Entre a memória e o abismo: Lula, Flávio Bolsonaro e a anatomia social da eleição de 2026

Pesquisa Meio/Ideia de agosto de 2026 mostra Lula na liderança, Flávio Bolsonaro consolidado na direita e uma eleição marcada por polarização, rejeição e disputa pelo eleitorado de centro

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  1. Uma fotografia que se move

Pesquisas eleitorais são fotografias, mas fotografias de um corpo em movimento. Registram um instante, fixam uma luz, congelam uma expressão. Ainda assim, por trás da imagem parada, há músculos tensionados, medos em circulação, esperanças procurando endereço, ressentimentos que atravessam famílias, igrejas, locais de trabalho, redes digitais e mesas de bar.

A pesquisa Meio/Ideia de agosto de 2026 deve ser lida dessa maneira. Não como uma sentença e muito menos como uma profecia, mas como uma radiografia provisória do Brasil político. Um país que parece dividido ao meio, embora suas metades sejam internamente fraturadas. Um país que se reconhece, mais uma vez, em dois nomes, duas memórias, duas linguagens e dois projetos emocionais de poder: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

O levantamento foi realizado entre 31 de julho e 3 de agosto de 2026, com 1.500 eleitores maiores de 16 anos, por meio de entrevistas telefônicas. A margem de erro informada é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Isso significa que os números precisam ser interpretados com prudência. Diferenças inferiores ou próximas à margem de erro não autorizam triunfalismos. Pesquisas não coroam presidentes. Revelam tendências, limites, reservas de crescimento e zonas de perigo.

A fotografia produzida pelo instituto mostra Lula em recuperação, Flávio Bolsonaro consolidado como principal nome da direita, os demais candidatos comprimidos nas margens e um eleitorado que, embora fortemente polarizado, ainda preserva áreas de dúvida, mobilidade e recusa.

É uma eleição aberta, mas não é uma eleição sem forma. Sua arquitetura fundamental já está de pé.

  1. Lula retorna ao centro do tabuleiro

A primeira grande novidade da pesquisa é a recuperação política de Lula.

A forma como o presidente governa é aprovada por 48,5% dos entrevistados e desaprovada por 49%. A diferença é de apenas meio ponto percentual. Trata-se, rigorosamente, de empate estatístico.

A avaliação qualitativa do governo repete esse equilíbrio quase perfeito. Consideram a administração ótima ou boa 36,6%. Avaliam como ruim ou péssima 37%. Outros 24% classificam o governo como regular.

Esse grupo intermediário, o dos que veem o governo como regular, é uma espécie de planície entre duas montanhas. De um lado, os que defendem Lula com convicção. Do outro, os que o recusam com intensidade. No centro, quase um quarto do eleitorado observa, calcula, espera, compara preços, mede a própria renda, sente a qualidade dos serviços e acompanha o ruído da política.

É nessa planície que boa parte da eleição será decidida.

A recuperação de Lula não é apenas eleitoral. Ela ocorre em diferentes dimensões. Cresce a aprovação presidencial, melhora a avaliação do governo e aumenta o percentual dos que consideram que ele merece continuar no cargo. Segundo o levantamento, 48% afirmam que Lula merece um novo mandato, enquanto 50,4% respondem que não.

Novamente, a diferença está dentro da margem de erro. Politicamente, porém, o dado possui enorme significado. Lula deixa de ser um presidente claramente minoritário na opinião pública e volta a disputar a maioria social.

Ele ainda não a possui. Mas voltou a enxergá-la no horizonte.

  1. O paradoxo do presidente competitivo

Lula lidera a intenção de voto estimulada com 43%. Flávio Bolsonaro aparece com 35%. A vantagem é de oito pontos percentuais, superior à margem de erro informada.

Na pesquisa espontânea, quando os nomes não são apresentados, Lula alcança 34,4%, enquanto Flávio obtém 23%. A distância maior na pergunta espontânea demonstra que Lula possui uma lembrança eleitoral mais consolidada. Seu nome emerge sem ajuda, como memória política já inscrita no imaginário nacional.

Isso ocorre porque Lula não é apenas um candidato. É uma época, uma biografia coletiva, uma gramática social. Para milhões de brasileiros, seu nome está ligado à ascensão pelo consumo, à ampliação das universidades, ao emprego, ao salário mínimo, às políticas sociais e ao reconhecimento simbólico das classes populares. Para outros milhões, representa o Partido dos Trabalhadores, os escândalos de corrupção, a polarização e uma experiência política que desejam encerrar.

