Entre prisões e cassações, Alerj chega às urnas sob impacto de crise política

Eleitores escolherão 70 deputados estaduais depois de uma legislatura marcada pelas quedas de Bacellar e Castro, prisões de parlamentares e uma disputa pelo comando do Estado

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A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) chega às eleições de 2026 depois de atravessar um dos períodos mais turbulentos de sua história recente. Em poucos meses, a crise que começou no Legislativo avançou para o Palácio Guanabara e envolveu Polícia Federal, Justiça Eleitoral, Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal (STF).

No próximo domingo (04), os eleitores fluminenses escolherão os 70 deputados estaduais da próxima legislatura. A votação é proporcional: o desempenho dos partidos e federações determina a distribuição das cadeiras e, consequentemente, o peso político de cada bancada a partir de 2027.

A nova composição encontrará uma Casa profundamente modificada por prisões, cassações, renúncias e disputas judiciais. Os episódios se somaram a investigações envolvendo parlamentares e culminaram numa situação incomum: o presidente do Tribunal de Justiça assumiu interinamente o governo estadual.

Caso Lucinha antecedeu nova crise

Antes da sequência de episódios que atingiu diretamente o comando da Assembleia, a deputada Lucinha já estava no centro de uma investigação de grande repercussão. A Polícia Federal e o Ministério Público apontaram a parlamentar como suposto braço político da milícia liderada por Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, na Zona Oeste do Rio. No processo decorrente das investigações, Lucinha tornou-se réu no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).  

Lucinha chegou a ser afastada do cargo por decisão cautelar da Justiça em dezembro de 2023. Em fevereiro de 2024, porém, a Assembleia votou para mantê-la no mandato e suspendeu os efeitos do afastamento.

Posteriormente, deputados favoráveis ao arquivamento do processo entenderam que as provas apresentadas não eram suficientes e inequívocas para justificar a cassação. Em outubro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou uma condenação anterior de Lucinha por peculato, relacionada a um assessor de seu gabinete.

Prisão e cassação de Bacellar abalam a Casa

A crise ganhou outra dimensão em dezembro de 2025, quando Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente da Alerj, foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Unha e Carne. A investigação apurava o vazamento de informações sigilosas de uma operação contra integrantes do Comando Vermelho.

O caso estava relacionado ao então deputado estadual TH Joias (MDB), preso na Operação Zargun. De acordo com a investigação, Bacellar teria repassado informações sobre a operação. A prisão levou a uma situação incomum: os próprios deputados estaduais precisaram decidir se a medida seria mantida.

Em 8 de dezembro, 42 parlamentares votaram pela revogação da prisão, 21 defenderam a manutenção e dois se abstiveram. Bacellar deixou a prisão, mas permaneceu afastado da presidência da Assembleia por determinação do STF.

A situação se agravou em março de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou o diploma de Bacellar e o declarou inelegível por oito anos em uma ação que também envolvia o então governador Cláudio Castro (PL). A decisão determinou a retotalização dos votos para deputado estadual, com a retirada dos 97.822 votos obtidos por Bacellar.

Em agosto, o STF recebeu a denúncia contra Bacellar e TH Joias por obstrução de investigação. Com isso, os dois se tornaram réus.

Rangel é preso e renuncia ao mandato

A crise não terminou com a saída de Bacellar. Em maio, o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso pela Polícia Federal em uma investigação sobre suspeitas de irregularidades envolvendo contratos da Secretaria de Estado de Educação.

Rangel permaneceu preso e, em agosto, renunciou ao mandato. Em um intervalo de poucos meses, portanto, a Assembleia havia enfrentado a prisão de seu presidente, a prisão de outro parlamentar em exercício, a cassação de Bacellar e o avanço da ação contra TH Joias.

A sucessão de episódios aumentou a pressão política sobre uma Casa que, paralelamente, se aproximava das eleições estaduais e precisava reorganizar seu próprio comando.

