Mais de 700 celulares foram apreendidos dentro dos presídios do Rio de Janeiro em apenas 40 dias, depois que a Secretaria de Estado de Polícia Penal (Seppen) intensificou as revistas nas unidades. O resultado das operações expõe um problema que atravessa há décadas o sistema penitenciário fluminense: impedir a comunicação clandestina de presos com o mundo exterior.
Os aparelhos foram encontrados escondidos em celas e outros espaços das unidades. Em uma das buscas, agentes precisaram utilizar uma ferramenta para localizar um celular. Em outra apreensão, o telefone estava escondido dentro de uma caixa de tomada.
Apesar do elevado número de aparelhos encontrados, somente duas das 48 unidades prisionais do estado possuem atualmente sistemas de bloqueio de sinal de celular.
Só duas unidades têm bloqueadores
Os equipamentos funcionam nas penitenciárias Gabriel Ferreira e Castilho, a Bangu 3, e Jonas Lopes de Carvalho, conhecida como Bangu 4.
As duas unidades concentram cerca de 2,8 mil presos. O sistema penitenciário fluminense, por sua vez, possui aproximadamente 48 mil detentos.
Bangu 3 recebe presos ligados ao Comando Vermelho, enquanto Bangu 4 abriga detentos ligados ao Terceiro Comando Puro.
O serviço de bloqueio é prestado pela IMC Tecnologia em Segurança. O contrato foi firmado em setembro de 2025 pela então Secretaria Estadual de Administração Penitenciária e tem validade até novembro de 2028. O custo mensal informado é de R$ 845,4 mil.
Mesmo em uma unidade equipada com bloqueadores, houve tentativa de obter acesso à internet. No mês passado, uma encomenda enviada pelos Correios a um preso de Bangu 4 chamou a atenção dos agentes.
O objeto aparentava ser um rádio, mas uma inspeção por raio-X identificou uma antena de internet via satélite escondida no equipamento. O material foi apreendido e o detento levado para isolamento.
Governo estuda expansão
A Secretaria de Polícia Penal afirma que pretende levar o serviço de bloqueio de sinal a todas as unidades do sistema penitenciário. Ainda não existe, entretanto, uma data definida para que novos equipamentos comecem a funcionar.
Segundo a pasta, há previsão orçamentária de quase R$ 12 milhões mensais para a expansão. O governo estadual tem até 2027 para efetivar a contratação.
A própria Seppen considera elevado o custo da tecnologia e avalia uma alternativa: permitir que as operadoras de telefonia realizem o bloqueio dos aparelhos em um raio determinado ao redor das unidades prisionais.
A discussão não é recente. Em outubro de 2002, bloqueadores chegaram a ser instalados no Complexo de Bangu. Na ocasião, porém, o sistema também interrompeu o sinal dos celulares de moradores do entorno.
Combate à comunicação das facções
A Seppen afirma que as revistas foram intensificadas com o objetivo de desarticular as facções criminosas por meio da interrupção da comunicação entre integrantes presos e criminosos em liberdade.
A secretaria também defende mudanças nas regras relacionadas ao bloqueio de sinais para tornar a medida mais efetiva e reduzir os gastos públicos.
“A instituição reconhece que é inquestionável que um aparelho de telefone em presídio é objeto de crime. Inclusive, as revistas foram intensificadas visando à desarticulação das facções, por meio da interrupção da comunicação entre criminosos presos e em liberdade”, informou a pasta.
Empresa teve contrato cancelado no RS
A IMC Tecnologia em Segurança, responsável pelos sistemas de Bangu 3 e Bangu 4, também havia sido contratada pelo governo do Rio Grande do Sul para prestar serviço semelhante.
O contrato foi cancelado em março. Segundo publicação no Diário Oficial daquele estado, a decisão foi motivada por “perda de confiança na execução contratual” e pelo histórico infracional da empresa.
A IMC afirmou que os equipamentos instalados nos presídios fluminenses estão funcionando. Sobre o Rio Grande do Sul, declarou que houve divergências técnicas relacionadas às frequências utilizadas pelo sistema.
A empresa informou ainda que a rescisão está sendo discutida na Comissão Mista de Conciliação Administrativa do governo gaúcho e que aguarda a conclusão do procedimento.







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