Eles exibem fotos com fuzis ao som de funks de apologia ao crime, maços de dinheiro e são investigados por homicídios. A lista dos 121 mortos na megaoperação do Rio ocorrida há uma semana e apontada como uma das mais letais do mundo inclui líderes do Comando Vermelho na Bahia, Amazonas, Pará e Goiás.
E também são um reflexo da expansão territorial da facção criminosa, que se espalhou por todo o país nos últimos anos e hoje é chefiada por Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, apontado por fontes ligadas à Agenda do Poder como o líder invisível do CV pelo seu perfil discreto e com a experiência acumulada de quem passou mais de dez anos no Paraguai.
Um deles era o paraense Wesley Martins e Silva, 27, o Pepê, que fazia questão de ostentar a sua vida no mundo do crime em fotos e vídeos nas redes sociais. Apontado pelas autoridades como líder do CV no seu estado de origem, ele era investigado pelo assassinato de um policial militar ocorrido em novembro de 2024 em Belém, capital paraense.
Em uma dessas fotos, posou segurando dois fuzis em frente a uma parede com a imagem de um urso, em referência à Tropa do Urso, como são chamados os integrantes da quadrilha responsável por invadir favelas de facções rivais sob as ordens de Edgar Alves de Andrade, também conhecido como Doca ou Urso e apontado como o “homem de guerra” do CV em meio à expansão territorial da facção nos últimos meses.

Uma das imagens é exibida ao som de um funk citando “ódio à polícia”, tiros e enfrentamentos contra a milícia. Ele aparece com cordões de ouro no pescoço, maços de dinheiro e fazendo referência à “Tropa do Pará”.
Na lista divulgada pela Polícia Civil do Rio, havia 21 procurados por crimes cometidos em território paraense, a mais de 3.000 quilômetros de distância do local onde morreram. E, ainda assim, a quantidade mais numerosa de criminosos fora do Rio entre as vítimas fatais.
Entre eles, Lucas da Silva Lima, o LK, de 29 anos. Ele era apontado como um dos responsáveis pelos confrontos na Penha, onde acabou sendo morto. LK também era investigado pelas autoridades paraenses por suspeita de participação em assassinatos de policiais e em uma chacina. Os crimes investigados ocorreram entre 2019 e 2025.
‘Intercâmbio do crime’: o que dizem os especialistas
Igor Starling, promotor de Justiça no Amazonas, diz que o número de mortos de outros estados na megaoperação do Rio de Janeiro é um reflexo de uma política expansionista do Comando Vermelho, que passou a receber nos últimos anos membros da facção criminosa vindos de todo o país.
“Há uma ligação estreita entre o Rio de Janeiro e traficantes de outros estados do país, que ficam escondidos das autoridades nas favelas cariocas e fazem uma espécie de intercâmbio do crime. O objetivo de ir ao QG do Comando Vermelho é o de evitar prisões, mas também o de otimizar negócios, buscando uma aproximação da cúpula da facção”.
Igor Starling
Pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o sociólogo Rodrigo Chagas diz que essa expansão começou há ao menos dez anos, mas tem se intensificado. “A ascensão desses grupos é preocupante, e mostra realidades contrastantes. Na Amazônia, a facção tem explorado outras atividades criminosas, como a mineração ilegal. O CV hoje tem uma hegemonia na Amazônia Legal, se comparada ao PCC”, compara.

