A revista britânica The Economist publicou nesta quinta-feira uma dura análise sobre a crise que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF). A publicação sustenta que a Corte, antes considerada decisiva para impedir ameaças à democracia brasileira, passou a enfrentar questionamentos capazes de comprometer a confiança nas próprias instituições que buscou proteger.
O texto reconhece que o Supremo “salvou” a democracia ao responsabilizar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pela tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Na avaliação da revista, porém, o tribunal agora “está no centro de um escândalo de corrupção sórdido e em constante expansão”.
Alexandre de Moraes aparece como personagem central da análise. A Economist revisita a atuação do ministro no inquérito das fake news e questiona decisões que resultaram na retirada de perfis bolsonaristas das redes sociais. Segundo a publicação, a investigação “continua até hoje, sendo impossível saber quantas contas o Sr. Moraes censurou ou por quê”.
Revista questiona atuação de Moraes
A Economist argumenta que medidas consideradas excepcionais durante o período de maior tensão institucional acabaram ampliadas ao longo dos anos.
“Os abusos se tornaram mais comuns: o Sr. Moraes usou a investigação para se proteger e proteger seus colegas de acusações de irregularidades, inclusive perseguindo fiscais da Receita Federal e fontes de jornalistas. O Sr. Moraes também ficou comprometido no caso devido aos seus papéis como vítima, promotor e juiz. Os subordinados do Sr. Bolsonaro planejaram assassinar o ministro, mas ele supervisionou a coleta de provas contra eles e proferiu uma sentença de culpado”, diz trecho.
Segundo a revista, naquele momento grande parte da sociedade brasileira “ignorou essas preocupações diante da ameaça maior”. O cenário teria mudado com as revelações relacionadas ao caso Master.
A publicação descreve Daniel Vorcaro como um “playboy” e afirma que o Banco Master teria funcionado como “um esquema Ponzi com tráfico de influência”.
“Tudo indica que o banco do Sr. Vorcaro era um esquema Ponzi com tráfico de influência. Ele convidava políticos para festas luxuosas com prostitutas e homenageava diversos membros do Supremo Tribunal Federal, incluindo o Sr. Moraes”, resume a publicação estrangeira.
Caso Master amplia pressão sobre Supremo
A Economist classifica como “preocupantes” as conexões identificadas entre Moraes e Vorcaro. Entre os episódios mencionados estão a contratação do escritório ligado à família do ministro para representar o banco “em um contrato incomumente vago e caro” e acordos que, segundo a publicação, permitiriam à família Moraes utilizar um avião e um helicóptero pertencentes ao ex-banqueiro.
A revista também aborda as mensagens atribuídas a Moraes e enviadas a Vorcaro por mecanismos que impediriam sua posterior recuperação.
“Aparentemente, o Sr. Moraes também aconselhava o Sr. Vorcaro usando um recurso do WhatsApp que faz com que as mensagens desapareçam após serem lidas. A frequência dessas mensagens aumentou pouco antes da prisão do Sr. Vorcaro, que tentava fugir do país, levantando suspeitas sobre o tipo de conselho que o Sr. Moraes estaria dando ao fraudador. O Sr. Moraes nega qualquer irregularidade”, conta a Economist.
Para a revista, é “decepcionante” que um integrante do Supremo mantivesse esse tipo de relação com quem classifica como “o maior fraudador do Brasil”. A publicação também critica a reação de Moraes às propostas do presidente do STF, Edson Fachin, para a criação de um código de ética para os ministros.
Ao mesmo tempo, a Economist pondera que Moraes “pode ter razão” em parte de seu confronto com André Mendonça.
“O Sr. Mendonça ainda não publicou provas contra outros ministros que também tiveram relações com o Sr. Vorcaro. A Polícia Federal acusou o Sr. Mendonça de interferir na coleta de provas. Em 8 de setembro, ele tentou suspender o chefe da Polícia Federal e impedir a divulgação de relatórios de inteligência sobre juízes. No entanto, em 2020, quando o Sr. Mendonça era ministro da Justiça do governo Bolsonaro, ele supervisionou a compilação de um dossiê sobre centenas de policiais e acadêmicos que Bolsonaro considerava inimigos”, pontua a publicação.
Crise pode ter consequências políticas
Na conclusão, a revista amplia a análise para as consequências institucionais e políticas da crise. Segundo a Economist, o desgaste do STF fortalece aliados de Bolsonaro no Congresso que defendem o afastamento de ministros depois das eleições e um indulto ao ex-presidente.
A publicação alerta ainda para o risco de que problemas na condução dos procedimentos comprometam juridicamente a investigação sobre o Banco Master e acabem beneficiando políticos relacionados a Vorcaro.
“Os erros processuais de Mendonça e as tentativas descaradas de Moraes de se proteger também podem fornecer justificativa legal para encerrar toda a investigação do Banco Master. Isso beneficiaria não apenas Moraes e alguns de seus colegas, mas também dezenas de políticos ligados ao fraudador. Um deles seria Flávio Bolsonaro”, afirma.
“Tendo afirmado nunca ter conhecido o homem, Flávio foi desmascarado em maio, após o vazamento de mensagens de áudio nas quais ele pede milhões de dólares a Vorcaro”.
Para a Economist, contudo, a principal consequência da crise ultrapassa a situação individual dos ministros, dos políticos investigados ou do próprio caso Master. O risco maior estaria na perda de credibilidade das instituições brasileiras.
“Esta é a tragédia do Brasil: a corrupção no âmago de suas instituições pode minar a confiança na democracia mais do que Bolsonaro jamais conseguiu”, completa a Economist.







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