Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura tinham em um hotel de Brasília uma espécie de QG para negociação de liberações de recursos do MEC. Ali, ambos recebiam prefeitos e assessores municipais.
O local era também frequentado por servidores da pasta, de acordo com relatos colhidos com frequentadores e funcionários.
A reportagem é da Folha.
A assiduidade dos pastores em Brasília era tão grande que vários funcionários do hotel Grand Bittar conheciam os dois, sabiam suas preferências (Arilton sempre tomava café da manhã com cuscuz e ovo frito) e estavam acostumados a presenciar um ritmo intenso de encontros e negociações.
Dois funcionários relataram à reportagem que o pastor Arilton, no restaurante do hotel, chegou a exibir uma barra de ouro. Ele se gabava das negociações e puxou a barra do bolso esquerdo. Isso teria ocorrido em meados do ano passado, de acordo com os relatos.
Apesar de não ter cargo no governo, os dois pastores intermediavam liberações de recursos do MEC para muncípios e tinham influência na agenda do ministro da Educação. –
As conversas com prefeitos ocorriam em uma mesa no lobby do hotel ou no restaurante, no mezanino. Em 15 de abril, os pastores participaram de evento no MEC, em posição de destaque ao lado do ministro e, no mesmo dia, negociaram obras de educação com gestores no Grand Bittar.
O prefeito de Anajatuba (MA), Helder Aragão (MDB), esteve no MEC em 15 de abril e se encontrou com o pastor Arilton no hotel. O município, de 27 mil habitantes, por exemplo, teve seis obras empenhadas —a prefeitura nem sequer comprou os terrenos. Aragão nega ter negociado com os pastores.
Em 5 de janeiro deste ano, o prefeito de Rosário (MA), Calvet Filho (PSC), gravou um vídeo com o ministro direto do apartamento dele em Brasília. Calvet falava em “tratar de liberação de recursos”.
O encontro na residência do ministro foi intermediado pelos pastores. Eles também o receberam na noite do mesmo dia 5 de janeiro no hotel, logo após a visita ao ministro.
Além de se envolver pessoalmente com os pastores, o ministro destacou um assessor especial do MEC para estreitar os laços com ambos. Trata-se de Odimar Barreto dos Santos, pessoa da confiana de Ribeiro e pastor da mesma igreja comandada pelo ministro em Santos (SP).
Prefeitos e assessores relataram que Barreto Santos distribuía, inclusive na recepção do hotel, cartões com logotipo do MEC, mas com contatos pessoais de telefone e email.
Os funcionários do hotel lembram-se de Barreto Santos por causa da quantidade de vezes que ele ia ao local.
Barreto Santos chegou ao governo pelas mãos de Ribeiro em setembro de 2020. Ele teve sua exoneração publicada na sexta-feira (18), o que causou estranheza dentro da pasta por causa da confiança entre os dois.
O desligamento ocorreu em edição extra do Diário Oficial da União: no mesmo dia em que as primeiras informações sobre a atuação de pastores vieram à tona na imprensa.
Outro personagem recorrente no hotel é Luciano Freitas Musse, um advogado próximo dos pastores e que foi nomeado gerente de projetos do MEC em abril do ano passado. Antes, ele integrava a comitiva dos religiosos e esteve em ao menos três encontros oficiais com o ministro Milton Ribeiro.
Funcionários, assessores municipais e prefeitos relatam que a influência dos pastores no MEC era conversada com naturalidade no lobby do hotel. Gilmar e Arilton contam ainda com uma espécie de secretária em Brasília.
Nely Carneiro da Veiga Jardim já esteve no gabinete do ministro com o pastor Arilton em ao menos uma ocasião. Relatos indicam vque ela abordava assessores e prefeitos no lobby para apresentá-los aos pastores e às facilidades que eles prometiam. Ela também falaria em nome do MEC para gestores.






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