O Comando Vermelho cobra até R$ 1 milhão por mês a lideranças de outros estados em troca de proteção nas favelas do Rio. Informações obtidas com exclusividade pela reportagem indicam que a prática é adotada há ao menos três anos. É uma espécie de intercâmbio do crime, que envolve recrutamento desses criminosos em confrontos contra facções rivais e apoio logístico envolvendo compra de drogas e armas.

Fontes em agências de Inteligência indicam que lideranças do crime organizado na mira das autoridades em seus estados de origem passaram a buscar refúgio em “bunkers do CV”. As áreas de destino costumam ser as favelas da Rocinha e do Complexo do Alemão, palco de uma das ações policiais mais letais do mundo.

Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, é apontado como o QG do Comando Vermelho / Crédito: Reprodução

Muitos deles vieram acompanhados por homens de confiança, incluindo seguranças e contadores, que integram a cadeia do crime.

“Esses criminosos chegam com estrutura logística para que possam tocar operações, mesmo à distância. E, nesse intercâmbio do crime, são recrutados para participar de invasões ou até de confrontos com a polícia”

Daniel Ferreira de Souza, capitão da PM do Rio e autor do livro “Guerras, Líderes e Símbolos: A história das facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro”.

Esse movimento se intensificou após a implantação da chamada ADPF das Favelas, como é chamada a ação judicial que tramitou no STF para reduzir a letalidade policial e estabelecer regras em operações das forças de segurança nas comunidades do Rio de Janeiro.

Megaoperação Policial nos Complexos do Alemão e Penha deixou 121 pessoas mortas / Crédito: Reprodução

Na prática, a medida restringiu operações, tornando esses territórios ainda mais favoráveis para o esconderijo de procurados pela Justiça, segundo fontes ouvidas pela Agenda do Poder. “No estado de origem deles, não existe lugar onde a polícia não possa entrar. De carona com a ADPF, as favelas do Rio se tornaram fortalezas impenetráveis, que funcionam como bunkers do crime”, disse Daniel Souza.

Igor Starling, promotor de Justiça no Amazonas, diz que a fuga de líderes do tráfico local para o Rio de Janeiro é uma das principais estratégias do crime organizado. “As favelas do Rio se tornaram uma zona de proteção para os criminosos de todo o país. É uma estratégia para que um criminoso visado em um estado passe despercebido”, diz.

Os números da megaoperação do Complexo do Alemão e Penha ilustram bem essa representatividade. Mais da metade dos 121 mortos vieram do CV de outros estados. E, entre os 99 presos, 29 também eram de fora do Rio de Janeiro.

Criminosos foragidos do Amazonas na lista de mortos em megaoperação do Complexo do Alemão / Crédito: Montagem

Quem eram os líderes mortos no Alemão e Penha

A Agenda do Poder mapeou líderes vindos do Pará, Amazonas, Bahia e Goiás, que figuram na lista dos 121 mortos e se enquadram nesse perfil. Mais da metade das vítimas fatais eram de outros estados.

Um deles era o paraense Wesley Martins e Silva, 27, o Pepê, que fazia questão de ostentar a sua vida no mundo do crime nas favelas do Rio em fotos e vídeos nas redes sociais.

Wesley posa em frente a parede em alusão à Tropa do Urso, como é chamado grupo armado de Doca / Crédito: redes sociais

Em uma dessas fotos, posou segurando dois fuzis em frente a uma parede com a imagem de um urso, em referência à Tropa do Urso, como são chamados os integrantes da quadrilha responsável por invadir favelas de facções rivais sob as ordens de Edgar Alves de Andrade, também conhecido como Doca ou Urso e apontado como o “homem de guerra” do CV em meio à expansão territorial da facção nos últimos meses.

Apontado pelas autoridades como líder do CV no seu estado de origem, ele era investigado pelo assassinato de um PM ocorrido em novembro de 2024 em Belém, capital paraense.

Gringo foi homenageado por Evelyn Lorrany, a Porcelana, que postou imagens ao lado do amigo / Crédito: redes sociais

Líder do CV amazonense, Francisco Myller Moreira da Cunha, o Gringo, 32, foi homenageado por Evelyn Lorrany Nogueira de Lima, 23, conhecida como Porcelana, investigada por suspeita de envolvimento na fuga de quatro detentos do maior presídio de Roraima. “Descansa em paz, meu amigo. Você vai nos fazer muita falta”, escreveu nas redes sociais.

Rafael Resende Ferreira, o Panela, principal líder do CV goiano, e Danilo Ferreira do Amor Divino, o Mazola, 38, que chefiava a facção na Bahia, também estavam na lista de mortos.

A expansão territorial do CV pelo país

O processo de expansão territorial do CV preocupa as autoridades em todo o país. Estudos indicam que a facção criminosa do Rio de Janeiro já tem células em 25 dos 27 estados brasileiros. Um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula indica que a facção criminosa já está presente em 130 cidades da Amazônia Legal, um índice que dobrou em apenas um ano, segundo o estudo.

O índice mais que dobrou em apenas um ano. Já o PCC manteve presença em apenas 28 municípios da região. Em expansão pelo país, o CV atua em 25 dos 27 estados brasileiros, segundo dados recentes.

Pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o sociólogo Rodrigo Chagas diz que essa expansão começou há ao menos dez anos, mas tem se intensificado. “A ascensão desses grupos é preocupante, e mostra realidades contrastantes. Na Amazônia, a facção tem explorado outras atividades criminosas, como a mineração ilegal. O CV hoje tem uma hegemonia na Amazônia Legal, se comparada ao PCC”, compara.

Operação da Polícia Civil contra o CV na Bahia

Uma operação em conjunto entre as polícias da Bahia e do Ceará nesta terça-feira (4) foi responsável pela prisão de mais de 30 suspeitos de integrar a facção criminosa, que tem sido responsável pela escalada da violência no Nordeste do país. Investigações indicam que a disputa por território do CV em Salvador, capital baiana, é responsável por mais de 30 homicídios de janeiro de 2024 para cá.

“São criminosos que praticam homicídios em vias públicas na guerra entre facções. Eles circulam com fuzis a céu aberto em meio à população, criando um ambiente de terror para os moradores”, disse o delegado Marcelo Calmon, do DHPP de Salvador.

“O Comando Vermelho mudou de patamar. A facção deixou de atender só o mercado doméstico e está em expansão no Brasil e no exterior”.

Marcos Amim, delegado e ex-secretário da Polícia Civil do Rio

Coronel da reserva da PM e ex-comandante das UPPs em meio ao período de pacificação, o hoje antropólogo Robson Rodrigues diz que a facção deixou de ter uma atuação local nos últimos anos. “O CV é o grande operador de drogas para outros estados e até para o exterior”.

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