Na terceira edição do estudo “Cartografia das Violências na Amazônia”, divulgado em dezembro de 2024 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula, o levantamento indicou que havia 130 cidades na Amazônia Legal sob o domínio do CV.
O índice mais que dobrou em apenas um ano. Já o PCC manteve presença em apenas 28 municípios da região. Em expansão pelo país, o CV atua em 25 dos 27 estados brasileiros, segundo dados recentes.
“O Comando Vermelho mudou de patamar. A facção deixou de atender só o mercado doméstico e está em expansão no Brasil e no exterior”.
Marcos Amim, delegado e ex-secretário da Polícia Civil do Rio
Coronel da reserva da PM e ex-comandante das UPPs em meio ao período de pacificação, o hoje antropólogo Robson Rodrigues diz que a facção deixou de ter uma atuação local nos últimos anos. “O CV é o grande operador de drogas para outros estados e até para o exterior”.
“O Comando Vermelho hoje está mais poderoso, porque tem mais armas e mais munição. Eles comandam um Estado paralelo com as suas próprias leis e com ainda mais sentimento de territorialidade”, diz Daniel Ferreira de Souza, capitão da PM do Rio e autor do livro “Guerras, Líderes e Símbolos: A história das facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro”.

Amigo de Porcelana procurado por morte: os líderes do CV amazonense
Entre os mortos, também havia lideranças do CV amazonense. Francisco Myller Moreira da Cunha, conhecido como Gringo, 32, era considerado foragido pela Justiça do seu estado de origem quando um mandado de prisão foi expedido após a condenação a mais de 34 anos de prisão por homicídio e organização criminosa, em abril de 2024.
Ele e outras cinco pessoas foram acusadas de invadir uma casa para executar a tiros Samuel Paz de Andrade em meio a uma guerra entre facções rivais. Gringo também tinha anotações criminais por tráfico e porte ilegal de arma.

O criminoso foi homenageado por Evelyn Lorrany Nogueira de Lima, 23, conhecida como Porcelana, investigada por suspeita de envolvimento na fuga de quatro detentos do maior presídio de Roraima. “Descansa em paz, meu amigo. Você vai nos fazer muita falta”, escreveu nas redes sociais. Na semana passada, a Polícia Civil de Roraima deflagrou operação contra pessoas já identificados como responsáveis por prestar apoio financeiro e logístico aos fugitivos. Evelyn era um dos alvos, mas não foi encontrada.
O outro líder do CV no Amazonas morto na megaoperação da Polícia do Rio é Douglas Conceição de Souza, o Chico Rato, 32. Ele havia sido condenado a 40 anos de prisão pelo homicídio qualificado de dois irmãos, em dezembro de 2017 em Manaus, capital amazonense. Segundo a denúncia, as vítimas foram mortas por dívidas junto ao tráfico.
Investigado ainda por outros quatro assassinatos, Chico Rato chegou a ser preso meses depois da condenação, em março de 2018.

Conexão baiana do CV envolve circulação de drogas entre Rio e MG
Com 12 criminosos mortos, o CV baiano também aparece entre os que contam com o maior número de vítimas fatais de outros estados. Entre eles, há três lideranças: Danilo Ferreira do Amor Divino, o Mazola, 38; Fabio Francisco Santana Sales, o FB, 36; e Diogo Garcez Santos Silva, o DG, 31.
Além deles, um outro traficante baiano de destaque é Emerson Pereira Solidade, 26. Segundo as investigações, ele mantinha conexões diretas com os integrantes do CV no Rio.
E, da capital fluminense, coordenava um esquema de repasse de drogas e armas para a Bahia e também para Minas Gerais. Ele era investigado por homicídio, associação para o tráfico, tráfico e porte ilegal de armas.

Núcleo de Goiás mantém contatos no exterior
Fontes ligadas a investigações após a megaoperação do Rio indicam que o núcleo goiano do CV mantém contatos até mesmo fora do Brasil. Essas transações são chefiadas por Rafael Resende Ferreira, 31, o Panela, principal líder da cédula local. Ao menos sete goianos morreram em confrontos no Complexo do Alemão e Panha.
Entre eles, outras lideranças do grupo goiano, como Marcos Vinícius da Silva Lima, o Rodinha, 27; e Fernando Henrique dos Santos, o Periquito, 29. Assim como Panela, eles também são considerados pelas forças de segurança como criminosos de alta periculosidade.
A suspeita da Secretaria da Segurança Pública de Goiás é de que Periquito estava no Rio de Janeiro há cinco anos, quando rompeu a tornozeleira eletrônica que o monitorava.


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