Banco Central prepara medidas após dívida das famílias encostar em recorde

Autoridade monetária demonstra preocupação com uso de modalidades mais caras de crédito e cobra maior cautela dos bancos na concessão de empréstimos

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O Banco Central prepara novas medidas para enfrentar os riscos provocados pelo elevado endividamento das famílias e pelo peso de modalidades de crédito mais caras no orçamento dos brasileiros. O movimento ocorre em meio ao aumento da inadimplência, ao comprometimento da renda e à manutenção dos juros em níveis considerados restritivos pela autoridade monetária.

A preocupação foi explicitada nesta quarta-feira (26) em comunicado do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef). O BC afirmou que está elaborando medidas para mitigar os riscos relacionados à participação significativa de modalidades mais onerosas na composição das dívidas familiares.

Apesar do alerta, o Banco Central não detalhou quais serão as novas regras nem informou quando elas entrarão em vigor.

Dados oficiais ajudam a explicar a preocupação. O endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda acumulada em 12 meses em maio. O patamar está próximo dos maiores níveis da série histórica. Em março, o indicador também estava em 49,8%, apenas 0,1 ponto percentual abaixo do recorde registrado em julho de 2022.

Crédito caro preocupa

O foco do Banco Central está especialmente nas modalidades consideradas emergenciais, que costumam apresentar custos maiores para os consumidores.

Em comunicado, a instituição afirmou que a elevada participação desses tipos de financiamento já vinha sendo tratada como ponto de atenção nas reuniões anteriores do Comef.

O objetivo das medidas, segundo o BC, será fortalecer a sustentabilidade do crédito e a capacidade do sistema financeiro de absorver eventuais problemas.

A autoridade monetária também chamou atenção para uma combinação considerada delicada: juros elevados, aumento da inadimplência, maior comprometimento da renda e endividamento das famílias.

Esse cenário, segundo o Banco Central, exige mais cuidado dos bancos tanto na avaliação da qualidade dos empréstimos concedidos quanto na disposição para assumir riscos.

Inadimplência sobe

Os números mais recentes divulgados pelo Banco Central mostram que a inadimplência da carteira total de crédito do Sistema Financeiro Nacional estava em 4,7% em junho, 1 ponto percentual acima do registrado 12 meses antes.

Entre as pessoas físicas, o índice chegou a 5,6%, alta de 1,2 ponto percentual em um ano. Considerando apenas o crédito com recursos livres destinado às famílias, a inadimplência alcançou 7,6%.

O Banco Central também vinha registrando aumento do custo de diferentes modalidades. Em abril, por exemplo, a taxa média do crédito livre destinado às pessoas físicas alcançou 63% ao ano.

O que pode mudar?

O BC ainda não anunciou uma alteração específica para consumidores, como novos limites para empréstimos ou mudança nas taxas cobradas.

A discussão está concentrada, neste momento, nas chamadas medidas macroprudenciais. Elas são instrumentos usados pelo Banco Central para reduzir riscos no sistema financeiro e evitar que instituições ampliem excessivamente suas operações sem reservas adequadas para possíveis perdas.

Na abertura da Febraban Tech, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a instituição trabalha para que os bancos estejam devidamente preparados para o risco assumido na concessão de crédito.

Segundo Galípolo, o objetivo é evitar que instituições cresçam artificialmente ao assumir riscos excessivos sob a expectativa de que eventuais prejuízos não permaneçam em seus próprios balanços.

Bancos estão preparados

Mesmo diante do aumento do endividamento e da inadimplência, o Comef avalia que o Sistema Financeiro Nacional continua preparado para enfrentar uma eventual materialização do risco de crédito.

De acordo com o BC, os bancos mantêm níveis adequados de provisões para perdas, liquidez e capital.

A recomendação, entretanto, é para que as instituições mantenham uma gestão prudente diante das incertezas econômicas.

O Banco Central também acompanha riscos externos, incluindo as políticas monetária e fiscal das economias avançadas, mudanças nas políticas comerciais, oscilações dos ativos financeiros internacionais e tensões geopolíticas.

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