Garotinho: do rádio ao Palácio Guanabara, uma trajetória marcada por programas sociais, disputas políticas, prisões e recomeços

De radialista a governador e candidato à Presidência, político de Campos construiu uma trajetória marcada por programas sociais, alianças e rompimentos, disputas judiciais, prisões e uma impressionante capacidade de sobreviver às turbulências da política fluminense

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Radialista, ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, ex-governador do Rio de Janeiro, ex-deputado federal e candidato à Presidência da República, Anthony Garotinho construiu uma das trajetórias mais longas, populares e controvertidas da política fluminense. Ao longo de mais de quatro décadas de vida pública, passou por diferentes partidos, rompeu com antigos aliados, enfrentou adversários poderosos, projetou a mulher e os filhos na política e foi alvo de investigações, condenações, prisões e decisões judiciais posteriormente revistas.

Anthony William Matheus de Oliveira nasceu em 18 de abril de 1960, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. A origem do nome pelo qual se tornaria conhecido nacionalmente está ligada ao rádio. Ainda adolescente, começou a narrar partidas preliminares de futebol na Rádio Cultura de Campos, inspirado no locutor José Carlos Araújo, conhecido como “Garotinho”. Ao ser chamado no ar de “o garotinho Anthony Matheus”, incorporou o apelido que mais tarde transformaria em sua principal marca eleitoral.

Garotinho trabalhou em emissoras como Rádio Nacional e Rádio Tupi e, mesmo depois de ingressar na política, continuou utilizando o rádio como instrumento de comunicação direta com o eleitorado. Seus programas combinavam notícias, denúncias políticas, comentários religiosos e prestação de serviços. Em Campos, também ganhou notoriedade com uma comunicação de caráter assistencial e popular, que ajudou a criar a base de sua primeira candidatura.

Sua entrada na política ocorreu inicialmente pelo PCB. Depois, passou pelo PT e, em 1983, filiou-se ao PDT, legenda comandada nacionalmente por Leonel Brizola. Dentro do partido, atuou na Juventude Socialista e se aproximou do trabalhismo brizolista, que defendia forte presença do Estado, investimentos sociais e prioridade para educação e população de baixa renda.

O apoio de Brizola foi determinante para a ascensão de Garotinho. Antes de conquistar cargos eletivos de maior projeção, ele ocupou a Secretaria estadual de Agricultura. Em 1988, foi eleito pela primeira vez prefeito de Campos dos Goytacazes. Governou o município de 1989 a 1992 e voltou a vencer a eleição municipal em 1996, desta vez com 70,61% dos votos válidos. Deixou o segundo mandato em 1998 para concorrer ao Governo do Estado.

A projeção de Campos como centro da indústria petrolífera e o aumento das receitas de royalties ajudaram a fortalecer o grupo político liderado por Garotinho. Ao mesmo tempo, o ex-prefeito desenvolveu uma forma própria de comunicação, baseada em forte identificação pessoal com os eleitores, principalmente nas camadas populares e no eleitorado evangélico.

Primeira tentativa ao governo e vitória em 1998

Garotinho disputou o Governo do Estado pela primeira vez em 1994. Chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Marcello Alencar. Recebeu 43,92% dos votos válidos na etapa final da eleição. O resultado, apesar da derrota, consolidou seu nome como liderança estadual.

Quatro anos depois, voltou a concorrer. Garotinho liderou uma ampla coligação que reunia PDT, PT, PSB, PCdoB e PCB. A candidata a vice-governadora foi Benedita da Silva, do PT. No segundo turno, derrotou Cesar Maia com 4.259.344 votos, equivalentes a 57,98% dos votos válidos, e assumiu o Palácio Guanabara em janeiro de 1999.

Seu governo ficou conhecido sobretudo pelos programas sociais voltados à população de baixa renda. Entre as iniciativas mais associadas à sua administração estavam o Restaurante Popular, que oferecia refeições subsidiadas, o Cheque Cidadão, destinado à complementação da renda de famílias pobres, e outros serviços cobrados a preços simbólicos.

Essas políticas deram origem à expressão “programas de um real”. Além das refeições populares, o governo implantou hospedagem subsidiada para trabalhadores que não conseguiam voltar diariamente para casa e ofereceu café da manhã barato em estações ferroviárias. Para os apoiadores, as iniciativas ampliavam o acesso da população pobre a serviços essenciais. Para os críticos, reforçavam um modelo assistencialista e personalista de governo.

