Zé Pelintra: quem é o malandro misterioso homenageado no Rio em 7 de Julho?

Figura icônica dos terreiros e das ruas, Zé Pelintra é celebrado no Rio de Janeiro como símbolo da malandragem, proteção espiritual e resistência cultural dos mais pobres

Zé Pelintra, o malandro de terno branco, gravata vermelha e chapéu de feltro, tem um dia especial para chamar de seu no Rio de Janeiro: 7 de julho. A data já integra o calendário da cidade desde 2022, quando foi sancionada a Lei nº 7.549, que institui o Dia do Zé Pelintra, celebrando uma das figuras mais enigmáticas da religiosidade popular brasileira.

Apesar de sua origem não ter uma versão definitiva, a história mais difundida entre estudiosos e praticantes é a de que Zé Pelintra teria nascido em Pernambuco, no final do século XIX, e migrado para o Rio de Janeiro no início do século XX, em plena efervescência cultural da então capital do país. Lá, teria vivido nas ruas, nos bares e nos cabarés, sobrevivendo pela esperteza — a malandragem — que o consagrou como uma entidade respeitada entre os pobres e marginalizados.

Com a morte, Zé Pelintra teria se “encantado”, termo religioso usado para designar espíritos que ascendem à condição de guia espiritual. Desde então, ele passou a integrar a Linha dos Malandros, sendo cultuado tanto na Umbanda quanto no Catimbó, como uma entidade de luz que protege, cura e orienta os desvalidos.

Conhecido como “advogado dos pobres” e “orixá da traquinagem e da diversão”, Zé é também considerado patrono dos bares, casas de jogo e das sarjetas — locais onde a vida pulsa longe da ordem oficial. Seu símbolo vai além da figura do malandro: representa resistência, acolhimento e a sabedoria dos que vivem à margem.

Um autêntico carioca

O babalaô Ivanir dos Santos explica que apesar da origem nordestina, no Rio de Janeiro Zé Pelintra se sente em casa e a identificação foi imediata.

“Zé Pelintra é uma entidade do Timbó e da cantaria do nordeste. É muito comum no culto do catimbó e da cantaria e acabou vindo para o Rio de Janeiro, onde se adaptou muito bem, já que a malandragem é uma das marcas registradas do carioca. Ele é uma espécie de ‘Zé Carioca’, muito popular e reverenciado pelos umbandistas e foi ele que uniu o catimbó nordestino com a umbanda carioca”, explica Ivanir.

Outra particularidade apontada por Ivanir são as semelhanças com São Jorge, o santo mais cultuado pelos cariocas, e com o Carnaval. Por isso, ele destaca a importância de se ter uma data oficial para comemorar o Dia do Zé Pelintra

“O Rio e o Brasil são muito diversos, tanto no ponto de vista religioso como no cultural. Com tantas datas religiosas, como a Marcha Para Jesus, o Dia da Bíblia, é muito digno ter de todas as religiões, como é o caso do Dia do Zé Pelintra. É uma importante ferramenta no combate à intolerância religiosa. As duas maiores festa populares do Rio são o Réveillon, criado pelos umbandistas, e o Carnaval. Seu Zé é cantado nas escolas de samba. Além disso, ele tem uma ligação muito forte com São Jorge e muitas pessoas fazem essa referência. Está no jeitinho carioca de ser”, explica o babalaô.

Origem

Zé Pelintra é muito mais do que um personagem de terno branco e chapéu panamá. Conhecido como o “advogado dos pobres”, essa figura enigmática transita entre o sagrado e o profano, sendo reverenciado em terreiros de Umbanda, cultuado no Catimbó e respeitado nas ruas e nos bares das grandes cidades brasileiras.

A origem de Zé Pelintra está no Catimbó, uma tradição sincrética nascida no Nordeste do Brasil, onde é reconhecido como um “mestre juremeiro”. No entanto, foi na Umbanda que ele ganhou projeção nacional, tornando-se chefe da linha dos Malandros — espíritos que representam a esperteza e a resistência das classes populares.

Com roupas elegantes, geralmente um terno branco com gravata vermelha e sapatos bicolores, Zé Pelintra é facilmente identificado por seu estilo único. Ele carrega uma bengala, fuma cigarro ou cachimbo, e aprecia bebidas como a cerveja clara. Mas não se engane com sua aparência de boêmio: ele é tido como uma entidade de luz, que trabalha em nome da caridade, ajudando em questões de saúde, negócios, problemas familiares e proteção espiritual.