Lula é, simultaneamente, esperança e aversão.

Sua rejeição chega a 47,4%. É quase do tamanho de sua capacidade eleitoral máxima nos cenários apresentados. Aí reside o paradoxo central de sua candidatura. Lula lidera, vence todos os adversários testados em segundo turno, recupera aprovação, mas permanece cercado por um muro alto de rejeição.

Ele possui um chão sólido, mas também um teto visível.

  1. A principal novidade e o principal alerta para Lula

A principal novidade para Lula é a recomposição simultânea de três elementos: legitimidade governamental, disposição de continuidade e competitividade eleitoral.

Sua candidatura já não parece sustentada apenas pela lembrança dos governos anteriores ou pelo medo do retorno bolsonarista. Ela volta a encontrar apoio na avaliação do presente. O governo recupera oxigênio e oferece ao candidato uma plataforma mais estável.

A principal advertência, entretanto, é clara. Lula ainda não rompeu a barreira simbólica e eleitoral dos 50%.

Sua aprovação oscila perto de 49%. A percepção de que merece outro mandato chega a 48%. No segundo turno contra Flávio Bolsonaro, registra 48,5%. Esses números formam uma linha quase contínua, uma espécie de fronteira invisível.

Para vencer com segurança, Lula precisa atravessar essa fronteira.

Não basta mobilizar o eleitorado que já o ama. É necessário conquistar quem o tolera, quem o avalia como regular, quem reconhece realizações, mas teme a idade, o desgaste, a economia ou a repetição dos conflitos. A eleição não será decidida apenas pelos fiéis. Será decidida pelos hesitantes.

  1. A geografia social do lulismo

O apoio a Lula não se distribui de maneira uniforme. Ele possui endereço, gênero, renda, religião e memória regional.

Entre as mulheres, sua aprovação é majoritária. Entre os homens, a desaprovação prevalece com larga vantagem. Essa clivagem de gênero tornou-se uma das marcas da política brasileira contemporânea.

Lula é mais forte entre as mulheres porque seu campo político está associado, para parte significativa desse eleitorado, à proteção social, à defesa dos serviços públicos, ao combate à pobreza, à saúde, à educação e a uma linguagem menos agressiva do que aquela vinculada ao bolsonarismo.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, é mais forte entre os homens, sobretudo aqueles mobilizados por temas como segurança, autoridade, armas, empreendedorismo, rejeição ao Estado e conservadorismo moral.

A eleição não divide apenas partidos. Divide sensibilidades sociais.

Na religião, a fratura é ainda mais profunda. Lula possui ampla vantagem entre católicos, mas enfrenta uma oposição severa entre evangélicos. A desaprovação presidencial nesse segmento aproxima-se de três quartos dos entrevistados.

A força bolsonarista entre evangélicos não pode ser reduzida a uma suposta manipulação religiosa. Ela é produzida por redes reais de sociabilidade, pertencimento comunitário, autoridade pastoral, proteção cotidiana, linguagem moral, circulação de mensagens e percepção de ameaça cultural.

As igrejas são espaços de fé, mas também de produção de vínculos, interpretações e identidades políticas.

Lula não precisa vencer entre os evangélicos para ganhar a eleição. Precisa, porém, diminuir sua derrota. Alguns pontos percentuais recuperados nesse universo podem ter enorme impacto nacional.

Regionalmente, o Nordeste permanece como o grande coração territorial do lulismo. A aprovação presidencial supera 63% na região. No segundo turno contra Flávio Bolsonaro, Lula chega a aproximadamente 62%, contra pouco mais de 30% do adversário.

No Sul, a lógica se inverte. Flávio ultrapassa 61%, enquanto Lula permanece abaixo de 30%.

O Brasil eleitoral aparece como um mapa de afetos contrastantes. No Nordeste, Lula é memória de inclusão. No Sul, o bolsonarismo se transforma em identidade política dominante. Entre ambos, o Sudeste, o Norte e o Centro-Oeste tornam-se territórios de disputa.

O Sudeste será decisivo. É a região mais populosa e aparece praticamente dividida. Pequenas oscilações em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo podem decidir a eleição nacional.

