O resultado do primeiro turno da eleição presidencial, que colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), provocou uma mudança na percepção de integrantes da campanha bolsonarista sobre a atuação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Nos bastidores, aliados do senador acreditam que o magistrado passou a alternar decisões favoráveis e desfavoráveis ao grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro, numa possível tentativa de reduzir tensões diante da nova composição do Senado.
As informações são da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Integrantes do núcleo mais próximo de Flávio avaliam que Moraes estaria preocupado com o avanço de parlamentares favoráveis ao impeachment de ministros do Supremo.
Um levantamento publicado pela coluna aponta que a próxima legislatura terá pelo menos 49 senadores alinhados a essa pauta. Para aprovar o afastamento de um integrante da Corte, são necessários 54 votos.
Visitas a Bolsonaro
Um dos principais movimentos acompanhados pela campanha envolve a possibilidade de Flávio Bolsonaro voltar a visitar o pai. A restrição aos encontros foi determinada por Moraes em julho, pelo período de 90 dias, prazo que termina neste sábado (10).
A proibição ocorreu depois que Flávio divulgou nas redes sociais uma carta do ex-presidente em defesa da união das forças de direita. No documento, Jair Bolsonaro apresentava o filho como a melhor alternativa para enfrentar problemas como corrupção, violência e empobrecimento do país.
A Procuradoria-Geral da República (PGR), comandada por Paulo Gonet, já encaminhou ao Supremo um parecer favorável à retomada das visitas. Com isso, aliados do candidato presidencial consideram provável que Moraes autorize novos encontros nos próximos dias.
Para integrantes da campanha, uma eventual liberação seria interpretada como mais um sinal de tentativa de distensão entre o magistrado e o bolsonarismo.
“Alexandre de Moraes tem feito um cálculo dos seus passos, nesse estilo morde e assopra. Ele sabe que a sobrevivência dele não depende só da presidência da República, mas também do Senado”, afirmou um integrante do núcleo duro da campanha. “Ele faz sinais, mas quer mostrar que ainda tem a arma na mão”, acrescentou.
Decisões vistas como acenos
Outras decisões recentes do Supremo também entraram no radar dos aliados de Flávio Bolsonaro. Nesta semana, Moraes autorizou a progressão de regime de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como Débora do Batom, para o semiaberto. Ela foi condenada a 14 anos de prisão por sua participação nos atos de 8 de janeiro de 2023, quando escreveu a frase “Perdeu, mané” com batom na estátua A Justiça, em frente ao STF.
O caso ganhou repercussão entre apoiadores do ex-presidente, que passaram a apresentar Débora como símbolo de supostos excessos nas punições aplicadas aos envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes.
Outro episódio mencionado nos bastidores foi a divulgação de uma decisão tomada por Moraes em setembro, que determinou o arquivamento de uma investigação envolvendo o senador Marcos do Val (Avante-ES) e os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio. O procedimento estava relacionado a um desdobramento do inquérito das milícias digitais.
Também nesta semana, a PGR se manifestou pelo arquivamento de uma investigação sobre uma acusação de estupro contra o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio. O parecer foi acolhido pelo ministro Gilmar Mendes, considerado próximo de Moraes.
Embora os episódios envolvam processos distintos, integrantes da campanha bolsonarista passaram a analisá-los em conjunto, interpretando-os como possíveis sinais de mudança no ambiente político e institucional.
Eduardo Bolsonaro enfrenta revés
A avaliação de uma possível aproximação, entretanto, convive com decisões que provocaram forte reação no entorno do candidato do PL.
Na quinta-feira (8), Moraes determinou o cumprimento da pena de quatro anos e dois meses de prisão, em regime semiaberto, imposta ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
O irmão de Flávio foi condenado em junho pela Primeira Turma do STF pelo crime de coação no curso do processo. A condenação está relacionada à articulação de sanções contra autoridades brasileiras junto ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa tentativa de interferir no andamento da ação penal sobre a trama golpista.
Eduardo permanece nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, alegando sofrer perseguição política no Brasil.
Além de determinar o cumprimento da pena, Moraes ordenou o cancelamento dos passaportes do ex-parlamentar após reconhecer o trânsito em julgado do processo, conforme a decisão da Primeira Turma.
Eduardo reagiu classificando a medida como “arbitrária, inoportuna e inócua” e afirmou que o governo norte-americano não cumprirá a determinação.
O episódio contrariou integrantes da campanha presidencial, que enxergaram na decisão uma demonstração de que Moraes continua disposto a adotar medidas rigorosas contra figuras centrais do bolsonarismo.
Temer entra na articulação
Apesar dos atritos, interlocutores próximos a Moraes avaliam que o ministro estaria interessado em estabelecer canais de diálogo com setores ligados a Flávio Bolsonaro, ao menos durante o segundo turno da disputa presidencial.
Nesse contexto, o posicionamento do ex-presidente Michel Temer ganhou relevância. Responsável pela indicação de Moraes ao Supremo em 2017, Temer divulgou um vídeo de apoio à candidatura de Flávio após o primeiro turno.
Na gravação, o ex-presidente interpretou o resultado eleitoral como uma manifestação do desejo de mudança de parte expressiva do eleitorado brasileiro.
“As urnas falaram. O povo brasileiro, autoridade única da democracia, deixou claro que deseja mudança. Quer atenção e respeito. Quem entendeu isso foi reeleito. Com os demais, deu-se a renovação”, declarou.
Temer também destacou o desempenho da candidatura do PL e a renovação do Congresso Nacional. “Renovação que apareceu fortemente na composição do Congresso Nacional e na força da candidatura à Presidência da República que chegou ao 2º turno em 1º lugar. Quer, portanto, reconexão. E reconexão é Flávio”, afirmou.
A manifestação é interpretada por interlocutores políticos como um possível elemento de aproximação entre setores do bolsonarismo e figuras com trânsito no Supremo.
Por enquanto, a hipótese de mudança de estratégia de Moraes permanece baseada em avaliações de bastidores. Não há confirmação de que as decisões judiciais recentes tenham sido motivadas pelo resultado eleitoral ou pelo crescimento da bancada favorável ao impeachment de ministros.
O fato é que a nova configuração do Senado ampliou o peso político do debate sobre o afastamento de integrantes do STF, enquanto a disputa presidencial coloca novamente a relação entre o Supremo e o bolsonarismo no centro das atenções.







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