“Ele foi meu primeiro amigo carioca na música.” Com essa lembrança carregada de afeto, Caetano Veloso deu o tom da forte comoção que tomou as redes sociais após a confirmação da morte de Jards Macalé, aos 82 anos. A repercussão foi imediata e extensa, com artistas, escritores e admiradores dedicando mensagens de carinho e reconhecimento ao compositor e multiartista.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também prestou homenagem a Jards Macalé e afirmou que foi uma honra tê-lo como uma dos artistas que cantaram em sua posse, há dois anos. Presidente disse que ele e Macalé estiveram juntos na luta pela redemocratização.

Macalé, que tratava uma broncopneumonia e sofreu uma parada cardíaca, havia tido sua morte comunicada pouco antes, mas foi a enxurrada de homenagens que dominou o debate público. Em longos e breves relatos, contemporâneos e artistas de novas gerações destacaram a genialidade, a ousadia e a postura sempre independente do músico.
Sem Macalé não haveria “Transa”, diz Caetano
Entre os depoimentos mais marcantes está o de Caetano Veloso, que reviveu a memória do primeiro encontro entre os dois, ainda no início da carreira. Caetano contou que, ao chegar ao Rio para trabalhar na trilha de um curta-metragem, acabou hospedado na casa de Macalé. “Ele tocou violão. Me encantei”, escreveu, reforçando a importância desse laço na construção de sua trajetória. Segundo Caetano, sem Macalé não teria feito “Transa”, um de seus discos mais emblemáticos.
Maria Bethânia também se manifestou nas redes, dizendo que Macalé “fará muita falta neste mundo”. Já o perfil oficial de Gal Costa — morta em 2022 — recordou a parceria intensa que uniu os dois artistas. Segundo a publicação, além de compor canções fundamentais do repertório de Gal, Macalé também dirigiu shows da cantora, contribuindo decisivamente para sua estética sonora.
Gilberto Gil também homenageou Jards Macalé, publicando um vídeo em que assiste a uma entrevista antiga. Nessa entrevist, um Gil ainda jovem fala sobre um show que havia sido apresentado por ele e Jards em Braintree, na Inglaterra.
“Não teve ensaio, não teve nada. A gente botou a guitarra na mão do Macalé, e ele saiu tocando”, diz o Gil jovem. “Uma pessoa lá da plateia gritou: ‘Mas isso não é rock, eu quero uma coisa mais rock, uma real guitar’. Não sei o quê. Nessa hora, o Macalé olhou para mim, a gente deu uma piscada de olho e saiu fazendo uma improvisação bem alucinada, com aquelas caretas, aquelas maluquices dele e minhas. Aí pronto, a gente alucinou aquela plateia.”
Ator lembra que Macalé acordou de cirurgia cantando
A repercussão também reuniu lembranças pessoais. O ator Matheus Nachtergaele contou que o músico chegou a acordar de uma cirurgia cantando “Meu nome é Gal”, episódio que simbolizava, segundo ele, o humor, a energia e a espontaneidade de Macalé. O escritor Fernando Morais lamentou a perda de um ídolo, enquanto Serginho Groisman recordou as primeiras vezes em que viu o artista se apresentar, chamando-o de “um dos meus heróis da MPB”.
Artistas jovens também se juntaram ao movimento de homenagens. O ator Caio Manhente afirmou lamentar a morte de “mais um mestre” e destacou a relevância de “Sem essa”, música que, segundo ele, marcou sua vida. “Macalé foi um dos maiores da história da nossa música, muito pouco reconhecido”, afirmou.
A repercussão reforçou o lugar do artista na história cultural do país. Nascido na Tijuca e criado em um ambiente familiar profundamente musical, Jards Macalé construiu uma carreira multifacetada que passou pela música, cinema, teatro e artes plásticas. Parceiro de nomes como Waly Salomão, Vinicius de Moraes e José Carlos Capinam, colaborador de Helio Oiticica e Lygia Clark e produtor do álbum “Transa”, de Caetano Veloso, Macalé firmou-se como um dos criadores mais inquietos e inventivos de sua geração.






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