Líder do PSOL na Câmara do Rio restringe agenda pública após sofrer ameaças de morte e ataques racistas

Thais Ferreira (PSOL) foi vítima de ameaças tanto online quanto presencialmente. Partido divulgou nota em solidariedade à parlamentar e cobrou medidas de segurança

A vereadora Thais Ferreira (PSOL) decidiu suspender suas atividades presenciais na Câmara do Rio e restringir sua agenda pública após ser alvo de uma escalada de violência política na última semana. A parlamentar tem sofrido intimidações que vão de ameaças de morte a ataques racistas e misóginos. A informação foi confirmada nesta quarta-feira (12).

A líder do PSOL na Casa, que já estava licenciada para acompanhar questões familiares de saúde, não deverá retornará ao plenário até que tenha a segurança garantida. Por conta do risco, a atuação externa da vereadora ficará limitada. O Colégio de Líderes da Câmara deve se reunir ainda nesta semana para discutir o caso.

Os ataques têm sido pontuados pela vereadora há pelo menos dois meses. No entanto, a situação se agravou após as ameaças, que começaram nas redes sociais, passarem a ocorrer também presencialmente.

A executiva estadual do PSOL divulgou uma nota em solidariedade ao mandato. Segundo o texto, a vereadora chegou a ser abordada presencialmente por um homem desconhecido. A família de Thais Ferreira também estaria sendo alvo das ameaças. 

“É inadmissível que uma representante eleita pelo voto popular seja forçada a restringir suas agendas públicas e presenciais por falta de garantias de segurança — o que representa uma violação direta ao livre exercício do mandato e um ataque à própria democracia”, diz trecho da nota.

A Câmara do Rio também se manifestou sobre o caso. Em nota, a Casa afirmou que tem dado suporte à vereadora desde que tomou ciência das ameaças que ela vinha recebendo, em outubro, e reforçou que já oferece um carro blindado para dar mais segurança à parlamentar.

Nas redes sociais, vereadores e deputados têm manifestado apoio à Thais. “Não seremos interrompidas. Sigamos na luta, minha amiga. Toda minha solidariedade”, comentou Renata Souza (PSOL), da Alerj, no post do partido.

A deputada de Minas Gerais Bella Gonçalves (PSOL-MG) classificou a situação como gravíssima principalmente pelas ameaças presenciais. “Tudo isso após sua postura impecável contra toda a violência da operação que acabou em chacina”, publicou a colega de sigla.

Vereadora já havia denunciado as ameaças

Na última semana, Thais Ferreira abriu um registro de ocorrência na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) por conta das intimidações que vinha sofrendo, que vão de ameaças de tortura à execução. A Polícia Civil abriu uma investigação para apurar o caso.

Os ataques aumentaram após as manifestações contrárias de Thais contra a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, criticada por conta do saldo de mortos — a ação é considerada a mais letal da história fluminense, totalizando 121, incluindo quatro policiais. 

Em um dos ataques direcionados à Thais Ferreira, um usuário do X (antigo Twitter) a acusou de ser “faccionada” e tinha que “ser torturada e morta”.

Thais Ferreira (Psol) foi alvo de racismo e ameaças de morte após criticar megaoperação | Reprodução

Colegas de parlamento prestam solidariedade

O caso repercutiu na sessão extraordinária desta quarta-feira. Rick Azevedo (PSOL) prestou solidariedade à colega e traçou um paralelo com o assassinato político da ex-vereadora Marielle Franco, em 2018.

“Mais uma vez a gente presencia esse cenário político no Rio onde você não pode discordar e exercer sua política. Tivemos a vereadora Marielle Franco que foi executada na cidade e seguimos nesse percurso triste em que a classe política se trata como inimiga quando discorda e tem essa tática de ameaçar a vida do parlamentar”, desabafou Azevedo.

A notícia pegou os demais vereadores de surpresa. Paulo Messina (PL), que presidia a sessão, sugeriu que o tema fosse levado para discussão na cúpula da Casa, para que a Mesa Diretora tome uma providência.

O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Marcos Dias (Podemos), colocou o colegiado à disposição para atuar no caso. “A comissão está à total disposição para acompanhar, apurar e fazer diligências. É uma situação muito grave quando ataca a sociedade como um todo, mas ainda pior quando tem como alvo um parlamentar escolhido nas urnas para defender o povo”, afirmou o edil

Leia a nota do PSOL estadual na íntegra:

“NOTA OFICIAL – PSOL RIO DE JANEIRO

Em solidariedade à vereadora Thais Ferreira e pela defesa da democracia e da vida das mulheres negras na política

A Executiva Estadual do PSOL-RJ manifesta sua mais profunda solidariedade e apoio à vereadora Thais Ferreira, líder da bancada do PSOL na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que vem sofrendo ameaças de morte, ataques racistas e misóginos, além de tentativas de intimidação política que se intensificaram nas últimas semanas.

Os ataques começaram nas redes sociais e agora transbordaram para a vida real, atingindo também sua família. Na última semana, a vereadora foi ameaçada presencialmente por um homem, em um episódio grave de violência política, racista e de gênero, que está sendo investigado pelas autoridades competentes.

Reafirmamos que o ataque à vereadora Thais Ferreira não é apenas pessoal, mas institucional: trata-se de uma agressão direta à democracia, ao Parlamento e às mulheres negras que conquistaram o direito de ocupar espaços de poder. É inadmissível que uma parlamentar eleita pela segunda vez, mãe de três filhos, tenha sua liberdade política e sua segurança ameaçadas pelo simples fato de exercer seu mandato com coragem e compromisso com o povo.

O PSOL-RJ recorda que a história recente da nossa cidade carrega a marca trágica do assassinato da vereadora Marielle Franco — também mulher negra, favelada e do PSOL —, vítima de uma brutal execução que até hoje exige respostas. O caso de Thais reforça a necessidade de garantir mecanismos efetivos de proteção a parlamentares mulheres, negras e defensoras de direitos humanos, para que nunca mais se repita o que vivemos em 2018.

Neste momento, a vereadora Thais Ferreira está sendo coibida e privada de exercer plenamente sua atividade parlamentar, em razão da gravidade das ameaças e do risco à sua integridade. É inadmissível que uma representante eleita pelo voto popular seja forçada a restringir suas agendas públicas e presenciais por falta de garantias de segurança — o que representa uma violação direta ao livre exercício do mandato e um ataque à própria democracia.

O PSOL-RJ convoca todos e todas a se somarem a uma campanha ampla de solidariedade à vereadora Thais Ferreira, em defesa da democracia, da vida das mulheres negras e do livre exercício da atividade parlamentar. Porque defender Thais é defender a democracia, o direito das mulheres negras de estarem na política e o próprio Parlamento como espaço de representação popular”.

Nota da Câmara dos Vereadores na íntegra:

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro tem dado à parlamentar Thais Ferreira todo o apoio desde que foi informada das primeiras ações contra a vereadora.

Em 14 de outubro, assim que tomou conhecimento das primeiras ações de intimidação à parlamentar, ou seja, antes mesmo da operação policial do dia 28 de outubro, a presidência determinou que a diretora de Segurança da Câmara acompanhasse Thais Ferreira à delegacia para registrar a ocorrência.

Após a operação policial do dia 28, quando novas ameaças foram registradas, a Diretoria de Segurança voltou a se colocar à disposição da vereadora e se prontificou a ajudar no que for preciso.

Reforçamos que, a pedido da vereadora, a Câmara já oferece um carro blindado para reforçar a sua segurança“.

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