Na segurança pública, o principal projeto foi o Delegacia Legal, que buscou modernizar delegacias, informatizar registros e retirar presos das unidades policiais. O programa chegou a receber reconhecimento internacional e foi citado por representantes das Nações Unidas como experiência de modernização do atendimento policial.

Também durante seu governo foi inaugurada a estação Siqueira Campos da Linha 1 do Metrô, em Copacabana. Garotinho incentivou ainda a regulamentação do transporte alternativo por vans e kombis, medida que enfrentou forte oposição das empresas de ônibus e questionamentos sobre sua compatibilidade com a legislação de trânsito da época. Sua administração também promoveu uma redução nas tarifas intermunicipais, decisão elogiada por passageiros, mas criticada por empresas do setor.

Rompimento com Leonel Brizola

A relação entre Garotinho e Leonel Brizola começou a se deteriorar depois da vitória de 1998. Dirigentes do PDT acusavam o governador de formar a equipe e tomar decisões estratégicas sem consultar o partido. Também havia resistência às alianças estabelecidas por ele com políticos de centro e de direita e com lideranças evangélicas e neopentecostais.

Brizola e seus aliados consideravam que Garotinho se afastava do trabalhismo que havia impulsionado sua carreira. O governador, por sua vez, buscava autonomia para construir uma organização política própria e ampliar sua influência nacional. As divergências se aprofundaram em 1999 e 2000, especialmente durante as eleições municipais.

Garotinho deixou o PDT no fim de 2000 e se filiou ao PSB. O rompimento encerrou a relação com o político que havia sido seu principal padrinho e abriu caminho para um projeto presidencial independente.

Candidatura à Presidência e eleição de Rosinha

Em abril de 2002, Garotinho renunciou ao Governo do Estado para concorrer à Presidência da República pelo PSB. Benedita da Silva assumiu o Palácio Guanabara e permaneceu no cargo até o fim daquele ano.

Na eleição presidencial, Garotinho obteve 15.180.097 votos, correspondentes a 17,87% dos votos válidos, e terminou em terceiro lugar, atrás de Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra. Seu desempenho foi especialmente forte entre eleitores evangélicos, segmento que se tornou uma das bases centrais de sua projeção nacional.

Na mesma eleição, sua mulher, Rosinha Garotinho, foi eleita governadora do Rio de Janeiro no primeiro turno, derrotando Benedita da Silva. A vitória manteve o grupo político da família no comando do estado por mais quatro anos.

Em abril de 2003, Garotinho assumiu a Secretaria estadual de Segurança no governo de Rosinha. Sua passagem pelo cargo ocorreu em um período de crescimento da violência e de denúncias envolvendo setores das polícias. Mais tarde, a prisão e a condenação do ex-chefe da Polícia Civil Álvaro Lins se tornariam um dos principais episódios usados por adversários para atacar a política de segurança dos governos Garotinho.

Em agosto de 2003, Garotinho ingressou no PMDB. Em 2006, passou a exercer a Secretaria estadual de Governo e assumiu a presidência regional do partido. Naquele ano, venceu uma consulta interna para ser o candidato do PMDB à Presidência, mas a legenda acabou não lançando candidatura própria.

Durante a disputa interna, reportagens levantaram suspeitas sobre empresas que haviam feito doações para sua pré-campanha. Garotinho negou irregularidades, afirmou que estava sendo perseguido por veículos de comunicação e pelo governo federal e iniciou, em 30 de abril de 2006, uma greve de fome. O protesto durou 11 dias.

A ruptura com Sérgio Cabral

O sucessor de Rosinha no Governo do Estado foi Sérgio Cabral, eleito em 2006 pelo PMDB. Apesar de integrarem inicialmente o mesmo partido, Garotinho e Cabral se transformaram em adversários.

Garotinho com o então aliado Sérgio Cabral / Reprodução

Garotinho acusava Cabral de afastar o PMDB das bases populares, desmontar programas implementados por ele e por Rosinha e concentrar o poder partidário. Um dos símbolos desse rompimento foi a extinção do Cheque Cidadão pelo governo Cabral, em 2007.

Cabral e seus aliados, por sua vez, trabalhavam para reduzir o controle de Garotinho sobre o PMDB fluminense. O confronto envolveu o comando regional da legenda, indicações para cargos, alianças municipais e a sucessão estadual.

