A megaoperação policial no Complexo do Alemão e Penha, que deixou 121 pessoas mortas há três semanas no reduto do Comando Vermelho (CV) na Zona Norte do Rio, trouxe novos detalhes sobre a ligação da cúpula com criminosos responsáveis pela expansão da rota do tráfico internacional da facção.
Lançado nesta terça-feira (18) pelo Instituto Mãe Crioula, o relatório “Crime Organizado na Amazônia Paraense: dinâmicas e implicações sobre povos e comunidades tradicionais” revela um intercâmbio que começou em 2012 a partir da aliança com grupos locais na capital Belém. E, de lá para cá, possibilitou o domínio do CV do crime organizado na região.

Apontada como uma das operações policiais mais letais do mundo, a ação nas favelas do Rio matou 15 paraenses e resultou na prisão de outros seis. Mas há uma lista de ao menos outros 30 criminosos paraenses escondidos nas favelas do Rio, indica o relatório elaborado pelo Instituto Mãe Crioula.
Levantamento da Agenda do Poder identificou criminosos na lista dos mais procurados pelas autoridades paraenses nessa relação. Eles integram uma espécie de intercâmbio do crime, que paga até R$ 1 milhão por mês em troca de proteção nas favelas do Rio.
“O Rio se consolidou como aliado. Isso fez com que muitas lideranças do Pará passassem a buscar refúgio nas favelas cariocas. E, de lá, passaram a controlar o tráfico local, seguindo uma estrutura hierárquica de organização”.
Aiala Couto, diretor-presidente do Instituto Mãe Crioula
O relatório confirmou a existência desse tipo de dinâmica. “É do Rio de Janeiro que os chefes do CV do Pará mandam as suas ordens (…). As células são responsáveis por repassar quantias da ‘caixinha do crime’ para a matriz (…). O Rio de Janeiro se tornou o grande centro das decisões da atuação da facção no Brasil, onde a região amazônica passou a ter grande importância”, diz o documento.

Wesley Martins e Silva, 27, o Pepê, um dos mortos na megaoperação do Rio, estava nesse grupo. Ele fazia questão de ostentar a sua vida no mundo do crime em fotos e vídeos nas redes sociais. Apontado pelas autoridades como líder do CV no seu estado de origem, Pepê era investigado pelo assassinato de um policial militar em novembro de 2024 em Belém, capital paraense.
Em uma dessas fotos nas redes sociais, posou segurando dois fuzis em frente a uma parede com a imagem de um urso, em referência à Tropa do Urso, como são chamados os integrantes da quadrilha responsável por invadir favelas de facções rivais sob as ordens de Edgar Alves de Andrade, também conhecido como Doca ou Urso e apontado como o “homem de guerra” do CV.
“O Comando Vermelho mudou de patamar. A facção deixou de atender só o mercado doméstico. Hoje, está em expansão no Brasil e no exterior”.
Marcos Amim, delegado e ex-secretário da Polícia Civil do Rio

Rios, pistas clandestinas, estrutura de milícia e simbiose com crimes ambientais
A presença de criminosos paraenses nas favelas do Rio é apenas um dos indícios do relatório elaborado pelo Instituto Mãe Crioula indicando a expansão territorial do CV na Amazônia paraense em uma estratégia que começou em bairros periféricos da capital Belém para o varejo de drogas e em municípios afastados da Região Metropolitana.
Com o avanço para regiões rurais, o CV expandiu a sua atuação para áreas indígenas, quilombolas e ribeirinhas em um vácuo deixado pelo próprio Estado. Com isso, também passou a se envolver em crimes, como o garimpo ilegal, a grilagem de terras e a extração predatória de madeira, em uma simbiose entre o tráfico e os crimes ambientais.

“O CV passa a atuar na região amazônica com uma estrutura de milícia, cobrando taxa do crime e impondo uma estratégia de domínio territorial que inclui extorsão de dinheiro de comerciantes”, explica o pesquisador Aiala Couto, que também é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Com a conexão da rota do Rio Solimões, responsável por integrar Colômbia e Peru em uma das principais rotas de entrada de cocaína no país, o CV amplia a sua atuação nesse território. Mas a facção também ampliou as suas rotas passando a explorar, também, pistas clandestinas para fazer o transporte aéreo da droga, de acordo com o relatório.
Em 2025, foram registradas cinco grandes apreensões aéreas, totalizando parte das 1,7 tonelada apreendidas em aviões. O estudo indica, ainda, o uso de rodovias federais e estaduais para levar a droga a outros estados.
CV domina 78% de áreas sob o poder de facções, diz estudo
O relatório “Crime Organizado na Amazônia Paraense” indica que o CV dominava 57 dos 73 municípios sob o poder de facções criminosas na região em 2024. É o equivalente a 78% do total desse território, incluindo disputas contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) em Marabá, Parauapebas, Altamira e Rio Maria.
Em uma trajetória marcada por conflitos e alianças com grupos locais, o CV enfrentou o ápice dessa disputa no massacre no presídio de Altamira, que deixou 62 detentos mortos, em uma guerra contra o Comando Classe A, facção local que havia se aliado ao PCC.
“Este episódio não foi um evento isolado, mas um sintoma da violência extrema inerente à disputa pelo controle territorial e rotas de narcotráfico no estado (…). O CV atua com uma estratégia de franquia: o modelo de expansão territorial é baseado em um sistema de conexão da matriz, localizada no Rio de Janeiro, e suas células filiais”.
Trecho do relatório “Crime Organizado na Amazônia Paraense”
Para o pesquisador Aiala Couto, responsável pela organização do estudo, a expansão do CV à Amazônia paraense foi fundamental para o processo de expansão da facção criminosa pelo país nos últimos anos.
“O Pará se tornou estratégico para que o CV pudesse se espalhar pelo país. A perspectiva era ter acesso à rota do tráfico pela fronteira para depois atuar em conexão com outras atividades ilegais”, diz.


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