Aos 50 anos, sem nunca ter disputado uma eleição e filiado a um partido que enfrenta o desafio de ampliar sua representação, Elias Jabbour chegou à reta decisiva da campanha como uma das surpresas da corrida pela Câmara dos Deputados no Rio. O professor da Uerj e doutor em Geografia aparece entre os dez candidatos mais citados para deputado federal no ranking acumulado da Vetor Arrow, ocupando a oitava posição.
O desempenho chama atenção justamente pelo contraste com os concorrentes que dividem com ele as primeiras posições. Enquanto boa parte dos nomes do top 10 já passou pelas urnas ou exerceu atividade política institucional, Jabbour faz sua primeira campanha eleitoral.
Militante do PCdoB desde os 16 anos, Jabbour atribui o avanço a uma combinação de presença digital, encontros presenciais e, sobretudo, a um discurso centrado em soberania nacional, reindustrialização e desenvolvimento tecnológico em harmonia com a ecologia. Em entrevista ao Agenda do Poder, afirmou que procura evitar uma comunicação baseada apenas em fórmulas para gerar engajamento nas redes.
- Eu acho que a novidade é de uma retomada de um discurso nacionalista de esquerda. Isso encanta muito a juventude e os setores médios que estavam carentes desse tipo de discurso. É um discurso mais à esquerda, mais old school, mais raiz”, prega o acadêmico professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)”.
Segundo ele, a campanha busca relacionar reindustrialização à geração de empregos formais, especialmente para os jovens, e à redução da precarização do trabalho. Propõe ainda uma transição ecológica como resposta à crise climática que vive o mundo, com o Brasil se mantendo um país de matriz energética limpa como é, mas também utilizando dos excedentes que a Petrobrás exibe.
Uma estreia que mexe com um partido histórico
O crescimento de Jabbour introduz uma variável nova na disputa interna do PCdoB. O partido também apresenta para a Câmara nomes experientes, como Jandira Feghali e Enfermeira Rejane, ambas atualmente deputadas federais. Jandira acumula uma longa trajetória na Câmara, com mandatos registrados desde a década de 1990.
Questionado pelo Agenda do Poder sobre a possibilidade de seu desempenho representar uma renovação e ameaçar a permanência de Jandira, Jabbour rejeitou a ideia de uma disputa direta entre as três candidaturas.
- A gente não compete em nenhum nível. Eu, a Jandira e a Enfermeira Rejane somos um trio que ocupa espaços diferentes da política, mas que se complementam. Seria até injusto falar em competição, renovação. É o contrário. Eu acho que é o protagonismo integral do PC do B”, declarou.
Jabbour disse acreditar que os três candidatos do PCdoB poderão ser eleitos e projetou que a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, conquiste entre nove e 11 cadeiras.
Da universidade para as urnas
Professor universitário e estudioso do desenvolvimento econômico e da China, Jabbour não considera a candidatura uma ruptura com sua trajetória acadêmica. Na entrevista, definiu a entrada na disputa institucional como uma mudança de função dentro de uma militância política iniciada ainda na adolescência.
- Eu sempre fui um político, ou seja, já estou 35 anos nessa vida. O que acontece agora é um salto de tarefa, de uma militância orgânica para uma militância institucional”, afirmou. “Não é trocar a academia pelo parlamento, mas sim, combinar as duas coisas de forma que quem saia ganhando é o Brasil.”
É justamente dessa trajetória que ele retira algumas das principais bandeiras da candidatura. Uma delas é o que chama de “nacionalismo tecnológico”: uma estratégia para ampliar a capacidade brasileira de produzir e dominar tecnologias consideradas estratégicas, aproximando universidades, Estado e indústria.
Para Jabbour, ex-economista-chefe do Banco Brics e ex-presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), o objetivo deveria ser criar condições para que jovens formados nas universidades encontrem empregos qualificados no próprio país. “Nacionalismo tecnológico significa gerar emprego de qualidade no Brasil”, resumiu.
Reindustrialização também para o Rio
A agenda econômica defendida pelo candidato tem um capítulo específico para o estado. Jabbour afirma que, caso eleito, pretende dialogar inclusive com parlamentares de outros campos políticos para construir uma atuação conjunta da bancada fluminense em torno de projetos de desenvolvimento.
Entre as propostas citadas estão a formação de complexos industriais ligados à defesa e à saúde, o fortalecimento da indústria de transformação e investimentos no setor ferroviário envolvendo Rio, Niterói, Baixada Fluminense e São Gonçalo.
“Apesar de ser do Partido Comunista, eu vou dialogar com todo mundo que tiver ao meu alcance para poder viabilizar um projeto de reindustrialização do Rio de Janeiro”, afirmou. Para ele, seria necessário “montar consenso no entorno dessas agendas”.







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