* Paulo Baía
Sempre acreditei que o ofício de pesquisar exige clareza metodológica, rigor conceitual e uma disposição para olhar a realidade em sua densidade contraditória. Não se trata de acumular verdades prontas nem de traduzir aspirações morais em fórmulas analíticas. A sociologia que me interessa é a que nomeia realidades sociais complexas, sem reducionismos ou simplismos, e expõe relações no interior das estruturas sociais, das instituições e do cotidiano vivido. Nesse sentido, a trajetória intelectual de Elza Berquó e a formulação da Pirâmide da Solidão representam um marco no modo como compreendemos a confluência entre demografia, gênero, raça e o mercado matrimonial no Brasil.
Elza Salvatori Berquó não foi apenas uma demógrafa. Foi uma pesquisadora que confrontou a dureza dos dados com a delicadeza da compreensão humana. Formada em matemática e bioestatística, com passagem pela Universidade de São Paulo e pela Universidade Columbia, ela dedicou décadas de sua vida a traduzir números em narrativas sociais que iluminam padrões invisíveis à simples observação empírica. Sua Pirâmide da Solidão foi construída a partir da análise sistemática de dados censitários e registros de cartórios, mostrando padrões de desigualdade no mercado afetivo brasileiro, especialmente entre homens e mulheres de diferentes cor da pele e faixas etárias.
Ao trabalhar com as bases de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Elza Berquó observou que havia um excedente de mulheres solteiras em relação aos homens. Um fenômeno demográfico que atravessava todas as classes sociais, todas as regiões e todas as cores da pele. Mas, ao introduzir a variável da cor da pele, ela revelou um aspecto mais espinhoso. Mulheres pretas e de tonalidades mais escuras revelavam, em média, maior incidência de viver sozinhas em determinadas idades em comparação a mulheres claras. Essa constatação desafiava discursos suaves que muitas vezes reduziam a sociabilidade amorosa apenas a escolhas individuais ou a preferências puramente subjetivas.
O Brasil é um país mestiço. A mestiçagem, resultado do encontro forçado entre povos africanos, indígenas e europeus ao longo de séculos de colonização e escravidão, moldou nossas práticas sociais, nossas instituições e nossos imaginários culturais. Ao contrário de leituras romantizadas do passado colonial, que celebravam a miscigenação como prova da harmonia racial brasileira, os estudos sociais mais robustos mostram que o processo histórico de mestiçagem foi atravessado por violência estrutural, subjugação e desumanização sistemática de corpos e vidas.
A escravidão colonial no Brasil foi um projeto de exploração brutal em que o estupro de mulheres indígenas e de mulheres escravizadas era usado como política social de povoamento e dominação. Esse dado histórico não pode ser esquecido ou suavizado, pois ele molda as representações sociais sobre raça, corpo, desejo e hierarquia.
Mas a mestiçagem brasileira também é, de fato, uma realidade de convivência, afeto e criação cultural. Nas interações cotidianas entre povos diversos surgiram formas de sociabilidade, redes de cuidado, modos de amar e resistências que não se reduzem ao campo do colonialismo ou da violência. Ao longo do século XX e início do século XXI, as populações mestiças construíram coletivamente expressões culturais, afetivas e laborais que resistem às hierarquias sociais e que reinventam continuamente o tecido social brasileiro.
Há amor, afeto, trabalho, criatividade e pertencimento nas tramas de convivência que se tecem entre pretos, pardos, indígenas e brancos no país. Essa mestiçagem vivida não é um mero efeito simbólico, mas um fato social complexo que merece ser analisado sensivelmente, sem romantizações, sem ilusões e sem simplificações.
A categoria “negro”, tal como incorporada nos censos do IBGE e no Estatuto da Igualdade Racial, reúne pretos, pardos e mestiços autodeclarados num mesmo grupo estatístico para fins de política pública e reconhecimento legal. Essa formulação tem um propósito político valioso na luta por direitos e igualdade racial.
No entanto, sociologicamente ela também cria uma ficção demográfica no sentido de que homogeniza trajetórias vividas e experiências identitárias muito diversas. Ao colocar na mesma categoria grupos internalmente heterogêneos, perde-se sensibilidade às diferenças que existem entre pretos de pele mais escura, pardos de tonalidades intermediárias e pessoas com ancestralidade indígena mais saliente.
Essa unificação, apesar de útil para determinados fins políticos, apaga nuances importantes na compreensão das dinâmicas raciais brasileiras, especialmente quando pensamos em identidade, reconhecimento social e subjetividade racial no Brasil de hoje.
Como pesquisador, sociólogo e também como cientista político, sei que há diferenças fundamentais entre fazer sociologia, fazer pesquisa empírica e ser militante de uma causa. A militância tem suas razões éticas, seus compromissos políticos e sua capacidade de mobilizar e organizar pessoas em torno de ideais de justiça.
A pesquisa científica, por sua vez, exige uma atitude distinta. Não se trata de confirmar aquilo que desejamos acreditar, mas de descobrir aquilo que os dados e as evidências nos mostram, mesmo quando isso contraria narrativas consolidadas. É possível que militantes e movimentos sociais encontrem na obra de Elza Berquó insights valiosos para pensar desigualdades afetivas e raciais. Mas a leitura militante de fenômenos sociológicos não pode substituir o rigor metodológico nem desqualificar o trabalho científico quando ele segue critérios epistemológicos reconhecidos.