  1. A economia: o pão sobre a mesa

A avaliação econômica do governo continua negativa, embora apresente sinais de melhora. Consideram a economia ótima ou boa 34,7%. Avaliam como ruim ou péssima 37,6%. Outros 24% a classificam como regular.

A distância entre a economia dos relatórios oficiais e a economia da mesa de jantar é um dos grandes problemas de qualquer governo.

O eleitor não vive dentro de uma planilha. Ele não compra arroz com taxa de crescimento do Produto Interno Bruto. Não paga aluguel com indicadores de confiança. Não enche a geladeira com discursos sobre estabilidade macroeconômica.

O eleitor sente a economia no preço do alimento, no limite do cartão, na parcela atrasada, na renda que acaba antes do mês e na qualidade do emprego disponível.

Para Lula, a eleição dependerá da capacidade de transformar indicadores em experiência social. Se a melhoria econômica chegar ao supermercado, ao transporte, à conta de luz e ao salário, o governo poderá ampliar sua base. Caso permaneça percebida apenas nas estatísticas, a recuperação será frágil.

A economia é o rio que pode levar Lula à outra margem ou arrastá-lo de volta para águas turbulentas.

  1. Segurança pública: o terreno mais perigoso

A segurança pública é a área mais mal avaliada. Apenas 28% a consideram ótima ou boa. Para 44,8%, a situação é ruim ou péssima.

A Constituição distribui responsabilidades entre União, estados e municípios, mas o medo não conhece federalismo. O cidadão que teme sair de casa não consulta a divisão constitucional de competências. Ele responsabiliza o poder público como um todo, e o presidente se torna inevitavelmente parte desse julgamento.

A segurança é um tema emocionalmente favorável à direita. Permite mobilizar a sensação de desordem, a insegurança cotidiana, o medo do crime e a demanda por autoridade.

Flávio Bolsonaro encontrará nesse assunto uma avenida política larga.

Lula precisará construir uma resposta que combine firmeza, inteligência, coordenação federativa, prevenção, investigação, tecnologia e enfrentamento ao crime organizado. Não poderá abandonar o tema ao vocabulário simplificador da repressão, mas também não poderá tratá-lo apenas por meio de conceitos abstratos ou justificativas administrativas.

A segurança é hoje um dos calcanhares de Aquiles do governo.

  1. Saúde e educação

Na saúde, 35,4% avaliam a gestão como ótima ou boa, enquanto 38,7% a classificam como ruim ou péssima. O saldo é negativo.

Filas, exames, consultas, medicamentos, hospitais e atenção básica formam a experiência concreta da política pública. O cidadão pode reconhecer a importância do Sistema Único de Saúde e, ao mesmo tempo, ressentir-se de sua dificuldade de acesso.

A educação, ao contrário, é a área de melhor desempenho. A avaliação positiva chega a 40,7%, contra 29,4% de avaliação negativa.

Trata-se de um ativo importante para Lula. A educação dialoga com a história dos governos petistas, com a expansão universitária, os institutos federais, as bolsas de estudo e a mobilidade social por meio do conhecimento.

Entretanto, educação costuma produzir reconhecimento mais lento do que a economia ou a segurança. É uma semente de longo prazo. A eleição, porém, acontece no tempo curto da urgência.

  1. Flávio Bolsonaro sai da sombra

A segunda grande novidade da pesquisa é a consolidação de Flávio Bolsonaro como principal candidato da direita.

Com 35% na pesquisa estimulada, ele se encontra muito acima de Ronaldo Caiado, que registra 5,7%, de Renan Santos, com 4,7%, e de Romeu Zema, com 2,6%.

A distância não deixa dúvidas. Até o momento do levantamento, não há disputa real pela liderança da direita. Flávio Bolsonaro ocupa o espaço.

Ele deixou de ser apenas o filho de Jair Bolsonaro lançado como hipótese sucessória. Tornou-se o depositário eleitoral de grande parte do bolsonarismo.

Na pergunta espontânea, chega a 23%. O dado demonstra que seu nome já foi incorporado pela base ideológica como opção presidencial. Não depende apenas de aparecer em uma lista. Existe na lembrança do eleitor.

Flávio herda do pai uma rede poderosa: eleitores fidelizados, influenciadores digitais, parlamentares, lideranças religiosas, empresários, grupos conservadores e um sentimento antipetista profundamente organizado.

