O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, está há pelo menos seis meses em articulação com a gestão de Donald Trump para que os Estados Unidos classifiquem o Comando Vermelho (CV) como uma organização narcoterrorista. A proposta busca incluir a facção nas listas de sanções do governo estadunidense, equiparando-a a grupos como o Tren de Aragua, da Venezuela, e o cartel mexicano Los Zetas.
Segundo a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, a iniciativa vem sendo tratada sob sigilo desde o início de 2025. A tratativa reacende o debate sobre o papel das facções brasileiras no cenário internacional do narcotráfico e provoca apreensão no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Resistência do Planalto e temor de sanções
Para o Palácio do Planalto, classificar o Comando Vermelho como organização terrorista seria um gesto de risco diplomático e econômico. Assessores de Lula argumentam que tal medida poderia abrir brechas para que os Estados Unidos impusessem sanções contra bancos, empresas e até contra o próprio Estado brasileiro, caso Washington considerasse que o país não estaria combatendo o crime organizado com a devida eficácia.
Além disso, há receio de que essa designação autorize ações mais invasivas dos EUA sob o argumento de combate ao narcoterrorismo, como tem ocorrido na Venezuela. “Seria uma tremenda irresponsabilidade”, afirmou um auxiliar direto de Lula envolvido nas discussões internas.
A posição contrária do governo federal contrasta com o entusiasmo de Castro e de outros governadores alinhados à extrema direita, que veem na medida uma forma de ampliar a cooperação internacional no enfrentamento às facções. O grupo planeja, inclusive, propor uma emenda ao projeto de lei antifacção, que o Planalto enviou recentemente ao Congresso, para incluir a possibilidade de reconhecimento formal de organizações criminosas como terroristas.
Relatório sigiloso entregue à embaixada dos EUA
No início do ano, o governo do Rio enviou à embaixada dos Estados Unidos um relatório confidencial intitulado “Análise Estratégica: Inclusão do Comando Vermelho nas listas de sanções e designações dos EUA”.
O documento, obtido por integrantes da equipe da coluna de Malu Gaspar, sustenta que “a crescente sofisticação, transnacionalidade e brutalidade do Comando Vermelho colocam esta organização dentro dos critérios estabelecidos pelas autoridades dos EUA para sanções econômicas, designações terroristas e bloqueio de ativos”.
De acordo com o texto, a classificação como organização terrorista “facilitaria pedidos de extradição de chefes do CV refugiados em países como Paraguai e Bolívia”, além de “abrir caminho para parcerias com Interpol, DEA, FBI e ONU no combate às redes de tráfico e armamento pesado”.
O relatório também defende que a medida “ampliaria o alcance das sanções para empresas de fachada e aliados econômicos do CV no exterior”, ponto considerado especialmente sensível por autoridades brasileiras devido aos possíveis impactos no sistema financeiro nacional.
Temor no governo Lula e paralelo com a Lei Magnitsky
Técnicos do governo citam o risco de que bancos brasileiros sejam excluídos do sistema global de pagamentos Swift caso algum cliente seja suspeito, ainda que sem provas concretas, de ligação com o Comando Vermelho.
O exemplo mais lembrado é o episódio em que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes foi incluído, por setores ligados à extrema direita dos EUA, entre os alvos da Lei Magnitsky — legislação que permite sanções individuais por supostas violações de direitos humanos.
Para integrantes do governo, o precedente mostra como decisões unilaterais de Washington podem ter repercussões imprevisíveis, inclusive sobre autoridades de outros países.
Contatos com autoridades estadunidenses e a DEA
Em maio, o assessor do Departamento de Estado dos EUA David Gamble esteve no Brasil para discutir “organizações criminosas transnacionais” e “programas de sanções voltados ao combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas”. Nenhum representante da Polícia Federal, porém, aceitou se reunir com o emissário estadunidense.
A proposta tem apoio de parte do Ministério Público de São Paulo, especialmente de integrantes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Entre os defensores da medida está o promotor Lincoln Gakiya, um dos principais especialistas no combate ao PCC e jurado de morte pela facção.
Dias após a visita de Gamble, Cláudio Castro viajou a Nova York para uma reunião com representantes da Drug Enforcement Administration (DEA), a agência antidrogas dos EUA. O objetivo, segundo fontes próximas ao governador, foi discutir um acordo de cooperação direta com o governo fluminense.
Atualmente, qualquer intercâmbio oficial de informações ou equipamentos com a DEA precisa passar pela Polícia Federal, que representa o Brasil em negociações internacionais sobre crime organizado.
Megaoperação e nova ofensiva política
A megaoperação da semana passada nos complexos do Alemão e da Penha, que resultou em mais de uma centena de mortes, reacendeu o debate sobre o enfrentamento às facções e fortaleceu os defensores da nova classificação.
Com o projeto de lei antifacção prestes a ser debatido no Congresso, aliados de Castro veem no momento uma oportunidade para colocar a proposta de designação internacional das facções no centro da agenda política e pressionar o governo federal, que vê com maus olhos uma possível intervenção dos EUA na soberania nacional.






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