e, depois, retornado para outra organização ligada à mesma empresária.

Entre as companhias citadas estão Complexsys Soluções Integradas Ltda. e Fastfuture Tecnologias Emergentes Ltda., pertencentes a André Feldman e Débora Gomes Feldman. Também aparecem a Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda., de William Silva Ferreira, e a Distribuidora de Produtos LMS Ltda.

PF rastreia R$ 6,1 milhões até entidade de Karina

De acordo com os dados reunidos pela Polícia Federal, a Complexsys transferiu R$ 2.626.949,69 e R$ 1.308.986,33 para a ANC. A Ultra IP repassou outros R$ 1.336.201,50.

A Fastfuture aparece com R$ 603.136,12 em transferências, enquanto a Distribuidora LMS teria enviado R$ 300 mil. No total, as movimentações alcançaram R$ 6.175.273,64.

Ao autorizar as medidas da investigação, Flávio Dino destacou a suspeita levantada a partir desse fluxo financeiro.

“A ANC aparece repetidamente como destinatária de recursos provenientes de diferentes empresas financiadas pelo ICB. (…) As movimentações narradas apresentam fortes indícios de retorno dos recursos públicos pagos ao ICB para a esfera de disponibilidade dos próprios responsáveis pela OSC [organização social da cultura], com potencial caracterização de desvio e contornos de lavagem de dinheiro”, disse o ministro Flávio Dino no documento.

André Feldman, Débora Gomes Feldman e William Silva Ferreira também foram alvos de busca e apreensão e estão proibidos de deixar o Brasil.

Onde o filme Dark Horse entra na investigação

A operação alcança a produtora de Dark Horse, obra cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. A investigação procura esclarecer se o fluxo financeiro identificado pela PF possui ligação com o financiamento da produção.

Esse ponto é contestado pelos envolvidos. A Complexys afirma que o dinheiro recebido foi aplicado exclusivamente na execução do contrato de wi-fi de São Paulo.

“A operação da Polícia Federal vai comprovar, novamente, que os recursos recebidos pela empresa foram usados somente no contrato para manutenção da rede do Wi-Fi na cidade de São Paulo, sem qualquer vínculo com o financiamento para produção do filme, objeto de investigação”.

A empresa acrescentou:

“A perícia independente, já anexada nos inquéritos policiais, também comprova que não existe nenhuma relação entre o contrato da empresa com a produtora Go UP”, disse.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo também nega que recursos municipais tenham sido utilizados na produção cinematográfica:

“A Prefeitura de São Paulo repudia qualquer tentativa de criar relações entre projetos e programas do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A administração municipal reitera que a obra não recebeu recursos municipais. A assinatura e execução do termo de colaboração firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) não têm qualquer irregularidade identificada. O Programa Wifi Livre segue em pleno funcionamento na cidade com 3.200 pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados, conforme pode ser verificado no link.

Atualmente, o custo de manutenção de cada ponto de Wi-Fi é de R$ 1.280,80, valor menor do que os praticados na gestão Haddad, quando cada ponto chegou a custar R$ 8.899,13. Vale destacar que o Tribunal de Contas do Município (TCM-SP) julgou irregular a execução do contrato de 2014 por falhas de autenticação, monitoramento e qualidade do serviço. Em relação à parceria com o ICB, a Controladoria Geral do Município (CGM) acompanha as investigações desde as primeiras denúncias e instaurou procedimento em maio de 2026, que segue andamento”.

Defesa de Karina diz que empresária colaborou com a PF

A defesa de Karina da Gama informou que apresentou reclamação constitucional ao STF e ressaltou que a medida não discute o mérito da investigação.

“Tendo em vista a operação da Polícia Federal na data de hoje, no exercício da advocacia em favor da Sra. Karina Ferreira da Gama, ajuizamos nesta data, reclamação constitucional em jurisdição criminal perante a Presidência do STF.

A medida não discute o mérito da investigação, sendo certo que, a cliente estava contribuindo espontânea e voluntariamente, tanto que, atendeu, na última sexta-feira, à solicitação da Polícia Federal e entregou mais de 20 mil laudas de documentos, o que prova sua boa-fé e lealdade processual.

Entretanto, nossa defesa técnica insiste em assegurar a autoridade das decisões da Presidência do STF e a competência do juiz natural.

Acreditamos em nossas Instituições e confia-se na Suprema Corte para a plena garantia do devido processo legal.”

A apuração deverá agora avançar sobre o destino dos valores e sobre a existência ou não de vínculo entre o dinheiro que passou pelas empresas terceirizadas do contrato de wi-fi e o financiamento da produção cinematográfica.

Relacionadas

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo