HUDSON CARVALHO
Há tempos, Marcelo Freixo entendeu que a sua persona pública extremada limitava as suas legítimas e imensas ambições. As derrotas nas disputas à Prefeitura do Rio em 2012 e, sobretudo, em 2016, quando conseguiu a façanha de perder para Crivella, demarcaram as suas possibilidades. Fazia-se necessário mudar e se inserir em espectro político mais amplo, caso pretendesse ir além da sua reconhecida carreira parlamentar. O asseado, moralista e estreito PSOL – tão conveniente a charivaris oposicionistas – não atendia mais às expectativas expansionistas de Freixo. Depois de 16 anos e de quatro mandatos de deputado estadual e federal, Marcelo Freixo, pragmaticamente, para concorrer ao Palácio Guanabara, trocou o restrito grêmio psolista pelo PSB, sigla de talhe nacional. Para o establishment político, a despeito de suas virtudes cívicas, o PSOL é uma seita alternativa, uma espécie de Santo Daime com vocação parlamentar, e não um partido integrante do jogo institucional do poder.
Não bastava cambiar de legenda, todavia. Era preciso também consumar uma lipoaspiração na imagem de radical de esquerda, que cultivara com esmero e lhe fora muito apropriada até então, mas que se tornara um entrave para o pleito em curso, cujo universo de eleitores é predominantemente conservador e avesso ao seu perfil holográfico ultraprogressita. Marcelo Freixo ousara enfrentar eleições majoritárias na cidade do Rio, onde há substanciais camadas arejadas do eleitorado. Mesmo assim, fracassara. Agora, aventura-se por ambiente bastante árido e hostil, fiando-se na aparente pouca expressividade dos oponentes, em desejada transfusão de votos de Lula, na benevolência da elite midiática, em colossal autoestima e sabe-se Deus mais em quê.
Para as suas lídimas pretensões, Freixo acerta, ao se submeter ao processo metamórfico. Continuar brincando no parquinho ideológico não o levaria adiante. Já deu. Resta saber se a alomorfia será percebida como sincera e se resultará em ganhos em tão curto prazo. Em um ano, Freixo trocou a armadura vermelha de guerreiro identitário por metafóricos e esvoaçantes trajes devocionais. Mudanças dessa dimensão, mesmo verdadeiras, custam a ser assimiladas. Freixo almeja a uma “gabeirização”, que lhe amplie a aceitação. Só que Fernando Gabeira já voltou do exílio reciclado – e de tanga -, deixando a silhueta carbonária em passado remoto. Não foi uma transformação da noite para o dia. E, no Brasil, Gabeira teve tempo para estabilizar a nova personalidade, antes de encarar as urnas. Mesmo sendo genuína – e creio que na essência é -, não significa que a transmutação de Freixo seja absorvida pela maioria e lhe renda frutos imediatos. Os inúmeros desconfiados haverão de se lhe exigir um estágio probatório.
Acredito na muda da plumagem de Freixo, a ponto de considerá-lo como opção de voto – não a única. Apartidário e alérgico a radicalismos, já votei em psolistas a cargos legislativos (Milton Temer, Eliomar Coelho e Chico Alencar, inclusive na última eleição para o Senado), contudo, por diversas razões, não o fiz para funções executivas. Acontece que, na premência e na ânsia de se revelar outra figura pública, parece que Marcelo Freixo excede, alimentando dúvidas sobre a sua conversão. Para os seus propósitos, há pertinência na troca de partido, na composição com Cesar Maia e na aproximação com setores aburguesados, via os armínios fragas da vida. Tudo isso ajuda na consolidação do novo personagem. No entanto, semeiam-se exageros que somente contribuem para a desfiguração do candidato. Escalar um patrono do Novo como coordenador do programa de governo é um deles. O Novo é um partido asséptico de direita, um típico acampamento de escoteiros arrumadinhos e virtuosos; um antípoda do PSOL.
Marcelo Freixo começou a campanha chamando atenção pelas incongruências. Ajoelhar-se, penitente e contrito, na Igreja da Penha, transmitiu artificialismo, porém ainda vá lá, pois isso é um rito comum de candidatos. Em ocasiões anteriores, se mostrara um peixe fora d’água em redutos evangélicos. Dizer, entretanto, em entrevista à TV Record, que é contra a legalização das drogas, Freixo chocou simpatizantes e adversários. Tão escandaloso quanto renegar um dos seus principais estandartes públicos, foi o uso do advérbio “mais” na sentença: “Não. Não sou mais a favor (da legalização)”. Passou apenas visceral oportunismo, deixando no ar do que é capaz para alcançar os seus objetivos. Neste momento eleitoral, por mais piruetas que faça, Freixo não deixará de ser estigmatizado como radical e demonizado pelos reacionários. No mínimo, um radical de peruca, tentando se fazer passar por moderado. Freixo tornou-se oficialmente candidato, após acidentado transcurso de negociações com os partidos aliados e o imbróglio com Molon, que lhe causou algum desgaste em parte do eleitorado de esquerda. No mais, é notório que os petistas não morrem de amor por ele. A situação de Freixo configura-se delicada perante parcelas esquerdistas, que podem abandoná-lo por insatisfação com a sua poluição ideológica. Freixo pode ir ao segundo turno? Pode, como outros podem. Em chegando lá, pode vencer o pleito? Pode, sobretudo se Lula ganhar o cotejo presidencial no primeiro turno. Freixo tem lugar assegurado no segundo turno? Não; ninguém tem. Apesar da falta de carisma pessoal, da ausência de identidade do seu governo e de eventuais irresponsabilidades administrativas, Cláudio Castro é o favorito a conquistar vaga no segundo turno, pois amalgamou gigantesca rede de apoios políticos, corre, praticamente, sozinho na raia de centro-direita e vincula-se a Bolsonaro. Ressaltando que o maior contingente do eleitorado fluminense é conservador. Para que Freixo tenha chances, é preciso, principalmente, que o neo Freixo não seja um antiFreixo. Se o neo Freixo obnubilar o velho Freixo, o candidato arrisca-se a não atrair a quem pretende e a perder os que já tem. Além dos inimigos, Freixo terá que cuidar das suas contradições.
*Hudson Carvalho é jornalista e consultor político







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