Val Ceasa é investigado e barrado pelo TRE

Em junho, outro parlamentar entrou no centro das investigações. Val Ceasa (PRD), nome político de Roosevelt Barreto Barcelos, foi alvo de uma operação do Ministério Público do Rio e da Polícia Civil que apura suspeitas de ligação com integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP).

Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão contra o deputado e outros investigados. Durante as buscas, aproximadamente R$ 166 mil em espécie foram encontrados na residência de Val Ceasa. Outros valores foram apreendidos em endereços relacionados à investigação.

Entre os pontos apurados está uma suposta atuação de agentes políticos para tentar impedir a demolição de construções irregulares em Parada de Lucas, entre elas um imóvel atribuído a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças do TCP.

Val Ceasa negou ligação com o empreendimento e rejeitou as acusações. O caso ganhou repercussão eleitoral em setembro. Por unanimidade, o TRE-RJ indeferiu o registro da candidatura de Val Ceasa à reeleição. A decisão ocorreu após ação de impugnação apresentada pela Procuradoria Regional Eleitoral.

Segundo o tribunal, os elementos apresentados indicavam possível vínculo do parlamentar com integrantes de organização criminosa em grau suficiente para impedir o registro. A própria Corte ressaltou, entretanto, que o julgamento se restringiu aos requisitos eleitorais e não representa uma condenação criminal. A decisão ainda pode ser questionada no TSE.

Crise no governo alcança a Alerj

Enquanto a Alerj ainda enfrentava as consequências do caso Bacellar, uma nova crise se abriu no Executivo. Cláudio Castro (PL) renunciou ao governo em 23 de março, um dia antes da retomada, no TSE, do julgamento de ações relacionadas às eleições de 2022.

No dia seguinte, o tribunal declarou Castro inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos. A decisão também cassou o diploma de Bacellar.

A sucessão estadual, no entanto, estava longe de ser simples. Castro já não tinha vice-governador, porque Thiago Pampolha havia renunciado ao posto em 2025 para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Sem governador e vice, a linha sucessória chegava à presidência da Assembleia. Bacellar, porém, estava afastado do comando da Alerj e havia perdido o mandato.

Diante desse cenário, Ricardo Couto, então presidente do Tribunal de Justiça do Rio, assumiu interinamente o Palácio Guanabara. A permanência dele passou a ser discutida no STF, que manteve Couto no governo enquanto analisa as regras para a definição de quem completará o mandato.

Ruas assume Alerj e disputa governo

Em meio à crise sucessória, a Assembleia precisou escolher um novo presidente. Douglas Ruas (PL) foi eleito em 26 de março, com 45 votos, mas a sessão acabou anulada horas depois pelo Tribunal de Justiça.

A decisão considerou que a Alerj deveria aguardar a retotalização dos votos determinada pelo TSE antes de escolher seu presidente, uma vez que a medida poderia modificar a própria composição do Legislativo.

Depois da retotalização, uma nova eleição foi convocada. Em 17 de abril, Ruas voltou a vencer, desta vez com 44 votos. Houve uma abstenção e 25 deputados não participaram da votação. A oposição deixou o plenário em protesto contra o formato adotado.

Com a presidência confirmada, Ruas passou a reivindicar também o direito de assumir interinamente o governo estadual. A Assembleia sustentava que, na condição de presidente da Casa, ele ocupava a posição prevista constitucionalmente na linha sucessória.

O STF, entretanto, manteve Ricardo Couto no Palácio Guanabara. Em maio, o ministro Luiz Fux rejeitou o pedido para que Ruas assumisse o Executivo.

A disputa colocou o presidente da Alerj definitivamente no centro da corrida eleitoral. Pré-candidato e posteriormente candidato ao governo, Ruas passou a conciliar o comando do Legislativo com a campanha pelo Palácio Guanabara.

Agora, a decisão sobre a próxima configuração da Assembleia está nas mãos dos eleitores. O resultado definirá não apenas quem ocupará o plenário a partir de 2027, mas também o equilíbrio de forças responsável pela eleição da Mesa Diretora, pela formação das comissões, pela votação do orçamento estadual e pela fiscalização do próximo governador.

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