O vácuo de poder deixado pelo PCC com a intensificação das ações da facção paulista no tráfico internacional impulsionou a expansão do Comando Vermelho pelo país. Um levantamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) indica que o processo de “nacionalização” do CV está diretamente relacionado à aposta do PCC no exterior.

O estudo indica a presença hoje da facção criminosa paulista em 28 países, com mais de dois mil membros. Em 2018, ela estava em 11 países e contava com a atuação de mil criminosos. “Tivemos acesso a um salve [comunicado do PCC], com a facção convocando membros que falassem espanhol para se proliferar para outros países. Com isso, o Comando Vermelho passou a ocupar espaços em áreas antes sob o domínio do PCC”, disse Pedro de Souza Mesquita, coordenador-geral de análise de conjuntura da Abin.

A estratégia do CV para buscar esses territórios foi o de construir alianças com grupos locais nos estados do Norte e Nordeste, em contraste com uma postura de maior hierarquia antes adotada pelo PCC.

“O CV começa a oferecer para esses grupos uma rede de acesso logístico a armas e drogas, em uma cadeia de comando muito mais descentralizada do que a facção paulista. E, a partir disso, o CV foi se proliferando”.

Pedro de Souza Mesquita, Abin

Com isso, o processo de expansão pelo país que começou em 2013 após o projeto de pacificação das favelas do Rio, foi acelerado, atingindo o seu ápice em 2024 com a atuação em todos os estados do país, segundo a agência.

Comando Vermelho se espalhou por todo o país, gerando uma série de conflitos armados contra rivais / Crédito: Reprodução

O assunto foi debatido nesta quarta-feira (05) pela Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência no Senado, em Brasília. “Os locais onde o PCC tem deixado de ocupar espaço no território brasileiro tem sido ocupado por outros grupos e gerado conflitos. O que mais preocupa é ver a ‘nacionalização’ da lógica fluminense. A gente tem confrontos de grupos organizados em todos os estados do Brasil, e todos eles envolvem o Comando Vermelho”, disse Mesquita.

Com essa expansão, o CV passou a cobrar até R$ 1 milhão por mês a lideranças de outros estados em troca de proteção nas favelas do Rio. Informações obtidas com exclusividade pela reportagem indicam que a prática é adotada há ao menos três anos. É uma espécie de intercâmbio do crime, que envolve recrutamento desses criminosos em confrontos contra facções rivais e apoio logístico envolvendo compra de drogas e armas.

CV deixou recado para moradores em meio ao plano de expansão de território no Rio / Crédito: Reprodução

Fontes em agências de Inteligência indicam que lideranças do crime organizado na mira das autoridades em seus estados de origem passaram a buscar refúgio em “bunkers do CV”. As áreas de destino costumam ser as favelas da Rocinha e do Complexo do Alemão, palco de uma das ações policiais mais letais do mundo.

“Esses criminosos chegam com estrutura logística para que possam tocar operações, mesmo à distância. E, nesse intercâmbio do crime, são recrutados para participar de invasões ou até de confrontos com a polícia”.

Daniel Ferreira de Souza, capitão da PM do Rio e autor do livro “Guerras, Líderes e Símbolos: A história das facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro”.

Esse movimento se intensificou após a implantação da chamada ADPF das Favelas, como é chamada a ação judicial que tramitou no STF para reduzir a letalidade policial e estabelecer regras em operações das forças de segurança nas comunidades do Rio de Janeiro.

Comando Vermelho domina o tráfico de drogas nas favelas do Rio / Crédito: Reprodução

Diversificação de negócios

Em meio a esse processo de nacionalização, o que tem preocupado é a diversificação do modelo de negócios do Comando Vermelho, que não envolve apenas drogas e armas. Todo o território ocupado pela organização criminosa hoje é explorado com cobranças de taxas a moradores e comerciantes.

“Drogas e armas representam uma parcela da lucratividade do crime organizado. Hoje, o dono de um posto de gasolina tem que competir com alguém que bate na porta e quer comprar o negócio dele apontando uma arma, usando o negócio para fazer a lavagem de dinheiro para financiar a compra do combustível. O caminho é inevitavelmente o avanço para a infiltração estatal e de usurpação de contratos públicos”.

