Um homem apontado como um dos principais articuladores da fuga em massa em um presídio no interior baiano foi preso neste domingo (18) em Ilha Grande (RJ), a 2.200 km da ousada ação envolvendo troca de tiros com policiais penais em dezembro de 2024. Dois dias antes, um dos líderes do tráfico em Ilhéus (BA) acabou sendo capturado na Gardênia Azul, Zona Sudoeste do Rio. Com passagens pelas favelas do Rio, eles fazem parte de um universo de ao menos 60 presos de janeiro de 2025 para cá ligados ao Comando Vermelho (CV).
Levantamento feito pela Agenda do Poder rastreou criminosos capturados vindos principalmente de estados como Bahia, Pará e Ceará. Eles fazem parte do “Airbnb do crime”, que possibilita um intercâmbio entre criminosos da facção criminosa em todo o país.
O CV do Rio cobra até R$ 1 milhão por mês a lideranças de outros estados em troca de proteção nas favelas, em uma prática adotada há ao menos três anos. É uma espécie de intercâmbio, que envolve recrutamento desses criminosos em confrontos contra facções rivais e apoio logístico envolvendo compra de drogas e armas.

O levantamento constatou um novo reduto para esses criminosos vindos de outros estados: a Gardênia Azul, Zona Sudoeste do Rio. Uma das explicações é a de que o território foi recentemente tomado pelo CV da milícia e é ponto estratégico em disputas por território naquela região.
“Um fator importante é que as forças de segurança estão fazendo operações naquela região para dar um fim ao conflito entre a milícia e o CV. E, por isso, ocorrem mais prisões. Esses criminosos de outros estados estão vindo para o Rio para se esconder, mas também para ajudar nas ações de disputa por território”.
Delegado Marcos Amim, ex-secretário da Polícia Civil do Rio
Fontes em agências de Inteligência indicam que lideranças do crime organizado na mira das autoridades em seus estados de origem passaram a buscar refúgio em “bunkers do CV”. Além da Gardênia Azul, as áreas de destino costumam ser as favelas da Rocinha e do Complexo do Alemão. Aliás, mais da metade das prisões de criminosos vindos de outros estados de 2025 para cá ocorreram na megaoperação de 28 de outubro, que deixou ao menos 122 pessoas mortas, indica o levantamento feito pela reportagem com base em dados da Polícia Civil.

Esse movimento de migração de criminosos do CV procurados em outros estados vindos para o Rio se intensificou após a implantação da chamada ADPF das Favelas, como é chamada a ação judicial que tramitou no STF para reduzir a letalidade policial e estabelecer regras em operações das forças de segurança nas comunidades do Rio de Janeiro.
Na prática, a medida restringiu operações, tornando esses territórios ainda mais favoráveis para o esconderijo de procurados pela Justiça, tornando possível o “Airbnb do crime”, segundo fontes ouvidas pela Agenda do Poder. “No estado de origem deles, não existe lugar onde a polícia não possa entrar. De carona com a ADPF, as favelas do Rio se tornaram fortalezas impenetráveis, que funcionam como bunkers do crime”, disse Daniel Souza, autor do livro Guerras, Líderes e Símbolos: A história das facções criminosas e milícias do Rio de Janeiro.

Igor Starling, promotor de Justiça no Amazonas, diz que a fuga de líderes do tráfico local para o Rio de Janeiro é uma das principais estratégias do crime organizado. “As favelas do Rio se tornaram uma zona de proteção para os criminosos de todo o país. É uma estratégia para que um criminoso visado em um estado passe despercebido”, destaca.
A expansão territorial do CV pelo país
O processo de expansão territorial do CV preocupa as autoridades em todo o país. Estudos indicam que a facção criminosa do Rio de Janeiro já tem células em 25 dos 27 estados brasileiros. Um levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula indica que a facção criminosa já está presente em 130 cidades da Amazônia Legal, um índice que dobrou em apenas um ano, segundo o estudo.
O índice mais que dobrou em apenas um ano. Já o PCC manteve presença em apenas 28 municípios da região. Em expansão pelo país, o CV atua em 25 dos 27 estados brasileiros, segundo dados recentes.
Pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o sociólogo Rodrigo Chagas diz que essa expansão começou há ao menos dez anos, mas tem se intensificado. “A ascensão desses grupos é preocupante, e mostra realidades contrastantes. Na Amazônia, a facção tem explorado outras atividades criminosas, como a mineração ilegal. O CV hoje tem uma hegemonia na Amazônia Legal, se comparada ao PCC”, compara.
Coronel da reserva da PM e ex-comandante das UPPs em meio ao período de pacificação, o hoje antropólogo Robson Rodrigues diz que a facção deixou de ter uma atuação local nos últimos anos. “O CV é o grande operador de drogas para outros estados e até para o exterior”.
Cronologia das prisões
- 20 de fevereiro – A Polícia Civil prendeu ao menos quatro criminosos baianos em uma operação na favela da Mandela, em Manguinhos, Zona Norte do Rio. A operação foi feita em conjunto entre a Delegacia de Repressão a Entorpecentes e agentes da Bahia.
- 6 de março – A Polícia Civil prendeu um traficante baiano na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio. Ele estava foragido por suspeita de participação de um assassinato ligado a uma disputa entre facções no seu estado de origem. Ele era investigado por conduzir o veículo com os assassinos e garantir a fuga deles após a execução.

