Com ao menos 121 mortos, a megaoperação policial no Rio que figura entre as mais letais do mundo ocorreu em meio à expansão territorial do Comando Vermelho.

Levantamento exclusivo obtido pela Agenda do Poder com fontes ligadas à cúpula da PM indica que 1.015 territórios sob o domínio do poder paralelo pertencem à principal facção criminosa no Estado. É o equivalente ao 62,5% das favelas ligadas ao tráfico de drogas. Um índice que dobrou nos últimos dez anos, segundo o levantamento.

Imagem panorâmica do Complexo do Alemão, um dos QGs do Comando Vermelho na Zona Norte do Rio | Crédito: Reprodução

Em meio a esse avanço, outro dado indica a escalada da tensão entre o crime organizado e as forças policiais. O estudo mais recente do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF mostra que 40% dos confrontos com a polícia ocorre em áreas dominadas pelo tráfico. A pesquisa considerou dados de tiroteios registrados pelo Instituto Fogo Cruzado.

A denúncia do Ministério Público que desencadeou a ação no Complexo do Alemão e Penha, Zona Norte do Rio, revelou como a facção usava drones em ataques. E ordenava mortes e torturas por mensagens de WhatsApp. “Ninguém dá tiro sem ordem do Doca ou do Bala”, dizia uma das mensagens.

“Bala” é uma referência a Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala, um dos criminosos ligados à cúpula da facção. Mas é Edgar Alves de Andrade, o Doca, que passou a ser considerado como o inimigo número 1 do Estado.

Doca ou Urso, o criminoso mais procurado pelas forças de segurança do Rio | Crédito: Redes sociais

Líder do CV nas ruas, ele é apontado pelas autoridades como o responsável pela guerra no Rio, que tem auxiliado a facção a expandir o seu território. O Disque Denúncia agora oferece R$ 100 mil de recompensa por informações que levem à sua captura. É o maior valor oferecido pelo serviço desde Fernandinho Beira-Mar, há 25 anos.

Doca simboliza a expansão do CV em um paralelo traçado com uma outra notória ocupação de território no Alemão e Penha, área apontada como o QG da facção. Em meio ao projeto de pacificação das favelas do Rio, as forças de segurança ocuparam o território em uma ação sem maiores dificuldades, em novembro de 2010. 

O sociólogo Daniel Hirata, que coordena o Grupo de Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, diz que o problema não é apenas o enfrentamento do Comando Vermelho. “Em 2010, havia uma política pública das UPPs. Hoje, não. São apenas ações pontuais, letais e sem planejamento”. 

De fato, não houve forte resistência dos membros do Comando Vermelho em 2010. Imagens áreas rodaram o mundo na época mostrando um grupo de criminosos armados fugindo a pé pela Vila Cruzeiro, um dos redutos do tráfico. Agora, a realidade é bem diferente.

Mais corpos foram encontrados em área de mata após megaoperação policial no Alemão e Penha | Crédito: Ricardo Moraes / Reuters

‘Preparados para resistir’, compara ex-comandante das UPPs

Coronel da reserva da PM e ex-comandante das UPPs em meio ao período de pacificação, Robson Rodrigues traça um paralelo, lembrando da estratégia da operação policial de 2010. “Naquele momento, havia uma maior organização. O plano de ocupação já existia, e o objetivo era de recuperação de território, não era o confronto”.

Comando Vermelho tem um arsenal de armas de grosso calibre | Crédito: Redes sociais

O hoje antropólogo e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj diz que o Comando Vermelho tinha uma atuação mais voltada para o tráfico local na época. “A facção até tinha as suas rotas, mas não era o grande operador de drogas para outros estados e até para o exterior que se tornou”, compara.

Em expansão pelo país, o CV atua em 25 dos 27 estados brasileiros, segundo dados recentes. E tem expandido o seu território principalmente na Amazônia Legal, uma das principais rotas de tráfico internacional. Em dezembro de 2024, um estudo desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Mãe Crioula indicou que a facção carioca expandiu o seu domínio para 130 cidades da região. O índice mais que dobrou em um intervalo de apenas um ano, garantindo ao CV a hegemonia do tráfico naquele território.

Placa na RR-305, em Alto Alegre, Roraima, indica presença do Comando Vermelho na região | Crédito: Reprodução

Investigações indicam ainda que a maioria dos criminosos brasileiros envolvidos em negociações com traficantes colombianos no Norte e Nordeste do país são da facção carioca, em uma ação impulsionada nos últimos anos principalmente pela chegada de traficantes ligados ao CV em presídios federais nessas regiões.

Ainda que a ocupação policial no período da pacificação de 2010 tivesse sido avisada com antecedência, minimizando riscos de confrontos, há um outro fator que contrasta com a megaoperação mais leal do país: desta vez, o Comando Vermelho não estava mais disposto a entregar o seu território, avalia o antropólogo.

“É um território estratégico pela proximidade de vias expressas e da Zona Portuária. Mas tem uma questão simbólica e moral. A forma como o Comando Vermelho saiu em 2010 foi vexatória. E isso foi determinante para que depois voltassem de maneira mais violenta e preparados para resistir a qualquer nova tentativa de retomada”.

Robson Rodrigues, ex-comandante das UPPs

Ele cita ainda o aprimoramento do próprio poderio bélico. “O contexto mudou. Há novas tecnologias, novas estratégias e um território que o CV faz questão de manter”.

Um relatório da Polícia Civil indica que a facção criminosa estava investindo R$ 5 milhões com armamentos mensalmente.

Comando Vermelho treinando

‘CV mudou de patamar’, diz delegado

Autor do livro “Guerras, Líderes e Símbolos: A história das facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro”, o capitão Daniel Ferreira de Souza acompanhou todos os bastidores da megaoperação no setor de inteligência da PM, onde atua.

“O Comando Vermelho hoje está mais poderoso, porque tem mais armas e mais munição. Eles comandam um Estado paralelo com as suas próprias leis e com ainda mais sentimento de territorialidade”, diz.

Mais de 90 fuzis foram apreendidos na megaoperação / Crédito: Divulgação

Ex-secretário da Polícia Civil, o delegado Marcos Amim atuou na operação de ocupação do Complexo do Alemão, em 2010. Quinze anos depois, ele diz ver uma facção com um outro perfil. “O Comando Vermelho hoje tem armas de ponta, drones e engenharia militar para tentar impedir o avanço das tropas. Isso aumenta a letalidade”.

“O Comando Vermelho mudou de patamar. A facção deixou de atender só o mercado doméstico e está em expansão no Brasil e no exterior”.

Marcos Amim, delegado

Ele diz, ainda, que a quantidade de fuzis dobrou entre uma operação e outra. O delegado estima que existam cerca de mil armas de grosso calibre no QG do Comando Vermelho. Mais de 90 armas do tipo foram apreendidas na megaoperação ocorrida há três dias. Mas o impacto disso nas finanças da organização criminosa, que seria um importante prejuízo na década anterior, hoje é bem menos expressivo.

A estimativa da Polícia Civil do Rio é de que a facção criminosa movimente até R$ 1 bilhão por mês em negócios muito além do tráfico de drogas, que também envolvem empresas de fachada usadas para fazer a lavagem de dinheiro, fintechs e até criptomoedas.

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