Com domínio do Comando Vermelho, a lista dos mais procurados do país lançada nesta segunda-feira (8) pelo governo federal tem criminosos ligados à milícia, à contravenção e ao Terceiro Comando Puro (TCP) no Rio de Janeiro. O Projeto Captura, criado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, permite a inclusão de até oito foragidos por Estado. No Rio, três deles são do CV, dois são ligados ao jogo do bicho, um é miliciano e outros dois integram o TCP (veja quem são eles na lista abaixo).
A relação inclui pessoas de alta periculosidade com mandado de prisão em aberto por Estado por crimes hediondos ou por envolvimento com facções criminosas. Até o momento, a lista já conta com a presença de 198 foragidos em todo o território brasileiro. O Ministério da Justiça ainda irá implantar uma célula operacional para intensificar buscas por pessoas de outros estados sob a proteção do CV no Rio de Janeiro.

Apontada como uma das mais letais do mundo superando guerra contra cartéis mexicanos e colombianos, a megaoperação de 28 de outubro que matou 122 pessoas no Complexo do Alemão e Penha deixou indícios dessa ampla presença de criminosos de todo o país escondidos nas favelas cariocas. Um levantamento feito pelas forças de segurança indicou que mais da metade dos mortos eram de fora do Rio. Fontes da Agenda do Poder junto às forças de segurança indicam que o CV cobrava até R$ 1 milhão por mês para garantir refúgio em “bunkers” da facção criminosa em uma espécie de intercâmbio do crime.
Família de Peixão a caminho da Bolívia e mandado contra Adilsinho
Em apenas dois dias após a sua implantação, nomes incluídos na lista de procurados pelas forças policiais do Rio de Janeiro foram alvo de ações. Parentes de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes do tráfico de drogas do Terceiro Comando Puro (TCP), foram detidos a caminho da Bolívia nesta terça-feira (9), país conhecido por ser o destino dos criminosos mais procurados do país. A abordagem ocorreu na BR-262, em Campo Grande (MS), após a Polícia Rodoviária Federal receber informações da Polícia Civil do Rio.
Motoristas a bordo de dois veículos disseram aos agentes terem sido contratados por um conhecido que vive na Bolívia para levar os passageiros. No veículo, estavam a esposa, os três filhos e um sobrinho de Peixão. Durante a revista, os agentes encontraram joias com inscrições que faziam referência direta ao líder criminoso. Um deles ostentava a estrela de Davi com a inscrição ‘Israel Defense Force’.
O sobrinho afirmou ser o proprietário dos itens. Os ocupantes dos veículos foram detidos sob suspeita de lavagem de dinheiro, ocultação de bens e participação no financiamento de organização criminosa. Em depoimento, os parentes de Peixão afirmaram que viajavam para passear em Corumbá, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. A cidade faz divisa com a Bolívia. Após prestarem depoimento, os parentes de Peixão foram liberados pelas autoridades.

Também nesta terça-feira (9), a Justiça do Rio expediu um novo mandado de prisão por homicídio contra Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. O contraventor ligado ao jogo do bicho, que também integra a lista dos mais procurados do país, é apontado por investigações como o suspeito de ter sido o mandante do assassinato de Fábio de Alamar Leite, morto a tiros em outubro de 2022 quando deixava o enterro do seu ex-sócio, Fabrício Alves Martins de Oliveira, que havia sido morto dias antes em um posto de combustível em Campo Grande, Zona Oeste do Rio.
Há indícios de que ambos tenham sido mortos pela mesma organização criminosa. Adilsinho é acusado ainda de chefiar uma máfia especializada na exportação ilegal de cigarros e tem ao menos outros dois mandados de prisão pendentes na Justiça.
Quem são os mais procurados no Rio

Pezão, o líder invisível do CV – Após retornar do Paraguai há quatro anos, Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, passou a ser apontado como o líder invisível e símbolo da expansão do CV, que atua em mais de mil favelas no Rio e se espalhou pelo país. Com mais de 15 mandados de prisão por crimes como homicídio, tráfico e formação de quadrilha, Pezão tem despistado as forças de segurança no Brasil e no exterior há quase duas décadas. Para isso, já obteve documento com nome falso e até usou farda da PM para escapar da prisão, segundo fontes ouvidas pela Agenda do Poder.
Pezão, que hoje tem 50 anos, começou a traçar a sua escalada ao poder no CV em novembro de 2010, quando já integrava a lista dos traficantes mais procurados do Rio em meio ao processo de pacificação das favelas que resultou na ocupação policial do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Ele foi o único líder que conseguiu escapar do cerco em uma época de endurecimento nas ações contra o crime organizado, quando as prisões eram tratadas como se fossem uma coleção de troféus indicando a vitória do Estado na guerra contra o crime organizado. Na época, Pezão chefiava o território apontado como o quartel-general da facção, mas ainda não integrava a cúpula do CV.