Pedro de Souza Mesquita, Abin

Atuação da facção criminosa do Rio se espalhou pelo país / Crédito: Reprodução

Outro ponto preocupante para as autoridades envolve a grande quantidade de organizações criminosas. Segundo a Abin, hoje há 31 grupos criminosos que impactam contextos locais de segurança pública no país.

CV faz protesto contra megaoperação a 6.500 km do local das mortes

A megaoperação policial que matou 121 pessoas no Rio de Janeiro no dia 28 de outubro desencadeou protestos a mais de 6.500 quilômetros do local do confronto.

Na noite de 30 de outubro, protestantes atearam fogo em pneus e causaram o caos na Avenida Brasil em Manaus, em um dos redutos do Comando Vermelho na capital amazonense. Vídeos feitos por moradores mostram policiais acuados, enquanto tentam dispersar a multidão.

CV chefiou ato com pneus queimados em Manaus, a 6.500 km do local da megaoperação do Rio / Crédito: redes sociais

Entre as vítimas fatais da ação policial nas favelas cariocas, ao menos 21 eram do Amazonas. Alguns deles tinham antecedentes criminais e eram procurados pelas autoridades locais.

Salvador tem 30 assassinatos ligados à expansão do CV

Em Salvador, capital baiana, a polícia desencadeou uma operação contra o Comando Vermelho em meio a investigações de mais de 30 homicídios ocorridos desde janeiro de 2024 atribuídos à facção criminosa do Rio, que tem expandido a sua área de atuação para Salvador. E, para isso, deu início a uma guerra territorial sangrenta.

Polícia faz operação para investigar 30 mortes ligadas ao avanço do CV na capital baiana / Crédito: Polícia da Bahia

Entre os dias 19 e 20 de janeiro de 2024, quando essa investida começou a se intensificar, a facção criminosa foi responsável por ao menos cinco assassinatos. Esses criminosos têm circulado com fuzis à mostra a céu aberto e durante o dia, impondo um ambiente de terror aos moradores dos bairros onde atuam, principalmente no bairro Liberdade.

Com o auxílio da polícia de Ceará, os agentes conseguiram capturar Luis Lázaro Santana Alves, o LL, e a sua esposa, Marielle Silva Santos. O casal foi localizado nesta terça-feira em Eusébio, na região metropolitana de Fortaleza, capital cearense.

LL é apontado como o líder do CV na Bahia. Já Marielle é a responsável pela lavagem de dinheiro da organização criminosa, indicam as investigações.

Quem são os líderes de outros estados do CV mortos no Rio

Eles exibem fotos com fuzis ao som de funks de apologia ao crime, maços de dinheiro e são investigados por homicídios. A lista dos 121 mortos na megaoperação do Rio ocorrida há uma semana e apontada como uma das mais letais do mundo inclui líderes do Comando Vermelho na Bahia, Amazonas, Pará e Goiás.

E também são um reflexo da expansão territorial da facção criminosa, que se espalhou por todo o país nos últimos anos e hoje é chefiada por Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, apontado por fontes ligadas à Agenda do Poder como o líder invisível do CV pelo seu perfil discreto e com a experiência acumulada de quem passou mais de dez anos no Paraguai.

Morto em ação do Rio, Wesley Martins e Silva ostentava sua vida no mundo do crime em fotos e vídeos / Crédito: redes sociais

Um deles era o paraense Wesley Martins e Silva, 27, o Pepê, que fazia questão de ostentar a sua vida no mundo do crime em fotos e vídeos nas redes sociais. Apontado pelas autoridades como líder do CV no seu estado de origem, ele era investigado pelo assassinato de um policial militar ocorrido em novembro de 2024 em Belém, capital paraense.

Em uma dessas fotos, posou segurando dois fuzis em frente a uma parede com a imagem de um urso, em referência à Tropa do Urso, como são chamados os integrantes da quadrilha responsável por invadir favelas de facções rivais sob as ordens de Edgar Alves de Andrade, também conhecido como Doca ou Urso e apontado como o “homem de guerra” do CV em meio à expansão territorial da facção nos últimos meses.

