Vitória da Espanha é comemorada em Gaza e Lamine Yamal é exaltado por apoiar a causa palestina

Comemorações em Gaza e na Cisjordânia ocupada reuniram torcedores em ruas e telões improvisados e refletiram a identificação de parte da população palestina com o governo espanhol e com gesto de apoio do jovem atacante

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A conquista da Copa do Mundo pela Espanha foi comemorada muito além das fronteiras do país europeu. Neste domingo (19), milhares de palestinos celebraram a vitória espanhola nas ruas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia ocupada, em uma manifestação que ultrapassou o aspecto esportivo e ganhou forte significado político e simbólico.

Segundo a emissora Al Jazeera, moradores acompanharam a decisão da Copa em telões improvisados, cafés, centros comunitários, pequenos estádios e espaços públicos. Após o apito final da vitória por 1 a 0 sobre a Argentina, na prorrogação, com gol de Ferran Torres, torcedores ocuparam ruas e praças exibindo bandeiras da Espanha e da Palestina.

As comemorações ocorreram em meio às dificuldades enfrentadas pela população palestina em decorrência do genocídio e da ocupação israelense. Para muitos dos presentes, a conquista espanhola foi interpretada como uma demonstração de apoio de um país cujo governo adotou posições favoráveis à causa palestina nos últimos anos.

Lamine Yamal tornou-se referência para moradores de Gaza

Embora Ferran Torres tenha marcado o gol do título, um dos personagens mais celebrados entre os palestinos foi Lamine Yamal. O atacante de 19 anos, destaque da campanha espanhola, passou a ser visto por parte da população de Gaza como um símbolo de solidariedade após um gesto realizado meses antes do Mundial.

Em maio deste ano, durante a comemoração do título espanhol conquistado pelo Barcelona, Yamal apareceu sobre o ônibus da equipe segurando uma grande bandeira da Palestina diante de milhares de torcedores.

As imagens rapidamente ganharam repercussão internacional e chegaram à Faixa de Gaza, onde passaram a circular amplamente nas redes sociais. O episódio levou artistas palestinos a produzirem um mural em homenagem ao jogador.

A pintura foi feita sobre os escombros de prédios destruídos pela guerra no campo de refugiados de Shati, também conhecido como Beach Camp, na Cidade de Gaza. A obra retrata o atacante segurando a bandeira palestina e tornou-se um símbolo de agradecimento de parte da população local.

Mensagens de apoio emocionaram moradores

A homenagem provocou uma onda de manifestações nas redes sociais. Um dos depoimentos de maior repercussão foi publicado pelo estudante palestino Muhammed Akram.

“Para alguns, pode parecer um gesto simples, mas aqui em Gaza, ele toca o coração de maneiras que as palavras não conseguem descrever. Obrigado, Lamine Yamal. De Gaza, você é mais amado do que imagina.”

Outro relato amplamente compartilhado foi escrito pelo estudante Haitham el-Masri, que descreveu a emoção provocada pelas imagens.

“Apenas 14 segundos… mas foram suficientes para me fazer chorar.”

Na sequência, acrescentou:

“Não consigo descrever completamente o que sentimos ao ver pessoas que ainda têm a coragem de dizer a verdade e de se posicionar ao lado de um povo que sofre um dos genocídios mais horríveis da história moderna. Agradecemos a todos que nos apoiaram, a todos que falaram por nós, a todos que se recusaram a ficar em silêncio e escolheram a humanidade.”

Após a comemoração do Barcelona, Yamal publicou em seu perfil no Instagram uma fotografia segurando a bandeira palestina. A postagem recebeu milhões de curtidas e milhares de comentários, incluindo uma mensagem do escritor e poeta palestino Mosab Abu Toha.

“Nós te amamos, de Gaza”, escreveu.

Comemorações tomaram ruas de Gaza e da Cisjordânia

Segundo a Al Jazeera, famílias inteiras acompanharam a final da Copa reunidas em locais públicos, utilizando telas improvisadas para assistir à partida.

Depois da conquista espanhola, moradores saíram às ruas levando bandeiras da Espanha e da Palestina. Imagens registraram crianças comemorando, torcedores reunidos em praças e famílias celebrando em meio às limitações impostas pelo conflito.

Para parte dos palestinos, a identificação com a Espanha vai além do futebol. O governo espanhol tem defendido publicamente o reconhecimento do Estado palestino, manifestado críticas às operações militares de Israel em Gaza e cobrado maior atuação internacional em favor de um cessar-fogo.

Nesse contexto, a vitória espanhola foi interpretada por muitos como uma conquista que representava também o apoio demonstrado pelo país europeu à causa palestina.

Pedro Sánchez saiu em defesa do jogador

A repercussão do gesto de Lamine Yamal também alcançou o cenário político espanhol.

Após críticas feitas pelo ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, utilizou a rede social X para defender o atacante.

“Aqueles que consideram que hastear a bandeira de um Estado é ‘incitar ao ódio’ ou perderam o juízo ou foram cegados pela própria ignomínia.”

Na mesma publicação, Sánchez acrescentou:

“Lamine apenas expressou a solidariedade com a Palestina que milhões de nós, espanhóis, sentimos. Mais um motivo para nos orgulharmos dele.”

Antes disso, Israel Katz havia criticado publicamente a atitude do jogador.

“Como ministro da Defesa do Estado de Israel, não ficarei em silêncio diante da incitação contra Israel e contra o povo judeu”, declarou.

Em seguida, afirmou:

“Espero que um clube grande e respeitado como o FC Barcelona se desmarque dessas declarações e deixe claro, de forma inequívoca, que não há lugar para a incitação nem para o apoio ao terrorismo.”

Barcelona evitou ampliar a controvérsia

No clube catalão, o episódio foi tratado com maior cautela.

O técnico Hansi Flick confirmou que conversou com Yamal após a repercussão da imagem.

“São coisas que normalmente não gosto”, disse.

Ao comentar a decisão do atleta, o treinador afirmou:

“Eu disse a ele que, se ele quiser fazer isso, a decisão é dele. Ele já é maior de idade.”

Flick também reforçou que sua prioridade permanece voltada ao desempenho esportivo da equipe.

“Nós nos dedicamos a jogar futebol e temos que levar em conta o que o público espera de nós.”

Apesar da postura mais reservada do Barcelona, organizações favoráveis à causa palestina elogiaram o gesto. O movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), por exemplo, agradeceu publicamente ao jogador e afirmou que “o esporte tem o poder de tornar visível o que o mundo não deve esquecer”.

Posicionamentos anteriores contra discriminação

Filho de pai marroquino e muçulmano, Lamine Yamal já havia se manifestado anteriormente contra episódios de racismo e islamofobia no futebol espanhol.

Após ouvir cânticos anti-muçulmanos durante um amistoso da seleção espanhola, publicou em suas redes sociais:

“Sou muçulmano. Ontem, no estádio, ouvi o cântico ‘Quem não pula é muçulmano’. Eu sei que estava jogando pelo time rival e que não era nada pessoal contra mim, mas, como muçulmano, isso não deixa de ser desrespeitoso e intolerável.”

Agora campeão do mundo e apontado como um dos principais destaques da nova geração do futebol internacional, Yamal consolidou sua imagem dentro de campo pelo desempenho na campanha da Espanha.

Para muitos palestinos, entretanto, sua importância também está associada ao gesto realizado durante a comemoração do título do Barcelona, que atravessou fronteiras e ganhou significado especial em meio ao genocídio na Faixa de Gaza.

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