Doca, o comandante da Tropa do Urso – Principal alvo da megaoperação no Complexo do Alemão e Penha, Edgar Alves de Andrade, o Doca, 55, foi apontado como o inimigo nº 1 do Estado. O Disque Denúncia oferece recompensa de R$ 100 mil por informações que levem ao seu paradeiro, maior valor pago pelo serviço desde as buscas por Fernandinho Beira-Mar, há 25 anos. O MP elaborou um relatório detalhando como funciona a facção, com Doca no topo da hierarquia por chefiar a chamada Tropa do Urso, braço armado do CV. Mas fontes da reportagem indicam que todas as ações dele precisam ser antes aprovadas por Pezão, apontado como o verdadeiro líder da facção nas ruas.
Com 26 mandados de prisão em aberto, Doca acumula 269 anotações criminais por tráfico de drogas, homicídios, extorsão, roubo, corrupção de menores e organização criminosa. Doca foi preso pela polícia uma única vez: em 2007, após mais de 11 horas de troca de tiros com a polícia na Vila Cruzeiro. Nove anos depois, foi solto e voltou ao crime, recebendo de Elias Maluco a tarefa de gerenciar um ponto de venda de drogas no Complexo da Penha. Com a morte do antigo chefe, Doca se tornou um dos chefes do tráfico na região. Ele é apontado ainda como o mandante do ataque aos médicos em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, em 2023. Eles foram mortos por terem sido confundidos com milicianos. A tropa de Doca também teria sido responsável pelo ataque a uma delegacia em Duque de Caxias, em abril. Comparsas do traficante metralharam o local para tentar resgatar um traficante do grupo, mas o preso já estava em outra unidade da polícia.

Abelha, o antigo chefe do CV – Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, já foi apontado como o líder do CV nas ruas. Com o auxílio de Doca, foi o responsável por intensificar as invasões a favelas rivais e a fazer uma improvável aliança com a milícia da Zona Oeste em uma negociação envolvendo Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho. Mas acabou também cometendo assassinatos de pessoas ligadas a Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, líder máximo do CV preso, e sendo acusado de desviar dinheiro da facção, gerando uma ruptura. Com a volta de Pezão do Paraguai, começou a perder poder gradativamente.
Há dois anos, orientou pelo WhatsApp o que a Polícia Civil chama de “caçada” a grupos rivais nas favelas após a aliança firmada com a milícia. As investigações rastrearam diálogos com a missão de ocupar os territórios. Nas buscas, há informações em referência ao assassinato de rivais. “Morto 01 do Fubá [em referência ao líder de grupo rival que atuava na favela em Cascadura, subúrbio do Rio]”, escreve o criminoso, que recebe elogios do chefe. “Meu mn [meu mano, na gíria] representa nós”, responde Abelha, elogiando a ação. Em outra mensagem, o criminoso encaminha a Abelha um vídeo mostrando outra ação. “Chacrinha pai”, diz, citando a ação na favela na Praça Seca, palco de confrontos entre facções rivais nos últimos anos. E, mais uma vez, recebe elogios: “Vc é foda”.

Peixão, o líder evangélico do TCP – A lista do Ministério da Justiça e Segurança Pública inclui, ainda, dois líderes do TCP, facção evangélica já apontada como a “terceira força” do crime organizado do país pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que tem usado a religião no processo de expansão para outros estados. Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, exerce o seu domínio em um conjunto de favelas que ficou conhecido como Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio, em referência à terra prometida para o “povo de Deus” na Bíblia. Em março deste ano, a Polícia Civil fez uma operação para prendê-lo em uma espécie de “resort de luxo” na região, com lago artificial para criação de carpas, piscina e academia. O imóvel foi construído em uma área de preservação ambiental, segundo as investigações. O empreendimento foi demolido.
Evangélico, Peixão transmite orações via rádio. Nas áreas sob o seu domínio, há trechos bíblicos, bandeiras do Estado de Israel e imagens de Cristo em grafites e pinturas gospel. Estrelas de Davi também fazem parte da decoração. Intolerante a religiões de matriz africana, o grupo usa o nome de Deus para controlar áreas no Rio usando a “gramática pentecostal”. A facção ainda exige conversão religiosa para permanência na organização. Após serem presos em maio de 2023, membros da cúpula da quadrilha chefiada pelo traficante se referiam a ele como “Irmão de Moisés”. De acordo com investigações, Peixão tem sido um dos principais líderes do TCP na negociação para trazer drogas e armas de países como Paraguai, Colômbia e Venezuela devido à sua rede de contatos no exterior.