Recebe a herança, mas recebe também as dívidas simbólicas.

  1. A força e a prisão do sobrenome Bolsonaro

O sobrenome Bolsonaro é, ao mesmo tempo, combustível e corrente.

Ele garante a Flávio um piso eleitoral elevado. Permite que sua candidatura comece em um patamar que outros políticos levariam anos para alcançar. Dá acesso imediato ao núcleo duro da direita, especialmente entre homens, evangélicos e moradores do Sul.

No segundo turno contra Lula, Flávio alcança cerca de 52% entre os homens. Entre evangélicos, aproxima-se de 71%. No Sul, supera 61%.

São resultados impressionantes.

Mas o mesmo sobrenome que abre portas fecha janelas.

Flávio possui 48% de rejeição, índice ligeiramente superior ao de Lula. É o candidato mais rejeitado do levantamento. Sua identidade mobiliza apoio intenso, mas também recusa intensa.

Esse é seu principal problema.

A eleição presidencial não se vence apenas consolidando uma tribo. É necessário formar maioria. Flávio precisa sair do território seguro do bolsonarismo sem parecer abandonar o bolsonarismo. Precisa moderar a linguagem sem desmobilizar os radicais. Precisa atrair mulheres, católicos, nordestinos e eleitores de centro sem romper com os homens, evangélicos e conservadores que constituem sua base.

É uma travessia sobre corda esticada.

  1. A principal novidade e o principal alerta para Flávio

A principal novidade para Flávio Bolsonaro é sua consolidação como candidato nacional e principal representante da direita.

Ele está muito acima de todos os concorrentes do mesmo campo. O segundo turno, caso a eleição mantivesse a configuração da pesquisa, seria disputado entre ele e Lula.

O principal alerta é sua rejeição.

Flávio cresce de 35% no primeiro turno para 43% no confronto direto, mas ainda perde para Lula, que alcança 48,5%. Isso mostra que ele absorve parte do eleitorado dos candidatos menores, mas não todos.

Uma parcela do eleitorado oposicionista prefere o voto branco, o voto nulo ou a indecisão a votar em Flávio Bolsonaro.

Seu desafio não é chegar ao segundo turno. Seu desafio é vencer o segundo turno.

  1. Mulheres, jovens e classes sociais

Flávio Bolsonaro possui uma dificuldade particularmente grave entre as mulheres. No segundo turno, Lula alcança aproximadamente 55% nesse segmento, enquanto Flávio fica perto de 35%.

Essa diferença pode decidir a eleição.

Ao mesmo tempo, Flávio apresenta desempenho surpreendente entre os mais jovens. Lidera entre eleitores de 16 a 24 anos e também entre os de 25 a 34 anos. Lula, por sua vez, domina entre os grupos de 35 anos ou mais.

Essa clivagem geracional exige atenção.

A juventude brasileira não é automaticamente progressista. Vive sob a pressão do trabalho precário, do empreendedorismo compulsório, da dificuldade de acesso à moradia, da ansiedade econômica e da cultura digital fragmentada. Parte dela encontra na direita uma linguagem de rebeldia, individualismo, ordem e rejeição ao sistema.

O lulismo, que já foi sinônimo de futuro, corre o risco de ser percebido por alguns jovens como memória de gerações anteriores.

Lula precisa reencontrar uma linguagem de futuro.

Na renda, o presidente domina entre os mais pobres. Entre os que recebem até um salário mínimo, alcança cerca de 56,5%, contra aproximadamente 31,9% de Flávio.

O candidato bolsonarista cresce nas faixas intermediárias e superiores. Lidera entre os que recebem de três a cinco salários mínimos e também entre os que ganham mais de cinco salários.

A faixa de um a três salários mínimos aparece praticamente dividida. É um dos grandes campos de batalha da eleição.

Essa parcela reúne trabalhadores formais e informais, pequenos empreendedores, famílias endividadas e segmentos que vivem perto da fronteira entre a estabilidade e a queda. São eleitores sensíveis ao preço dos alimentos, ao emprego, à segurança e à qualidade dos serviços públicos.

  1. Os demais candidatos e o deserto da terceira via

Ronaldo Caiado aparece em terceiro lugar, com 5,7%. É o mais competitivo entre os candidatos menores, mas permanece muito distante dos dois líderes.

