A Polícia Federal apontou que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, aparece como “interlocutor direto” do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nas tratativas envolvendo o financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A avaliação consta de uma representação encaminhada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master. O documento, enviado em julho, teve o sigilo retirado nesta semana e reúne mensagens e registros encontrados durante a apuração.
Segundo a PF, Flávio não aparece apenas mencionado em conversas entre outras pessoas envolvidas no projeto. Os investigadores apontam que o senador participou diretamente de discussões sobre os aportes destinados ao filme sobre seu pai.
“Tais elementos indicam que o Senador Flávio Nantes Bolsonaro não aparece apenas como terceiro mencionado em comunicações de outras pessoas, mas como interlocutor direto de Daniel Vorcaro em tratativas relacionadas ao financiamento da produção”, registrou a corporação.
A PF cita, entre os elementos identificados, cobranças por pagamentos, reuniões presenciais e o acompanhamento do andamento das gravações.
Mensagens indicam reuniões e cobranças por repasses
A investigação identificou registros das tratativas desde o fim de 2024. Em dezembro daquele ano, mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicam o agendamento de uma conversa com Flávio para tratar do chamado “filme do presidente”.
Posteriormente, o deputado federal Mario Frias (PL-SP), apontado como idealizador do projeto, também aparece relacionado às tratativas.
Em janeiro de 2025, Vorcaro questionou o empresário Fabiano Zettel sobre um pagamento destinado ao filme. Ao saber que o valor ainda não havia sido transferido, o então dono do Banco Master afirmou que aquele pagamento seria “o mais importante disparado” e cobrou que a obrigação fosse cumprida.
Os investigadores apontam que, a partir de agosto de 2025, passaram a surgir registros de contato direto entre Vorcaro e Flávio. No dia 20 daquele mês, mensagens indicam que os dois teriam combinado um encontro presencial.
No mês seguinte, o senador enviou um áudio cobrando pagamentos relacionados à produção. Segundo a PF, Flávio demonstrava preocupação com compromissos assumidos com o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e com o diretor Cyrus Nowrasteh.
Flávio disse que produção estava “no limite”
As conversas continuaram durante as gravações. Em outubro de 2025, Flávio informou a Vorcaro que o filme estava no terceiro dia de produção e disse que a equipe se encontrava “no limite”.
De acordo com o relatório, o senador pediu que o banqueiro avisasse caso não conseguisse realizar o aporte para que outra solução pudesse ser buscada com urgência. Vorcaro respondeu que resolveria a situação.
Na mesma data, Flávio convidou o empresário para jantar com o ator principal e o diretor do longa em São Paulo. Dias depois, novas mensagens indicaram que um pagamento que teria sido liberado ainda não havia chegado ao destino.
Em novembro, Flávio enviou a Vorcaro um vídeo e afirmou que a produção somente estaria acontecendo graças à ajuda dele, segundo os registros analisados pela Polícia Federal.
Contato ocorreu na véspera da prisão de Vorcaro
Outro episódio destacado pelos investigadores ocorreu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão de Daniel Vorcaro.
Segundo a PF, Flávio tentou ligar para o empresário e depois enviou uma mensagem afirmando: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
No dia seguinte, Vorcaro foi preso quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Dubai. A prisão ocorreu no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades relacionadas ao Banco Master.
Os elementos reunidos pela PF levaram à abertura de um procedimento específico para investigar a participação de Flávio no financiamento de “Dark Horse”. O inquérito, autorizado por André Mendonça, apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis crimes.
PGR quer apurar possível contrapartida
A Procuradoria-Geral da República (PGR) também defendeu o aprofundamento das investigações. Entre as diligências sugeridas está o levantamento de propostas legislativas apresentadas pelo senador para verificar se houve alguma relação entre sua atuação parlamentar e as tratativas envolvendo Vorcaro e o financiamento do filme.
A apuração ainda está em fase inicial e não representa conclusão sobre eventual responsabilidade criminal do senador.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades. Nesta sexta-feira (11), após a divulgação dos documentos, ele afirmou que todos os recursos relacionados ao filme são privados e pediu ao ministro André Mendonça que retire o sigilo da investigação.
“Eu peço ao ministro André Mendonça: abra o sigilo, o sigilo de tudo, mostra tudo para o povo”, declarou durante agenda em Manaus.
O senador também sustenta que não recebeu recursos pessoalmente e afirma que sua atuação se limitou à busca de patrocinadores privados para a produção sobre o pai.







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