Uma das imagens é exibida ao som de um funk citando “ódio à polícia”, tiros e enfrentamentos contra a milícia. Ele aparece com cordões de ouro no pescoço, maços de dinheiro e fazendo referência à “Tropa do Pará”.

Na lista divulgada pela Polícia Civil do Rio, havia 21 procurados por crimes cometidos em território paraense, a mais de 3.000 quilômetros de distância do local onde morreram. E, ainda assim, a quantidade mais numerosa de criminosos fora do Rio entre as vítimas fatais.

Entre os mortos, também havia lideranças do CV amazonense. Francisco Myller Moreira da Cunha, conhecido como Gringo, 32, era considerado foragido pela Justiça do seu estado de origem quando um mandado de prisão foi expedido após a condenação a mais de 34 anos de prisão por homicídio e organização criminosa, em abril de 2024.

Ele e outras cinco pessoas foram acusadas de invadir uma casa para executar a tiros Samuel Paz de Andrade em meio a uma guerra entre facções rivais. Gringo também tinha anotações criminais por tráfico e porte ilegal de arma.

O criminoso foi homenageado por Evelyn Lorrany Nogueira de Lima, 23, conhecida como Porcelana, investigada por suspeita de envolvimento na fuga de quatro detentos do maior presídio de Roraima. “Descansa em paz, meu amigo. Você vai nos fazer muita falta”, escreveu nas redes sociais. Na semana passada, a Polícia Civil de Roraima deflagrou operação contra pessoas já identificados como responsáveis por prestar apoio financeiro e logístico aos fugitivos. Evelyn era um dos alvos, mas não foi encontrada.

O outro líder do CV no Amazonas morto na megaoperação da Polícia do Rio é Douglas Conceição de Souza, o Chico Rato, 32. Ele havia sido condenado a 40 anos de prisão pelo homicídio qualificado de dois irmãos, em dezembro de 2017 em Manaus, capital amazonense. Segundo a denúncia, as vítimas foram mortas por dívidas junto ao tráfico.

Investigado ainda por outros quatro assassinatos, Chico Rato chegou a ser preso meses depois da condenação, em março de 2018.

Os baianos Danilo Ferreira, o Mazola (esq); Fabio Francisco Moreira Sales, o FB; e Diogo Garcez Santos Silva (dir) / Crédito: Reprodução

Com 12 criminosos mortos, o CV baiano também aparece entre os que contam com o maior número de vítimas fatais de outros estados. Entre eles, há três lideranças: Danilo Ferreira do Amor Divino, o Mazola, 38; Fabio Francisco Santana Sales, o FB, 36; e Diogo Garcez Santos Silva, o DG, 31.

Além deles, um outro traficante baiano de destaque é Emerson Pereira Solidade, 26. Segundo as investigações, ele mantinha conexões diretas com os integrantes do CV no Rio.

E, da capital fluminense, coordenava um esquema de repasse de drogas e armas para a Bahia e também para Minas Gerais. Ele era investigado por homicídio, associação para o tráfico, tráfico e porte ilegal de armas.

Rafael Resende Ferreira, o Panela (esq), e Marcos Vinícius da Silva Lima, o Rodinha (dir): lideranças do CV goiano / Crédito: Montagem

Fontes ligadas a investigações após a megaoperação do Rio indicam que o núcleo goiano do CV mantém contatos até mesmo fora do Brasil. Essas transações são chefiadas por Rafael Resende Ferreira, 31, o Panela, principal líder da cédula local. Ao menos sete goianos morreram em confrontos no Complexo do Alemão e Panha.

Entre eles, outras lideranças do grupo goiano, como Marcos Vinícius da Silva Lima, o Rodinha, 27; e Fernando Henrique dos Santos, o Periquito, 29. Assim como Panela, eles também são considerados pelas forças de segurança como criminosos de alta periculosidade.

A suspeita da Secretaria da Segurança Pública de Goiás é de que Periquito estava no Rio de Janeiro há cinco anos, quando rompeu a tornozeleira eletrônica que o monitorava.

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