No segundo turno contra Lula, alcança 40,7%, enquanto o presidente obtém 48,5%. Seu desempenho demonstra capacidade de reunir parte da oposição, mas não o suficiente para ameaçar a polarização estabelecida.

Caiado possui experiência administrativa, identidade conservadora e discurso forte na segurança pública. Falta-lhe, porém, transformar reconhecimento político em presença eleitoral nacional.

Renan Santos aparece com 4,7%. Sua candidatura dialoga com parcelas jovens, liberais, antipetistas e críticas ao bolsonarismo tradicional. Ainda assim, seu desempenho no segundo turno é frágil. Contra Lula, alcança 34,7%, enquanto o presidente chega a 48%.

Renan possui nicho, voz e capacidade de intervenção, mas ainda não possui capilaridade social.

Romeu Zema registra 2,6%. Apesar da experiência como governador de Minas Gerais, da imagem empresarial e do discurso liberal, não conseguiu nacionalizar sua candidatura. No segundo turno contra Lula, fica em 37%.

Augusto Cury alcança 1,7%. Seu resultado pode refletir reconhecimento de nome e atração por figuras externas à política tradicional. Ainda não há, contudo, evidência de estrutura eleitoral capaz de torná-lo competitivo.

Cabo Daciolo, Samara Martins, Edmilson Costa, Hertz Dias e Rui Costa Pimenta aparecem com percentuais residuais. São candidaturas de nicho, testemunho ideológico, afirmação programática ou presença partidária. Participam do debate, mas não disputam efetivamente o poder neste momento.

A terceira via existe como desejo, mas não como candidatura.

Quando a pesquisa pergunta qual seria o melhor resultado para o Brasil, 19,1% preferem um candidato moderado, sem Lula nem Bolsonaro. Outros 7,7% desejam alguém de fora da política.

Há um mercado eleitoral de alternativas. Falta produto político capaz de ocupá-lo.

O centro existe sociologicamente, mas permanece eleitoralmente órfão.

  1. Rejeição, o voto pelo medo

Flávio Bolsonaro tem rejeição de 48%. Lula, 47,4%. Os demais candidatos apresentam taxas muito menores.

Mas baixa rejeição, nesse caso, não significa grande potencial. Muitas vezes, significa apenas desconhecimento.

Lula e Flávio são rejeitados porque são conhecidos, possuem história e representam campos claramente definidos. Os demais ainda não provocam paixão suficiente para produzir ódio, nem presença suficiente para gerar resistência massiva.

A eleição de 2026 poderá ser movida pelo voto negativo.

Milhões votarão em Lula não apenas por Lula, mas para impedir Flávio. Outros milhões votarão em Flávio não apenas por Flávio, mas para derrotar Lula.

O voto deixa de ser somente uma escolha e se transforma em barricada.

Essa é uma das características mais profundas das democracias polarizadas. O adversário deixa de ser visto como concorrente legítimo e passa a ser imaginado como ameaça existencial.

Quando isso acontece, a campanha não pergunta apenas “quem governará melhor?”. Pergunta também “quem deve ser impedido de governar?”.

  1. Os indecisos e os móveis

Na pergunta espontânea, 27,7% não sabem em quem votar. Quando os nomes são apresentados, o percentual de indecisos cai para 4%.

A diferença mostra que muitos eleitores não possuem uma escolha cristalizada, mas conseguem selecionar um candidato diante das opções oferecidas.

Além disso, 34% afirmam que ainda podem mudar de voto, enquanto 66% dizem estar decididos.

Esse é um dado central.

A indecisão declarada é pequena, mas a volatilidade é muito maior. Um eleitor pode responder Lula, Flávio, Caiado ou outro nome e, ao mesmo tempo, admitir que ainda pode mudar.

A eleição não será decidida apenas pelos que não sabem. Será decidida também pelos que pensam saber, mas ainda não fecharam a porta.

São os eleitores móveis. Escutam a campanha, observam os debates, acompanham a economia e reagem a acontecimentos inesperados. Podem alterar o destino eleitoral mesmo quando as pesquisas aparentam estabilidade.

  1. Brancos, nulos e a recusa

No primeiro turno estimulado, 2% declaram voto em ninguém, branco ou nulo. Na espontânea, o percentual chega a 4,5%. No segundo turno entre Lula e Flávio, fica em 4%.