Em junho de 2009, Garotinho deixou o PMDB, alegando divergências com o governador, e ingressou no Partido da República, o PR, cuja direção estadual passou a comandar.

O embate se intensificou à medida que Garotinho passou a publicar acusações contra o governo Cabral em seu blog e em programas de rádio. O ex-governador se apresentou como uma das principais vozes de oposição ao grupo que controlava o Palácio Guanabara e a Assembleia Legislativa.

Em novembro de 2017, quando estava preso em Benfica, Garotinho afirmou ter sido agredido dentro da cela e posteriormente declarou que Sérgio Cabral teria ordenado o ataque. A acusação foi feita pelo próprio Garotinho, mas não houve comprovação pública de que Cabral tenha mandado agredi-lo.

Eleição recorde para deputado federal

Garotinho pretendia disputar novamente o Governo do Estado em 2010 e aparecia em segundo lugar em pesquisas de intenção de voto. Entretanto, uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral o declarou inelegível por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições municipais de Campos, em 2008.

O TRE-RJ entendeu que Rosinha, eleita prefeita naquele ano, havia sido beneficiada por publicações e programas favoráveis veiculados por uma emissora de rádio. A Justiça Eleitoral cassou inicialmente o mandato da prefeita e tornou Garotinho, Rosinha e radialistas ligados ao grupo inelegíveis.

Diante da insegurança jurídica, Garotinho desistiu da candidatura ao governo e lançou Fernando Peregrino. Concorreu então a deputado federal pelo PR e recebeu 694.862 votos, 8,69% do total. Foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro e o segundo mais votado do país naquele ano, atrás apenas de Tiririca.

Na mesma eleição, Clarissa Garotinho foi eleita deputada estadual com 118.863 votos. A eleição simultânea de pai e filha mostrou que a influência do grupo começava a se transferir para uma nova geração.

Condenação no caso Álvaro Lins

Em 2008, o então deputado estadual e ex-chefe da Polícia Civil Álvaro Lins foi preso pela Polícia Federal. As investigações apontavam a atuação de um grupo formado por policiais e agentes públicos acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e proteção a atividades ilegais.

Em agosto de 2010, Garotinho foi condenado pela Justiça Federal a dois anos e seis meses de prisão por formação de quadrilha. A pena foi substituída por prestação de serviços à comunidade. Álvaro Lins recebeu condenação de 28 anos por formação de quadrilha armada, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Garotinho sempre negou ter integrado um grupo criminoso e recorreu das decisões. O caso, contudo, agravou o desgaste de sua imagem na área de segurança pública.

Derrota em 2014 e disputa com o grupo de Cabral

Em 2014, Garotinho voltou a disputar o Governo do Estado, desta vez pelo PR. Sua campanha foi estruturada como oposição direta ao grupo político de Sérgio Cabral e ao governador Luiz Fernando Pezão.

No início da disputa, liderou pesquisas e chegou a registrar 28% das intenções de voto. Entretanto, Pezão cresceu durante a campanha. Garotinho terminou em terceiro lugar, com 1.576.511 votos. Não avançou ao segundo turno, disputado por Pezão e Marcelo Crivella.

A primeira prisão: Operação Chequinho, em novembro de 2016

A primeira prisão de grande repercussão de Anthony Garotinho ocorreu em 16 de novembro de 2016. Agentes da Polícia Federal o prenderam em seu apartamento no Flamengo, Zona Sul do Rio, por ordem do juiz Glaucenir Silva de Oliveira, da 100ª Zona Eleitoral de Campos.

A prisão preventiva foi decretada no âmbito da Operação Chequinho. O Ministério Público Eleitoral acusava integrantes do grupo político de utilizar o programa municipal Cheque Cidadão para comprar votos durante as eleições de 2016.

Na época, Garotinho exercia a função de secretário de Governo de Campos, administrada por Rosinha. Segundo a acusação, milhares de pessoas teriam sido incluídas irregularmente no programa em troca de apoio a candidatos aliados. O benefício pagava R$ 200 mensais.

O Ministério Público apontava a existência de uma lista paralela com 30.469 beneficiários, cerca de 17 mil pessoas a mais do que a relação oficial existente anteriormente. A defesa e a prefeitura sustentaram que havia ocorrido um recadastramento após uma redução temporária do programa por razões orçamentárias.

Depois da prisão, Garotinho passou mal e foi levado ao Hospital Municipal Souza Aguiar. O juiz responsável determinou sua transferência para a unidade de saúde do Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, sob o argumento de que o ex-governador estaria recebendo tratamento diferenciado no hospital.

