Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu nesta quarta-feira em um hospital de Madri, duas semanas depois de ser retirada do apartamento onde viveu durante sete décadas. O caso transformou a aposentada em símbolo da crise habitacional na Espanha e provocou manifestações em diferentes cidades do país.
A morte foi comunicada pelo Sindicato de Inquilinos e Inquilinas de Madri, que acompanhava a disputa judicial e participou da mobilização contra o despejo. Após a notícia, centenas de manifestantes se reuniram nas proximidades do Congresso espanhol, onde fizeram um minuto de silêncio em homenagem à aposentada.
O despejo de Maricarmen, em 23 de setembro, ocorreu em meio a uma disputa que começou em 2018, quando o imóvel mudou de proprietário. A situação ganhou repercussão nacional e aumentou a pressão sobre o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez para adotar medidas relacionadas ao acesso à moradia.
Disputa pelo apartamento começou em 2018
Maricarmen chegou ao apartamento no bairro do Retiro, em Madri, em 1956, ainda criança. Na época, seu pai assinou o contrato de aluguel. Após a morte dos pais, ela assumiu a locação e permaneceu no imóvel por aproximadamente 70 anos.
O conflito começou quando o prédio mudou de proprietário. A incorporadora passou a pressionar a aposentada para comprar o apartamento por € 247 mil, valor que ela não tinha condições de pagar. Depois que Maricarmen recusou a compra, o aluguel sofreu um aumento de 275%.
O valor mensal, que era de cerca de € 500, chegou a € 1.650. A quantia superava a pensão recebida pela aposentada, de aproximadamente € 1.350. Mesmo diante do aumento, segundo as informações divulgadas durante a disputa, ela continuou pagando o aluguel.
Despejo foi adiado três vezes
O imóvel posteriormente passou para a empresa Urbagestión, e a discussão sobre a validade do contrato chegou à Justiça. Com o apoio do Sindicato de Inquilinos, Maricarmen obteve decisões favoráveis em diferentes momentos, mas a empresa recorreu até conseguir uma decisão favorável no Tribunal Supremo.
A primeira tentativa de despejo ocorreu em outubro de 2025 e foi impedida pela mobilização de vizinhos e integrantes do Sindicato dos Inquilinos. Outras duas ações previstas para junho de 2026 também foram adiadas.
Durante o processo, o Comitê da ONU solicitou a suspensão do despejo até que fosse garantida uma alternativa habitacional adequada para a aposentada. Na quarta tentativa, em 23 de setembro, autoridades foram ao imóvel para cumprir a ordem judicial.
Imagens do despejo provocaram protestos
Vizinhos e ativistas se reuniram diante do prédio para tentar impedir a retirada. Por volta das 13h05, Maricarmen foi colocada em uma maca e levada de ambulância para um hospital devido ao seu estado de saúde. As imagens da operação tiveram forte repercussão na Espanha.
Dias depois, ainda internada, a aposentada enviou uma mensagem aos manifestantes. Ela pediu que continuassem mobilizados e defendessem o direito à moradia.
Após a confirmação da morte, manifestantes se concentraram perto do Congresso, em Madri. Parte dos participantes vinha da Porta do Sol, onde grupos ligados à defesa da habitação mantinham um acampamento havia dez dias.
Caso pressionou governo espanhol
A mobilização provocada pelo despejo ocorreu em meio ao aumento dos custos de moradia e à dificuldade de acesso a imóveis. Depois dos protestos em Madri, Barcelona e outras cidades, o governo de Pedro Sánchez aprovou medidas emergenciais.
Entre as propostas estavam a suspensão até 2030 dos despejos de inquilinos considerados vulneráveis e mudanças nas regras de renovação dos contratos de aluguel. O Congresso, porém, rejeitou os dois decretos apresentados pelo governo.
A derrota parlamentar contribuiu para a decisão de antecipar as eleições gerais, marcadas para 29 de novembro. Sánchez também anunciou que pretende apresentar novamente ao Congresso medidas relacionadas à habitação, incluindo empréstimos de até € 50 mil sem juros para a compra da casa própria.
Crise habitacional atinge outros países europeus
O caso de Maricarmen passou a ser associado a um problema que ultrapassa as fronteiras da Espanha. A crise habitacional também afeta outros países europeus, com aumento dos preços e dificuldades para jovens, idosos e famílias de baixa renda.
Além do déficit de moradias, especialistas citados na reportagem apontam a transformação de imóveis em ativos financeiros e turísticos como um dos fatores que reduzem a oferta para moradores e pressionam os preços.
Cidades como Paris, Praga e Berlim adotaram estratégias diferentes para enfrentar o problema, enquanto a União Europeia começou a discutir respostas comuns para a crise habitacional.







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