Renda do trabalho segue perto da máxima histórica e acumula alta de 13% desde 2022

Ganhos continuam acima dos registrados em anos anteriores, mas inflação, juros elevados e desaceleração da economia começam a limitar o avanço dos salários

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Depois de uma sequência de avanços que levou a renda do trabalho ao maior nível da série histórica, o mercado brasileiro começou a mostrar sinais de perda de fôlego, informa a Folha de S. Paulo. O rendimento médio dos trabalhadores permanece elevado em 2026, mas recuou nos meses seguintes ao recorde registrado em março, indicando uma possível acomodação em meio à desaceleração da economia e aos efeitos dos juros altos.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o rendimento médio real chegou a R$ 3.795 mensais no trimestre encerrado em março. Depois disso, passou para R$ 3.776 em abril, R$ 3.743 em maio e R$ 3.738 no trimestre terminado em junho.

A pesquisa considera o rendimento real habitualmente recebido em todos os trabalhos, já descontados os efeitos da inflação. A série histórica teve início em 2012.

Apesar da perda de força nos últimos meses, o nível atual continua acima do observado em anos anteriores. No trimestre encerrado em junho, a renda média de R$ 3.738 representou crescimento de 2,8% diante dos R$ 3.635 registrados no mesmo período de 2025.

Crescimento perde velocidade

O avanço anual, contudo, vem diminuindo. Nos trimestres encerrados em junho, a renda havia crescido 3,3% em 2025, 5,7% em 2024 e 6,2% em 2023. A sequência reforça a avaliação de economistas de que os ganhos continuam ocorrendo, mas em velocidade menor.

“O ano de 2026 ainda é positivo para a renda, mas menos do que os últimos. É um cenário de desaceleração, de crescimentos menores. A perspectiva daqui para frente é de uma certa acomodação”, diz à Folha o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence.

Desde o início do terceiro mandato do presidente Lula (PT), o rendimento médio do trabalho acumula alta de quase 13%. No último trimestre de 2022, ainda durante o governo Jair Bolsonaro (PL), a renda média estava em R$ 3.310. Em junho deste ano, alcançou R$ 3.738.

A comparação também precisa levar em consideração as condições econômicas distintas entre os dois períodos. No fim de 2022, o mercado de trabalho ainda atravessava um processo de recuperação dos efeitos provocados pela pandemia. O menor rendimento de toda a série da Pnad foi registrado no trimestre encerrado em dezembro de 2021, quando chegou a R$ 3.061.

Nos anos seguintes, a recuperação da atividade econômica e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ampliaram a procura por trabalhadores e contribuíram para pressionar os salários para cima. O governo Lula também adotou medidas destinadas a elevar a renda, entre elas a política de reajustes do salário mínimo acima da inflação.

Inflação reduz força dos ganhos

A inflação aparece agora entre os fatores que ajudam a explicar a interrupção da trajetória de recordes. Para o economista André Valério, do banco Inter, a pressão sobre os preços observada a partir de março pode ter dificultado a manutenção dos ganhos reais.

“Isso passa um indicativo de que o trabalhador não teve força suficiente para recompor as perdas [inflacionárias]. É um princípio de sinal de perda de dinamismo do mercado de trabalho. A renda estava crescendo na comparação ano contra ano consistentemente”, disse ele à Folha.

Bruno Imaizumi também aponta a inflação como uma das razões para a acomodação. Outro fator estaria relacionado à mudança na composição do mercado de trabalho. A entrada de profissionais que normalmente recebem remunerações menores, como trabalhadores informais por conta própria, pode reduzir o rendimento médio mesmo quando o número de pessoas ocupadas continua elevado.

Os números passaram a ganhar peso também no debate político às vésperas das eleições de outubro. Aliados de Lula destacam o crescimento da renda e a melhora do mercado de trabalho durante o atual mandato. A oposição, por outro lado, chama atenção para o endividamento das famílias e para as preocupações relacionadas à situação das contas públicas.

Juros altos devem pesar sobre mercado de trabalho

A perspectiva dos economistas é de que a economia continue perdendo velocidade nos próximos meses, especialmente sob o impacto dos juros elevados utilizados para conter a inflação. A desaceleração tende a chegar gradualmente ao mercado de trabalho, embora os analistas não projetem, neste momento, uma deterioração repentina dos indicadores.

Na avaliação de André Valério, o cenário mais provável é de ganhos menores, e não necessariamente de uma queda acentuada da renda:

“Em relação à renda, a gente espera que continue mais ou menos nesse patamar que a gente tem visto, com essa perda de força na margem, mas ainda crescendo.”

Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV Ibre, avalia que ainda são necessários novos dados antes de concluir que houve uma mudança definitiva de tendência no mercado de trabalho. Os números recentes de salários indicam a possibilidade de enfraquecimento, mas ainda não permitem afirmar que o movimento esteja consolidado.

O pesquisador também destaca que fatores estruturais contribuíram para o aumento da renda ao longo da série histórica. Entre eles está o avanço da escolarização da população brasileira nas últimas décadas, que ajudou a elevar a qualificação dos trabalhadores e, consequentemente, seus rendimentos.

Com a economia caminhando para um período de crescimento mais moderado, os próximos resultados da Pnad serão importantes para mostrar se a renda apenas interrompeu temporariamente a sequência de recordes ou se o mercado de trabalho brasileiro entrou em uma fase mais prolongada de desaceleração.

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