Morre Jards Macalé, aos 82 anos

Velório será no Palácio Gustavo Capanema. Conhecido como Maldito da MPB, cantor e compositor de alma inquieta e profundamente conectada aos nossos tempos, deixa legado de clássicos na cultura brasileira e influência

Morreu, nesta segunda-feira (17), aos 82 anos, o cantor e compositor Jards Macalé. A informação foi postada no perfil oficial do artista. Jards tratava um enfisema pulmonar, estava internado há 15 dias em um hospital na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste, e teve uma parada cardíaca.

O velório será nesta terça-feira, 18 de novembro de 2025, no Palácio Gustavo Capanema, na Sala Sidney Müller, das 10h às 15h.
O sepultamento ocorrerá no Cemitério São João Batista (Rio de Janeiro) às 16h.

“Jards Macalé nos deixou hoje. Chegou a acordar de uma cirurgia cantando Meu nome é Gal, com toda a energia e bom humor que sempre teve. Cante, cante, cante. É assim que sempre lembraremos do nosso mestre, professor e farol de liberdade.

Agradecemos, desde já, o carinho, o amor e a admiração de todos.

“Nessa soma de todas as coisas, o que sobra é a arte.
Eu não quero mais ser moderno, quero ser eterno.’”

Pedindo licença aos leitores: em 2019, entrevistei Macalé para um jornal carioca. Na ocasião, lembro que uma assessora o chamara não pelo nome, mas por professor, como a postagem em seu perfil. Nos sentamos fora da lona de um Circo Voador vazio, que um dia depois ficaria cheio para ouvi-lo cantar seu novo disco, profundamente conectado aos anseios da época.

Jards contou seus planos e se mostrou incomodado com a política divisa e vaticinou: ‘vamos sair desse buraco’. Saímos e entramos em outros, como faz parte da vida. Ali, Jards Macalé me ensinou muito com pouco.

Referência da música

Carioca da Tijuca, Zona Norte do Rio, Macalé teve contato com a música logo cedo. Nas imediações do Morro da Formiga, vinham os batuques do samba. A mãe, Lígia cantava foxes, valsas e modinhas, enquanto o pai a acompanhava no acordeom.

No rádio, as referências eram os grandes nomes da época, como Orlando Silva, Marlene e Emilinha Borba, que ajudaram a moldar o ouvido do futuro músico. O violão rasgado, cru e sua batida dita “estranha”, tiveram influência de João Gilberto e a Bossa Nova.

Jards destacou-se por transitar entre o samba, a tropicália, a vanguarda e o experimental, sempre preservando uma postura crítica e independente.

Iniciou a carreira profissional nos anos 1960, colaborando com artistas como Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Tornou-se conhecido por canções marcantes, entre elas Vapor barato (em parceria com Waly Salomão), Movimento dos barcos, Anjo exterminado e Farinha do Desprezo. Atuou também como arranjador, produtor e diretor musical de espetáculos e trilhas sonoras para cinema e teatro, firmando-se como um criador multifacetado.

Macalé participou da Tropicália, mas sempre manteve distância crítica de movimentos organizados, cultivando uma estética própria — urbana, ácida, libertária. Ao longo das décadas, lançou discos cultuados e realizou parcerias com poetas e músicos de diversas gerações. Seu trabalho, frequentemente rotulado como marginal ou de vanguarda, tornou-se referência para artistas contemporâneos. Ganhou a pecha de Maldito da MPB, mas seu trabalho tornou-se referência mundial.

Alma inquieta

Parceiro de poetas como Waly Salomão, Torquato Neto e José Carlos Capinan, Macalé desenvolveu uma obra marcada pela estranheza, pela experimentação e pela defesa intransigente da liberdade criativa. Essa postura o aproximou de artistas igualmente insubmissos, como Luiz Melodia, em um período de forte pressão das gravadoras nos anos 1970 e 1980.

Em 1972, lançou seu disco autointitulado e participou de Transa, de Caetano Veloso, gravando e tocando com o artista em Londres, dois dois álbuns mais celebrados da música brasileira.

Ao longo de toda a trajetória, manteve fidelidade absoluta à própria visão estética, explorando gêneros como bossa nova, rock, blues, samba e choro, sempre com sua voz inconfundível e um violão de formação erudita que se tornou marca registrada. Além de intérprete de seu repertório, deu voz a compositores como Ismael Silva e Lupicínio Rodrigues.

Mesmo após décadas de estrada, seguiu criativo e relevante: em 2019, lançou Besta fera, um dos trabalhos mais celebrados de sua discografia recente. Em 2021 lançou Síntese do lance, em parceria com João Donato. O último disco autoral foi Coração bifurcado, de 2023. Ano passado, lançou junto com o Sergio Krakowski Trio Mascarada, em homenagem a Zé Keti.

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