Nesse sentido, a reação que alguns setores do mundo acadêmico e intelectual tiveram diante das contribuições de Elza Berquó foi, sob muitos aspectos, lamentável. Em vez de se engajar num debate crítico e qualificado sobre métodos, conceitos e interpretações, houve quem reduzisse a análise demográfica a um instrumento de estigmatização moral de indivíduos e grupos.
Setores da academia e das ciências sociais, instituições que deveriam ser espaços de reflexão crítica e debate aberto, alinharam-se a posturas que endossaram violências simbólicas contra uma pesquisadora cujo único propósito era explicitar padrões sociais e não condenar escolhas pessoais.
Essa hostilidade intelectual constituiu um obstáculo para a circulação construtiva do conhecimento. Em vez de promover um diálogo entre variáveis demográficas, análise sociológica e saberes indígenas, afrodescendentes ou feministas, preferiu-se uma polarização que fragiliza o próprio projeto emancipatório que muitos desses segmentos afirmam defender.
A academia, em sua missão de produzir e sistematizar conhecimento, não pode abdicar de sua capacidade de criticar estruturas sociais e iluminar padrões que nem sempre são confortáveis. Ao contrário, deve fazê-lo com rigor, responsabilidade e abertura ao contraditório.
É nesse ponto que devemos situar a discussão sobre a expressão palmitagem. A palavra circula no debate público brasileiro como um rótulo acusatório, usado para criticar a ideia de que determinadas escolhas afetivas de homens pretos seriam respostas a uma lógica internalizada de desvalorização dos pares pretos e de idealização simbólica de pessoas brancas.
Essa leitura, embora reflita tensões reais no interior do racismo e do colorismo, corre o risco de se transformar em uma categoria de julgamento moral que simplifica demais uma realidade social complexa e multifacetada. A expressão não é uma categoria analítica comprovada por métodos científicos. É uma construção discursiva que emerge em espaços de debate militante e que pode carregar mais agressividade moral do que rigor explicativo.
Como sociólogo, vejo que é indispensável distinguir a explicação sociológica da crítica moral. O primeiro busca compreender padrões sociais, relações de poder e estruturas de desigualdade com base em evidências. O segundo atua no plano da avaliação ética e política de práticas e comportamentos.
Ambos são legítimos, mas não devem ser confundidos. Não se trata de negar que existam preferências afetivas influenciadas por contextos sociais e históricos. Trata-se de evitar reduzir a vida afetiva das pessoas a mecanismos unidimensionais ou a julgamentos normativos que desconsiderem agência, subjetividade e pluralidade de experiências.
A Pirâmide da Solidão de Elza Berquó, vista desde a complexidade das relações raciais brasileiras, nos ajuda a pensar como as desigualdades se inscrevem também no mercado afetivo. Ela não se limita a classes sociais específicas ou a grupos demográficos restritos. Atravessa toda a sociedade e se articula com hierarquias raciais e de gênero que são parte constitutiva do Brasil contemporâneo.
Ela nos desafia a reconhecer que relações afetivas, escolhas amorosas e padrões matrimoniais não são isolados de contextos históricos de exclusão, de violência racial e de hierarquias sociais que persistem até hoje.
Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer a mestiçagem como um fato social dinâmico que, embora marcado por dimensões de poder, violência e desigualdade, também foi e é matriz de redes de sociabilidade, de cuidado mútuo, de criação cultural, de trabalho e de afetos.
A mestiçagem brasileira não é apenas um resíduo do passado colonial. É um processo vivo que expressa modos múltiplos de ser, conviver, amar e resistir no espaço social. Essa resistência permanente da vida cotidiana, das práticas culturais e das relações humanas é uma forma de civilização que se reinventa continuamente.
Neste sentido, é também necessário afirmar que a negritude, entendida como um ato político de resistência, dignidade e afirmação identitária, é parte fundamental dessa dinâmica. A negritude não é apenas uma categoria racial. É uma postura de afirmação da humanidade, historicidade e agência de povos que foram historicamente subjugados, marginalizados e desumanizados.
Reconhecer a negritude como ato político é reconhecer que as lutas contra o racismo, em suas dimensões estruturais e cotidianas, são lutas pela própria humanidade.
Portanto, ao revisitar e refletir criticamente sobre a obra de Elza Berquó, sobre a Pirâmide da Solidão e sobre as discussões que emergiram em torno da palmitagem, não devemos perder de vista a diferença fundamental entre explicar um fenômeno social e julgá-lo moralmente.
A pesquisa científica não nasce de slogans nem de certezas prontas, mas de uma disposição para enfrentar contradições, interrogá-las com rigor e articular análises que iluminem as complexidades da vida social.
Sigo convencido de que a sociologia, quando feita com rigor metodológico, sensibilidade humana e abertura ao contraditório, pode transformar nossa compreensão do mundo e nossas possibilidades de ação nele.
E é nesse sentido que a obra de Elza Berquó permanece como um patrimônio intelectual indispensável para quem deseja entender o Brasil em sua teia de relações sociais, afetivas e raciais.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ







Deixe um comentário