Quando Lula enfrenta adversários menos consolidados, esse percentual cresce. Chega a 7% contra Caiado, 8,5% contra Zema e 10,3% contra Renan Santos.

O dado revela que Flávio Bolsonaro possui maior capacidade de polarização. Ele mobiliza apoio e rejeição, reduzindo o espaço da neutralidade.

Candidatos menores não absorvem automaticamente o eleitorado antilulista. Parte desse grupo prefere abandonar simbolicamente a disputa a votar em uma alternativa que considera fraca ou desconhecida.

O levantamento reúne votos brancos e nulos em uma única categoria. Portanto, não permite identificar separadamente as motivações. Há quem vote assim por protesto, rejeição, desinteresse, dúvida ou recusa moral dos candidatos.

Branco e nulo não são silêncio. Muitas vezes, são uma forma de grito sem destinatário.

  1. A abstenção que a pesquisa não mede

A pesquisa não apresenta uma pergunta geral e direta sobre intenção de comparecer às urnas. Portanto, não permite estimar a futura abstenção.

É importante separar conceitos.

O indeciso pode comparecer e escolher. O eleitor que pretende votar em branco ou anular comparece às urnas. O abstencionista não comparece ou não registra voto.

Não é metodologicamente correto somar indecisos, brancos e nulos para projetar abstenção.

Ainda assim, a abstenção poderá ter papel relevante. Grupos desmotivados, eleitores pobres submetidos a dificuldades de deslocamento, jovens desinteressados e cidadãos que rejeitam os dois polos podem alterar a composição dos votos válidos.

A eleição será decidida não apenas por quem escolher um candidato, mas também por quem conseguirá chegar às urnas.

  1. Donald Trump e o limite da tutela estrangeira

A pesquisa mostra que o apoio de Donald Trump tende mais a prejudicar do que a beneficiar candidatos brasileiros.

Apenas 20% concordam que o apoio do presidente norte-americano aumenta a chance de votar em determinado candidato. Já 44,9% discordam.

O dado é especialmente delicado para Flávio Bolsonaro.

A proximidade com Trump pode fortalecer o núcleo ideológico mais radicalizado, mas encontra resistência entre eleitores que interpretam a interferência estrangeira como ameaça à soberania.

O Brasil pode ser polarizado, mas não gosta de parecer tutelado.

A bandeira estrangeira, quando carregada com entusiasmo excessivo, pode tornar-se peso eleitoral.

  1. Corrupção e serviços públicos

Quando os entrevistados apontam as prioridades para o próximo presidente, o combate à corrupção e a aplicação igual da lei aparecem em primeiro lugar, com 33,1%.

Em seguida vêm a melhoria da saúde, educação e serviços básicos, com 20,9%; a economia, com 16,4%; e a segurança pública, com 10,9%.

A corrupção retorna ao centro do imaginário político.

Isso beneficia a oposição, que pode utilizar o tema contra o governo. Mas também ameaça o próprio bolsonarismo, que não está imune a questionamentos éticos, investigações e contradições.

Nenhum campo possui monopólio moral.

Para Lula, o erro seria considerar a pauta ultrapassada ou exclusivamente instrumental. Para Flávio, o risco seria falar em moralidade como se seu campo estivesse fora do alcance da mesma régua.

O eleitor exige lei igual para todos, embora a política brasileira costume oferecer justiça seletiva e indignação partidária.

  1. A democracia sob suspeita

A confiança nas urnas eletrônicas também se divide politicamente.

Entre eleitores de Lula, a confiança é elevada. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, a desconfiança é muito maior.

Esse dado produz um alerta institucional.

Se a eleição for apertada, uma parcela relevante da direita poderá ser mobilizada contra a legitimidade do resultado. A dúvida sobre as urnas não é apenas uma opinião técnica. Tornou-se identidade política.

A democracia começa a adoecer quando o eleitor aceita a eleição apenas se seu candidato vencer.

A urna não pode ser tratada como legítima na vitória e fraudulenta na derrota.

  1. Debates e planos de governo

A maioria dos entrevistados, 62,7%, considera que os candidatos devem participar dos debates.

Isso cria uma exigência democrática.

Lula e Flávio não poderão tratar os debates apenas como cálculo de risco. A ausência poderá ser lida como medo, arrogância ou despreparo.

Para os candidatos menores, os debates são quase tudo. É o momento em que deixam de ser pequenos números em uma tabela e ganham voz, rosto, conflito e possibilidade de crescimento.