- 2 de maio – Famosa após viralizar em um vídeo ostentando fuzil em um baile funk na Penha, Zona Norte do Rio, Bianca Duarte Franco foi presa em Cabo Frio, Região dos Lagos. Ela era acusada de atuar como “RH do CV” por fazer o cadastramento de novos membros da facção.
- 14 de maio – Envolvidos em disputas por território na Zona Oeste do Rio, dois paraenses foram presos pela Polícia Civil. Investigações indicavam que eles faziam parte do núcleo envolvido em uma guerra por território entre o CV e a milícia na região. O grupo havia se estabelecido na Gardênia Azul após expulsar a milícia local.

- 15 de maio – Vinicius da Silva Abate, um traficante cearense que ostentava uma vida de luxo no Rio, foi preso pela Polícia Civil no Recreio dos Bandeirantes. Com ele, os agentes apreenderam sete carros de luxo. De acordo com as investigações, ele estava escondido na Favela da Rocinha, na Zona Sul, há ao menos dois anos. A Polícia Civil o acusa de chefiar uma guerra entre facções na cidade de Novo Oriente, interior do Ceará, que resultou em ao menos 15 assassinatos.
- 23 de maio – A Polícia Civil prendeu, em Magé, na Baixada Fluminense, um criminoso cearense conhecido como o “MC do Tráfico”. Segundo investigações, ele fazia apologia ao tráfico com as suas músicas, que exaltavam o poder bélico do grupo.
- 28 de maio – Um cearense foi capturado em Macaé (RJ). Segundo investigações, ele era um dos responsáveis pela comercialização de drogas no estado nordestino.
- 5 de junho – Um criminoso apontado como figura estratégica do CV em Salvador, capital baiana, foi preso em Rio das Ostras, Região dos Lagos. Segundo as investigações, ele estava no Rio há ao menos quatro anos. Mesmo à distância, ainda exercia a função de distribuição, armazenamento e transporte de drogas e armas.

- 7 de julho – Iago Santiago dos Santos, o Sábio, um dos líderes de um esquema de venda de drogas em Pernambuco e na Bahia, foi capturado em Bento Ribeiro, Zona Norte do Rio. Ele também era investigado por homicídios ligados ao crime organizado e fazia parte de um plano de expansão do grupo para o Rio, segundo a Polícia Civil. Investigações indicam que ele estaria envolvido em mais de dez homicídios.
- 14 de julho – Uma baiana ligada ao tráfico foi presa em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Ela era investigada por integrar um esquema de venda de drogas comandado pelo seu ex-companheiro, preso em 2008.

- 18 de julho – Cleiton Nonato Leal Brito, um dos principais líderes do CV no Pará, foi capturado pela Polícia Civil em um imóvel no Fallet-Fogueteiro, região central do Rio. Durante a operação, criminosos atacaram os investigadores, que conseguiram avançar no território e prender o traficante. Ele era apontado pelas forças policiais paraenses como um criminoso de alta periculosidade, investigado por homicídios e roubo.
- 14 de agosto – Um homem foragido da Justiça da Bahia por envolvimento com o tráfico de drogas foi capturado em Niterói, na Região Metropolitana do Rio.
- 22 de agosto – Apontado como um dos líderes do CV em Juazeiro do Norte, interior cearense, um traficante acabou sendo detido em uma operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Ele já havia sido condenado a 13 anos e 6 meses de prisão por tráfico de drogas e associação para o tráfico.
- 12 de setembro – Condenado por homicídio no Ceará, um traficante buscou refúgio no Rio. Mas acabou sendo preso enquanto se escondia em Taquara, Zona Oeste da capital fluminense.
- 16 de setembro – Foragida no seu estado de origem, uma traficante paraense foi capturada em um ônibus em deslocamento de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, para Juiz de Fora (MG). Segundo as investigações, ela estava escondida na favela da Rocinha, Zona Sul do Rio. Ela respondia por crimes de tráfico interestadual de drogas, comércio ilegal de armas de fogo e roubo.

- 29 de setembro – Um traficante paraense foi capturado após ser encontrado em uma área de mata na Gardênia Azul com drogas e radiotransmissores. No mês anterior, ele já havia sido levado para uma delegacia para prestar depoimento por suspeita de envolvimento com o crime organizado local. Na mesma ação, agentes também prenderam uma mulher apontada como o elo da facção criminosa paraense com o Rio. Nas redes sociais, Juliana Cristina Pinheiro dos Santos, conhecida como “Jhu do Pará”, ostentava fotos com fuzis e demonstrava ligação com o tráfico.
- 13 de outubro – Um dos líderes do tráfico em Ilhéus (BA) foi detido após ser localizado em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Segundo investigações da Polícia Civil, ele era um dos principais envolvidos em uma guerra entre facções rivais na sua área de atuação.

- 28 de outubro – Mais de 30 criminosos vindos de outros estados foram presos na megaoperação do Complexo do Alemão e da Penha, em uma ação que deixou ao menos 122 mortos na Zona Norte do Rio.
- 18 de novembro – Três goianos foram capturados em São Pedro da Aldeia (RJ). Com eles, os agentes encontraram pistolas e munições. Investigações indicam que eles eram os responsáveis pelo comércio de armas e drogas entre Goiás e Rio.
- 26 de dezembro – Escondido na Gardênia Azul, Zona Sudoeste do Rio, um traficante baiano acabou sendo preso ao ser localizado em um shopping na Barra da Tijuca.


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