Depois da prisão, Garotinho passou mal e foi levado ao Hospital Municipal Souza Aguiar / Reprodução

A transferência ficou marcada por imagens de Garotinho em uma maca. Ele se recusou a entrar na ambulância, levantou-se e acabou contido por profissionais de saúde e policiais.

No dia seguinte, a ministra Luciana Lóssio, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que ele fosse levado a um hospital capaz de realizar os exames recomendados pela equipe médica. Em 24 de novembro, o plenário do TSE substituiu a prisão preventiva por medidas cautelares. O tribunal considerou que a prisão, da forma como havia sido fundamentada, não se sustentava legalmente.

Garotinho pagou fiança equivalente a cem salários mínimos. Também ficou proibido de entrar em Campos durante a instrução, de manter contato com testemunhas e de se ausentar de casa por mais de três dias sem comunicar à Justiça.

Durante o episódio, a Procuradoria Regional Eleitoral informou à Polícia Federal uma suspeita de que Garotinho e Wladimir teriam tentado oferecer, de forma indireta, vantagem de até R$ 5 milhões ao juiz Glaucenir para evitar prisões. A informação integrou uma denúncia encaminhada para investigação, mas o material usado como base deste perfil não apresenta condenação definitiva de pai e filho por esse episódio.

Em maio de 2017, o TSE suspendeu restrições que impediam Garotinho de falar em seu blog ou à imprensa sobre o processo. Os ministros consideraram que as medidas representavam censura prévia, embora tenham mantido a competência da Justiça Eleitoral de Campos para conduzir o caso.

Segunda prisão: setembro de 2017

Garotinho foi preso novamente em 13 de setembro de 2017, enquanto apresentava seu programa diário na Super Rádio Tupi. A ordem, também relacionada à Operação Chequinho, determinava inicialmente que ele cumprisse prisão domiciliar.

O juiz Glaucenir Oliveira afirmou que o grupo político liderado pelo ex-governador estaria tentando obstruir a investigação por meio de ameaças a testemunhas e destruição ou supressão de provas. Na mesma decisão, Garotinho foi condenado em primeira instância a nove anos, 11 meses e dez dias de prisão por crimes relacionados à suposta compra de votos.

Ele passou a usar tornozeleira eletrônica. Em 21 de setembro, surgiu a informação de que o equipamento indicava uma possível saída da residência. A Secretaria estadual de Administração Penitenciária esclareceu, no entanto, que a tornozeleira havia apresentado problema técnico e que não ocorrera violação da prisão domiciliar.

Em 26 de setembro de 2017, por quatro votos a dois, o TSE concedeu habeas corpus, cancelou a prisão domiciliar e determinou a retirada da tornozeleira.

Anos mais tarde, em maio de 2024, o TSE confirmou condenação de Garotinho por corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documento e coação de testemunhas no processo relacionado às eleições de Campos em 2016.

O caso continuou sendo objeto de recursos e novas decisões judiciais. Por isso, qualquer referência à condenação precisa considerar o estágio processual de cada momento, especialmente os julgamentos e anulações posteriores que permitiram ao ex-governador recuperar sua condição eleitoral.

Terceira prisão: Operação Caixa D’Água, em novembro de 2017

Em 22 de novembro de 2017, pouco menos de dois meses depois da prisão anterior, Garotinho voltou a ser detido pela Polícia Federal. A ação fazia parte da Operação Caixa D’Água.

Também foram presos Rosinha Garotinho e o então presidente nacional do PR, Antonio Carlos Rodrigues. A investigação apurava suspeitas de corrupção, concussão, organização criminosa e falsidade na prestação de contas da campanha de 2014.

Segundo os investigadores, a JBS teria firmado um contrato de aproximadamente R$ 3 milhões com uma empresa de informática de Macaé. A acusação sustentava que os serviços não teriam sido efetivamente prestados e que o contrato serviria para repassar recursos de caixa dois às campanhas de Garotinho e Rosinha.

O delator Ricardo Saud afirmou que R$ 2,6 milhões teriam sido destinados ao grupo. A defesa respondeu que a doação de R$ 3 milhões feita pela JBS ao diretório do PR estava registrada na Justiça Eleitoral e havia sido realizada por cheque em 21 de julho de 2014.

