Um ano após a adoção das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o comércio exterior do Brasil apresenta uma mudança histórica. A participação norte-americana nas exportações nacionais caiu para 9,4% no primeiro semestre de 2026, o menor percentual desde o início da série histórica da balança comercial, em 1997.
O recuo ocorre após o chamado tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em julho de 2025. No mesmo período, a China ampliou ainda mais sua liderança entre os parceiros comerciais brasileiros, passando de 28,9% para 31,5% das exportações nacionais.
Levantamento da Amcham Brasil mostra que os Estados Unidos perderam 2,7 pontos percentuais de participação nas vendas externas brasileiras. Apesar da queda, o país permanece como o segundo principal destino das exportações do Brasil, enquanto a Argentina aparece na terceira colocação.
China amplia liderança no comércio brasileiro
A mudança confirma uma tendência de diversificação dos mercados internacionais e de fortalecimento da presença chinesa nas exportações brasileiras. Atualmente, praticamente um terço de tudo o que o Brasil vende ao exterior tem como destino a China.
Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram 13% no primeiro semestre deste ano, somando US$ 17,4 bilhões, as vendas para a China cresceram 21,9%. Também houve aumento das exportações para a União Europeia, com alta de 12,8%.
Mesmo com a redução das exportações e das importações em igual proporção, o Brasil continuou registrando déficit na balança comercial com os Estados Unidos. No semestre, as importações superaram as exportações em cerca de US$ 1,5 bilhão.
Produtos continuam sujeitos a tarifas adicionais
Parte significativa das exportações brasileiras ainda enfrenta barreiras comerciais no mercado norte-americano. Dados da ApexBrasil apontam que aproximadamente 25% dos produtos exportados para os Estados Unidos continuam sujeitos a tarifas entre 12,5% e 25%.
Outros 20% permanecem enquadrados nas regras da Seção 232 da legislação americana, que estabelece tarifas para setores considerados estratégicos, como aço, alumínio, automóveis, autopeças e derivados de cobre.
Entre os segmentos mais afetados estão os de couros, revestimentos cerâmicos, frutas e diversos produtos agropecuários que dependem fortemente do mercado americano.
Empresas buscaram novos mercados
Como resposta às restrições comerciais, empresas brasileiras aceleraram a abertura de novos destinos para suas exportações. Segundo a ApexBrasil, mais de 80 ações de promoção comercial foram realizadas no último ano, permitindo que 72% das empresas apoiadas conquistassem pelo menos um novo mercado internacional.
A estratégia também incluiu capacitação de setores produtivos para defesa comercial e apoio técnico em audiências públicas realizadas nos Estados Unidos.
Nos últimos 20 anos, a dependência brasileira do mercado americano já vinha diminuindo. Em 2005, os Estados Unidos respondiam por 19% das exportações nacionais. Em 2025, essa participação havia caído para 11%, tendência que se intensificou após a adoção das novas tarifas.
Café, frutas e indústria sentem impactos
Entre os produtos mais prejudicados está o café não torrado, que registrou queda de 35% nas vendas para os Estados Unidos durante o semestre. O setor conseguiu incluir o produto in natura na lista de isenções tarifárias, mas ainda busca retirar as tarifas aplicadas ao café solúvel.
O setor de frutas também precisou diversificar seus destinos. Exportadores ampliaram as vendas para países da Ásia, especialmente Índia e nações do Sudeste Asiático, reduzindo parcialmente a dependência do mercado americano.
O levantamento da Amcham Brasil aponta que as exportações de produtos submetidos às sobretaxas acumulam retração superior a 20% nos últimos 12 meses. A entidade alerta que novas investigações comerciais em andamento podem ampliar as restrições, mantendo um cenário de incerteza para o comércio entre Brasil e Estados Unidos.







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