A determinação de uma ampla auditoria na máquina pública estadual do Rio de Janeiro colocou a Controladoria-Geral do Estado (CGE) diante de um dos maiores desafios recentes de fiscalização. Segundo reportagem do jornal O Globo, o órgão deverá receber nas próximas semanas um volume expressivo de documentos para análise em um prazo de apenas 45 dias, em meio a uma varredura que alcança contratos, licitações e a estrutura de pessoal do governo.
O levantamento inclui 6.758 contratos ativos com valores superiores a R$ 1 milhão, além de 13.615 procedimentos realizados sem licitação ao longo dos últimos 12 meses. A iniciativa faz parte de um pente-fino determinado pelo governador em exercício Ricardo Couto, com o objetivo de identificar possíveis irregularidades em contratações firmadas durante a gestão anterior.
A auditoria também se estende à folha de pagamento. Dados preliminares indicam que, nos últimos cinco anos, o número de cargos comissionados — ocupados por indicados políticos — cresceu 47%, enquanto o total de servidores concursados apresentou queda.
Mudança de comando e primeiras medidas
Ricardo Couto assumiu o comando do estado na noite de 23 de março, após a renúncia de Cláudio Castro. Nos primeiros dias, o novo chefe do Executivo aguardou antes de promover alterações mais amplas, mas iniciou sua gestão com exonerações de nomes ligados ao antigo governo.
Na sequência, publicou um decreto determinando a auditoria geral e estabelecendo restrições à abertura de novas licitações, ao mencionar o cenário de déficit previsto nas contas estaduais para este ano.
Obras emergenciais entram no radar
Antes mesmo da formalização da auditoria, a equipe do novo governo identificou um aumento na publicação de editais de licitação, especialmente no Departamento de Estradas e Rodagens (DER). O órgão lançou nove contratações que somam R$ 418,5 milhões, sendo seis classificadas como emergenciais.
Entre essas iniciativas estão intervenções em encostas de rodovias e obras de pavimentação em diferentes regiões do estado. Parte desses projetos foi acelerada logo após a saída de Castro, em um contexto em que já havia sinalização de contenção de despesas por parte da nova gestão.
As obras emergenciais foram organizadas em três lotes que ultrapassam R$ 188 milhões. Relatórios internos do próprio órgão apontam que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) estabelece critérios rigorosos para esse tipo de contratação, justamente para evitar as chamadas “emergências fabricadas”.
Justificativa do DER
Em nota oficial, o DER afirmou que as “contratações emergenciais estão relacionadas a intervenções necessárias para atender a demandas imprevisíveis, especialmente após os impactos das chuvas em diversas rodovias estaduais, que comprometem a segurança dos usuários”.
O órgão acrescentou que mantém, paralelamente, processos regulares de contratação e que esses devem substituir os contratos emergenciais assim que forem concluídos. Segundo o DER, todas as iniciativas estão “em conformidade com o decreto do governador em exercício”.
Disputa política e impacto eleitoral
Parte das obras anunciadas contempla municípios considerados estratégicos do ponto de vista político. Entre eles estão Itaboraí e São Gonçalo, além de Nova Iguaçu, importante colégio eleitoral do estado.
No caso de Nova Iguaçu, duas licitações foram abertas, incluindo um projeto de ligação viária e outro voltado à implantação de ciclovia e requalificação urbana. Um dos processos, iniciado ainda em 2025, teve tramitação acelerada nas semanas que antecederam a saída de Castro.
As decisões envolvendo o DER ocorrem em meio a disputas políticas recentes pelo controle do órgão, intensificadas após mudanças no comando da Assembleia Legislativa.
Crescimento de comissionados chama atenção
Outro eixo central da auditoria é a estrutura de pessoal do estado. Dados oficiais mostram que o número de servidores concursados caiu de 165.866 para 153.830 entre 2021 e 2026, uma redução de 7,5%.
Em sentido oposto, os cargos comissionados cresceram de 9.698 para 14.340 no mesmo período, com aumento significativo também nos gastos — de R$ 36 milhões para R$ 85,9 milhões.
A redução de concursos públicos é apontada como um dos fatores para esse cenário, já que o estado opera sob regras de contenção fiscal. Ainda assim, seleções foram realizadas em áreas específicas, como segurança pública e órgãos de controle.
O economista André Luiz Marques avalia que o impacto financeiro direto desses cargos não é o principal problema, mas sim suas implicações administrativas.
“Esse é um mecanismo de trazer pessoas do seu grupo (de Castro) para dentro do governo. De onde essas pessoas estejam, elas podem gerar um impacto gerencial importante. Então, onde eles estão ou estavam é mais importante que a quantidade”, disse.
Reorganização interna e mudanças no governo
A implementação da auditoria provocou intensa movimentação nas sedes administrativas do estado. Equipes técnicas passaram a reunir dados e documentos para atender às exigências do novo decreto.
No Palácio Guanabara, houve reuniões entre integrantes da atual e da antiga gestão, enquanto mudanças no primeiro escalão seguem em curso. Uma das mais recentes foi a confirmação de um novo presidente para a Cedae, após decisão do Conselho de Administração da estatal.
Enquanto isso, Ricardo Couto mantém sua rotina dividida entre as funções no Executivo estadual e suas atividades no Tribunal de Justiça, acumulando responsabilidades em um momento de transição política e administrativa.






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