Garotinho foi levado inicialmente para uma unidade do Corpo de Bombeiros no Humaitá e depois transferido para a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica.

Dois dias depois, alegou ter sido agredido dentro da cela com um porrete. Apresentava ferimentos no pé e no joelho. Posteriormente, disse ter recebido um bilhete alertando sobre um plano contra ele e acusou Sérgio Cabral de ter ordenado a agressão. A acusação não foi comprovada.

Depois do episódio, Garotinho foi transferido para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu. No presídio, anunciou um jejum por tempo indeterminado para protestar contra a prisão, repetindo o método adotado na greve de fome de 2006.

Em 20 de dezembro, o então presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, concedeu habeas corpus. Na decisão, afirmou não haver elementos concretos que demonstrassem que Garotinho pudesse atrapalhar a ação penal. Ele deixou o presídio no dia seguinte.

Candidatura barrada em 2018

Apesar das prisões, Garotinho voltou a tentar disputar o Governo do Estado em 2018. Depois de perder o controle do PR no Rio, deixou o partido e se filiou ao PRP ao lado de Wladimir.

Rosinha e Clarissa aconselharam Garotinho a não concorrer, mas ele manteve o projeto. Sua candidatura foi oficializada em agosto, com Leide Duarte como vice.

Em 6 de setembro, o TRE-RJ indeferiu o registro com base em uma condenação por improbidade administrativa relacionada a contratos da Secretaria estadual de Saúde entre 2005 e 2006. Em 27 de setembro, o TSE manteve a decisão e determinou a suspensão da campanha.

Garotinho recebeu 84.187 votos, contabilizados como nulos.

A rivalidade com Eduardo Paes

A relação política entre Garotinho e Eduardo Paes é marcada por desconfiança e confronto desde pelo menos a passagem de ambos pelo PMDB.

Na eleição municipal de 2008, Garotinho, então presidente estadual do partido, não fez campanha para Paes, candidato do próprio PMDB à Prefeitura do Rio. Liberou aliados para apoiar outros concorrentes. Clarissa, candidata a vereadora, fez campanha ao lado de Marcelo Crivella e evitou vincular sua imagem à de Paes.

Em 2012, Garotinho voltou a atacar o prefeito durante a campanha pela reeleição. Criticou a aproximação de Paes com igrejas e lideranças evangélicas, acusando-o de adotar posições diferentes conforme o público.

Os dois voltaram a aparecer como possíveis adversários na eleição estadual de 2018. Paes liderava as pesquisas, enquanto Garotinho disputava a segunda colocação antes de ter o registro barrado.

Em 2026, a rivalidade entrou em uma nova etapa. Paes e Garotinho foram lançados candidatos ao Governo do Estado por PSD e Republicanos. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 27 de julho apontou Paes com 38% e Garotinho empatado em segundo lugar com Douglas Ruas, ambos com 10%.

Clarissa e Wladimir: a continuidade da família na política

Anthony e Rosinha têm nove filhos, cinco deles adotivos. Entre os que seguiram carreira política, os mais conhecidos são Clarissa e Wladimir Garotinho.

Clarissa iniciou sua trajetória eleitoral no Rio de Janeiro. Foi eleita vereadora da capital em 2008, deputada estadual em 2010 e deputada federal em 2014. Durante parte da carreira, atuou como uma das principais representantes do grupo dos pais na capital e na Assembleia Legislativa.

Wladimir concentrou sua atuação em Campos. Foi eleito deputado federal em 2018 e prefeito do município em 2020, sendo reeleito posteriormente. Sua ascensão permitiu que a família mantivesse o controle político de seu principal reduto, mesmo durante o período de inelegibilidade e desgaste judicial dos pais.

A relação de Garotinho com os filhos, porém, não foi sempre harmoniosa. A partir de 2024 e, sobretudo, em 2025, Anthony e Rosinha fizeram críticas públicas a Wladimir. As divergências envolviam decisões administrativas, alianças partidárias e o espaço dos pais no grupo político municipal.

A relação de Garotinho com os filhos nem sempre foi harmoniosa / Reprodução

Em junho de 2025, Garotinho criticou abertamente o filho e afirmou que não queria ser “enterrado vivo” politicamente. A declaração revelou um rompimento que já vinha sendo comentado nos bastidores.

Clarissa negou ter sido o motivo da crise familiar. Em agosto de 2024, afirmou que não era “pivô” do desentendimento entre os pais e Wladimir e disse que o conflito não estava relacionado a uma disputa por espaço no governo municipal.