A ‘guerra urbana’ de Lacoste – Wallace de Brito Trindade, o Lacoste, é o outro chefe do TCP na lista dos mais procurados do Ministério da Justiça. Ele é apontado como líder da facção criminosa no Complexo da Serrinha, em Madureira, Zona Norte do Rio. E tem travado, nos últimos anos, uma guerra urbana por território contra o CV, indicam investigações. Com a maior quantidade de pontos de venda de drogas e de armas na região, Lacoste teria centenas de fuzis, granadas e munições traçantes à disposição, e vem tentado invadir favelas dominadas pela facção rival.
Em agosto deste ano, uma operação policial localizou um imóvel de luxo pertencente ao criminoso, que tinha até uma rota de fuga com acesso a uma área de mata. Lacoste tem mandados de prisão pendentes por homicídio e associação ao tráfico. Ele está foragido desde 2007, quando saiu do regime semiaberto enquanto cumpria pena por tráfico de drogas e não retornou mais ao sistema prisional.

Bernardo Bello, da nova cúpula do jogo do bicho – Bernardo Bello é um dos principais nomes da nova cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro. Ex-marido de Tamara Garcia, com quem tem um filho, ele assumiu o controle do negócio da família após a morte do ex-sogro, o bicheiro Waldemir Paes Garcia, o Maninho, assassinado em 2004. Ele foi morto a tiros quando deixava uma academia na Freguesia, em Jacarepaguá.
Irmã de Tamara, a empresária Shanna Garcia acusa Bello de ser o mandante de um atentado sofrido por ela em 2019, quando foi atingida por dois tiros em frente a um centro comercial na Barra da Tijuca. No mês passado, a Justiça do Rio determinou que ele e o comparsa Wagner Dantas Alegre irão a júri popular pelo homicídio do também contraventor Alcebíades Paes Garcia, o Bid, irmão de Maninho. Bid foi morto em fevereiro de 2020, quando voltava do desfile das escolas de samba do rio na Marquês de Sapucaí.

Adilsinho, o bicheiro investigado por ao menos 20 crimes – A Polícia Civil do Rio investiga se ao menos 20 crimes estão ligados à atuação de um grupo de extermínio do contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Entre os crimes, estão homicídios, tentativas de assassinato e um sequestro. Adilsinho foi indiciado por suspeita de ser mandante dos homicídios de Marco Antônio Figueiredo Martins, homem de confiança do bicheiro Bernardo Bello, e seu segurança Alexsandro.
Adilsinho, que ocupa o cargo de presidente de honra da escola de samba Salgueiro, é considerado foragido da Justiça. Ele também é um dos suspeitos de envolvimento no atentado contra o bicheiro Vinícius Drumond, herdeiro do império deixado por Luizinho Drumond e seu antigo aliado. Adilsinho também é apontado como um dos chefes da máfia dos cigarros na Baixada Fluminense e foi alvo de uma operação que mirava rede de apostas supostamente ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa paulista.

Ex-fuzileiro suspeito de matar Jerominho – Após a prisão de Zinho, que se entregou à Polícia Federal em dezembro de 2023, a maior milícia do país ficou sob o domínio do ex-fuzileiro Paulo David Guimarães Ferraz Silva, conhecido como Naval devido ao seu passado militar. Ele assumiu o controle da milícia nas ruas após a morte de Rui Paulo Gonçalves Estevão, o Pipito, baleado em uma operação policial em junho de 2024. Pipito era apontado como homem de confiança de Zinho.
Conhecido pela postura violenta, Naval também é apontado como um dos suspeitos de envolvimento na morte do homem que fundou a milícia no fim dos anos 1990. O ex-policial civil Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, foi morto a tiros em uma ação gravada por câmeras de segurança na Zona Oeste do Rio em agosto de 2022. Condenado na Justiça a dez anos de prisão por formação de quadrilha, ele estava solto desde 2018.


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