A lei do malandro

Embora incorpore em giras de exus ou pretos-velhos, Zé Pelintra não pertence diretamente a essas linhas. Sua atuação é própria e carregada de simbolismo — ele representa o malandro que resiste, mas que também protege, aconselha e defende os oprimidos. É por isso que muitos o veem como um símbolo da cultura negra e marginalizada, alvo de preconceitos, mas profundamente enraizado na fé popular brasileira.

Com forte presença nas capitais do Sudeste, como Rio de Janeiro e São Paulo, seu culto também é vivo no Nordeste, especialmente entre praticantes do Catimbó.

Muito além de uma figura mítica, Zé Pelintra encarna um Brasil profundo: malandro, mas justo; festeiro, mas sábio; marginalizado, mas essencial. E como ele mesmo diria: “Comigo ninguém pode, mas com respeito todo mundo pode chegar.”

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro reconheceu em 2022 esse papel cultural ao criar o dia comemorativo.

“Foi um revolucionário ao dar novo significado para a arte dos menos favorecidos, que era marginalizada”, declarou a Casa Legislativa em nota oficial à época.

A celebração no Rio reflete não só a fé de muitos devotos, mas também a importância histórica e cultural de Zé Pelintra como ícone de uma brasilidade irreverente, combativa e espiritualmente rica. Nas ruas, nos terreiros ou nas homenagens oficiais, Zé Pelintra segue vivo — e malandro como sempre.

Santuário no coração da Lapa

O lugar não poderia ser mais nobre. Em meio aos arcos, calçadas gastas e bares lotados da Lapa, Zé Pelintra ecoa entre goles de cachaça, fumaça de cigarro e batidas de tamborim: O malandro de terno branco e gravata vermelha ganhou um espaço sagrado no centro do Rio de Janeiro: o Santuário de Seu Zé Pelintra.

Localizado aos pés da Ladeira de Santa Teresa, o pequeno templo é uma referência de fé e resistência urbana. O espaço atrai não apenas devotos, mas também sambistas, capoeiristas, artistas e todos os que reconhecem em Zé Pelintra um símbolo de proteção, astúcia e sabedoria das ruas.

A história do santuário se confunde com a da própria Lapa. Berço da boemia carioca, o bairro sempre foi palco de personagens à margem, de figuras lendárias como Madame Satã, Meia-Noite e a Dama do Cabaré. Nesse cenário de contradições e encantos, Zé Pelintra surge como o protetor dos desvalidos, o conselheiro dos injustiçados, o santo de quem não cabe nos moldes tradicionais da religiosidade.

No santuário da Lapa, é possível ver oferendas, velas acesas, imagens, flores e muito axé. Mas mais do que elementos litúrgicos, o espaço representa um território de pertencimento e liberdade espiritual. Em tempos de intolerância religiosa e criminalização das culturas de matriz africana, a casa de Zé Pelintra também cumpre um papel político e social.

Não à toa, o local se tornou ponto de peregrinação para quem busca proteção, bons conselhos ou apenas um momento de paz. No templo, fé e malandragem coexistem — como o próprio Rio de Janeiro, que entre santos e pecadores, segue encantando com sua mistura de luta e beleza.

Segundo Fábio Feliciano, um dos presidentes do santuário – sim, o malandro precisa mais de um para dar conta do recado -, cerca de cinco mil pessoas são esperadas hoje e amanhã, muitas delas vindas em caravanas de outros estados.

“Pelo Rio de Janeiro ser considerada a terra dos malandros, as pessoas passaram a vir aqui para celebrar Zé Pelintra. É uma festa que impacta muito inclusive no turismo, pois estamos recebendo pessoas de diversos estados. Aqui no santuário nós não promovemos apenas o culto ao Zé Pelintra e a preservação do espaço, como também realizamos muitos eventos sociais e culturais, onde promovemos rodas de conversa, sua cultura histórica, litúrgica, não só do Zé Pelintra, mas de outros malandros também”, conta.

É no santuário que Zé Pelintra vai ganhar uma homenagem digna de sua importância. Neste domingo (6), a partir das 20h, acontece a tradicional Gira Nacional de Zé Pelintra, na praça, o ponto alto da festa, antecipado por conta do encontro do Brics que está sendo realizado no Rio. Na segunda (7), dia oficial da comemoração, com realização de encontros religiosos e sagrados, muito samba, apresentações artísticas e movimentos urbanos, para fortalecer a fé e a devoção ao mestre e à malandragem.

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