A ruptura, entretanto, não se mostrou definitiva. Em maio de 2026, Wladimir declarou apoio à candidatura do pai ao Governo do Estado. Durante um evento em Campos, afirmou que jamais ficaria contra a própria família, mesmo estando filiado ao PL, partido que lançou outro candidato ao Palácio Guanabara. O gesto foi interpretado como uma reaproximação familiar e política.

O embate com Rodrigo Bacellar

Nos últimos anos, Rodrigo Bacellar se tornou um dos principais alvos políticos de Garotinho. Deputado estadual de Campos e presidente da Assembleia Legislativa, Bacellar consolidou um grupo próprio no Norte Fluminense e passou a disputar com a família Garotinho influência sobre prefeituras, partidos e lideranças regionais.

O conflito deixou de ser apenas eleitoral e ganhou contornos mais graves quando Garotinho passou a fazer acusações públicas contra Bacellar e contra o governador Cláudio Castro.

Em 16 de dezembro de 2025, Garotinho prestou depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado. Na ocasião, acusou Castro e Bacellar de comandarem estruturas criminosas no Executivo e no Legislativo do Rio.

Segundo o ex-governador, os supostos esquemas envolveriam contratos públicos, incentivos fiscais e setores regulados pelo Estado. Ele também acusou Bacellar de receber propina em ouro para beneficiar uma mineradora. As afirmações foram feitas por Garotinho à CPI e não devem ser apresentadas como fatos comprovados sem decisão judicial.

Garotinho afirmou ainda que dezenas de deputados estaduais receberiam pagamentos ilegais e que informações teriam sido encontradas em aparelhos apreendidos pela Polícia Federal. O material fornecido para este perfil não apresenta confirmação judicial de todas essas alegações.

Retorno eleitoral e candidatura em 2026

Depois de permanecer afastado das principais disputas, Garotinho tentou voltar às urnas em 2024 como candidato a vereador do Rio pelo Republicanos. Recebeu 8.753 votos e não foi eleito.

A candidatura municipal funcionou como uma tentativa de reativar sua presença eleitoral na capital. Paralelamente, ele intensificou programas de rádio, vídeos e publicações nas redes sociais com denúncias e comentários sobre a política fluminense.

Em 2026, Garotinho iniciou uma nova tentativa de retornar ao Palácio Guanabara. Inicialmente, apresentou-se como pré-candidato do Republicanos e enfrentou uma disputa interna com o ex-prefeito de Miguel Pereira André Português.

A direção estadual escolheu Garotinho por unanimidade e justificou a decisão com pesquisas quantitativas e qualitativas encomendadas pelo partido.

Em 25 de julho de 2026, a convenção estadual do Republicanos, realizada na Tijuca, oficializou Anthony Garotinho como candidato ao Governo do Estado. O coronel da Polícia Militar Venâncio Moura foi confirmado como candidato a vice-governador. Portanto, embora tenha sido pré-candidato durante os primeiros meses do ano, desde 25 de julho sua candidatura está formalmente aprovada pelo partido.

Em seu discurso, Garotinho voltou a colocar a segurança pública no centro da campanha e afirmou que pretende combater o tráfico, as milícias e a corrupção política. Também direcionou críticas à Assembleia Legislativa, instituição então presidida por adversários de seu grupo.

A nova campanha coloca Garotinho novamente diante de Eduardo Paes, seu adversário político desde os tempos do PMDB. Também o coloca em confronto com o grupo ligado ao governo estadual e com lideranças que passaram a ocupar o espaço político antes dominado por sua família em Campos e no interior.

Aos 66 anos, Garotinho chega à eleição de 2026 tentando reconstruir a imagem de político popular que o levou duas vezes à Prefeitura de Campos, ao Governo do Estado e a uma votação de mais de 15 milhões de votos para presidente.

Sua trajetória reúne programas sociais que marcaram a administração fluminense, forte comunicação com a população pobre e evangélica, uma extensa rede familiar e partidária e sucessivos conflitos com aliados e adversários. Ao mesmo tempo, carrega o peso de investigações, condenações, prisões e disputas judiciais que atravessaram boa parte de sua carreira. É justamente essa combinação de popularidade, rejeição, memória administrativa, controvérsias e capacidade de sobrevivência política que faz de Anthony Garotinho uma das figuras mais duradouras e polarizadoras da história recente do Rio de Janeiro.

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