Mais da metade dos entrevistados também declara intenção de ler os planos de governo. É provável que muitos não leiam os documentos completos. Ainda assim, o dado expressa desejo por propostas, comparações e alguma racionalidade programática.

A política brasileira é emocional, mas não é inteiramente irracional. O eleitor quer símbolos, mas também quer saber o preço do pão, o tempo da fila, o destino da escola e a segurança da rua.

  1. Uma eleição de dois Brasis, ou de muitos

A tentação é dizer que existem dois Brasis. Um de Lula e outro de Flávio Bolsonaro.

A pesquisa, porém, revela muitos Brasis.

Há o Brasil feminino, mais lulista, e o masculino, mais bolsonarista. Há o Brasil católico e o evangélico. O Brasil nordestino e o sulista. O Brasil dos pobres, onde Lula é dominante, e o das classes médias, onde Flávio cresce. Há o Brasil dos mais velhos, que se inclina ao presidente, e o dos jovens adultos, onde a direita avança.

Esses Brasis não vivem separados. Dormem sob o mesmo teto, trabalham na mesma empresa, frequentam a mesma família, compartilham a mesma rua e discutem nas mesmas redes sociais.

A polarização não divide o território com uma linha limpa. Ela atravessa as casas.

  1. O centro decisivo

A eleição será decidida menos pelos eleitores apaixonados e mais pelos que vivem na fronteira.

Os militantes já escolheram. Os devotos já vestiram a camisa. Os rejeitadores já ergueram seus muros.

O território decisivo será ocupado por:

os que avaliam o governo como regular; os que reconhecem méritos em Lula, mas ainda não declaram voto; os que rejeitam Lula, mas não confiam inteiramente em Flávio; os que preferem uma alternativa moderada; os eleitores do Sudeste; os trabalhadores que recebem entre um e três salários mínimos; os jovens inseguros quanto ao futuro; as mulheres resistentes ao bolsonarismo; os evangélicos que podem não apoiar Lula, mas também não desejam radicalização permanente.

É nesse espaço intermediário que a política precisará abandonar os gritos e produzir sentido.

  1. Conclusão: a ponte estreita de 2026

Lula entra na disputa como líder. Recuperou aprovação, melhorou a avaliação do governo, ampliou a percepção de que merece continuar e vence todos os cenários de segundo turno apresentados.

Mas não está seguro.

Sua rejeição é elevada, sua força encontra limites entre homens, evangélicos, jovens adultos, moradores do Sul e parcelas da classe média. A economia ainda não se converteu integralmente em bem-estar. A segurança pública permanece como ferida aberta.

Flávio Bolsonaro entra na disputa como principal candidato da direita. Consolidou sua liderança, herdou a base do pai e domina segmentos sociais importantes.

Mas também não está seguro.

Sua rejeição é ainda maior, sua dificuldade entre mulheres, católicos, nordestinos e eleitores moderados impede a formação de uma maioria clara. Sua força o leva ao segundo turno. Sua identidade pode impedi-lo de vencê-lo.

Os demais candidatos existem, falam, propõem e representam nichos. Nenhum, contudo, ameaça até agora a estrutura bipolar da eleição.

A pesquisa Meio/Ideia mostra um país caminhando por uma ponte estreita. De um lado, a memória social do lulismo. Do outro, a permanência geracional do bolsonarismo. Abaixo, corre o rio escuro da rejeição, da desconfiança institucional, da insegurança e da fadiga política.

Lula leva consigo a experiência, a máquina do governo, o Nordeste, as mulheres, os mais pobres e a lembrança de tempos de mobilidade social.

Flávio leva consigo a herança bolsonarista, os homens, os evangélicos, o Sul, parcelas das classes médias e a energia de uma direita que já não depende apenas da presença física de Jair Bolsonaro.

Nenhum deles atravessará a ponte apenas com seus fiéis.

A vitória pertencerá a quem conseguir falar com o Brasil que não grita, que não milita todos os dias, que não transforma a política em religião, que acorda cedo, pega transporte, compara preços, teme a violência, deseja serviços públicos melhores e ainda conserva o direito de mudar de ideia.

Esse Brasil silencioso não aparece nas passeatas nem domina as redes sociais. Mas comparece à urna.

E, quando comparece, escolhe o presidente da República.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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